Aquicultores, produtores rurais e
gestores temem que o açude seja esvaziado, como ocorreu em 1993
Preocupação. Esse é o sentimento
das lideranças políticas locais, dos piscicultores, produtores rurais acerca da
decisão do governo do Estado de que as águas do Açude Orós, na região Centro-Sul do Ceará, podem ser liberadas em grande escala, a partir de abril de
2016, para atender à necessidade de consumo da Grande Fortaleza, caso não
ocorra recarga nos açudes durante a próxima quadra chuvosa. A cidade começa a
se mobilizar e discutir a medida anunciada pelo governo.
Atualmente, o açude libera, por
meio da válvula dispersora e do canal de transposição, cerca de quatro mil
litros por segundo. O esvaziamento do reservatório tem impacto enorme na
economia regional, vai gerar desemprego, queda de produção de piscicultura, agropecuária
e colapso no abastecimento de várias localidades e até afetar a transferência
de água por caminhões-pipa para dezenas de municípios da Paraíba, que há um ano
fazem o abastecimento diário no Açude Lima Campos, que depende do Orós.
O prefeito Simão Pedro mostra-se
muito preocupado e defende a ideia de que a decisão já anunciada pelo governo
do Estado precisa ser analisada, considerando a necessidade futura do consumo
da Região Metropolitana de Fortaleza e a grave consequência que ocorreria na região,
mediante o esvaziamento do Açude Orós. "Enfrentamos uma situação grave e
as pessoas precisam ter consciência sobre o uso da água sem desperdício",
frisou. "A Grande Fortaleza precisa dar exemplo de economia. É preciso uma
grande campanha de alerta".
O açude Orós tem papel importante
na sustentabilidade da economia local, gerando trabalho e renda para centenas
de famílias de produtores de tilápia em tanques redes; milhares de agricultores
e criadores nas várzeas do reservatório, em Quixelô; e por dezenas de
quilômetros ao longo do Rio Jaguaribe.
"O Orós é uma verdadeira
indústria, pois gera emprego e renda para milhares de famílias", observou
o ex-gestor municipal Eliseu Batista Filho. "Todos nós estamos
preocupados, vendo a situação se agravar na Paraíba e no Ceará, daí a
necessidade de ampliar as campanhas de uso consciente da água". Ele
afirmou que a questão não é impedir a transferência de água para Fortaleza, mas
ponderar que não se deve simplesmente esvaziar o Açude Orós sem um plano
compensatório e ações alternativas para os produtores rurais.
O Açude Orós, nos últimos anos,
vem assegurando a perenização do Vale do Jaguaribe até o Açude Castanhão,
transfere água para abastecimento das cidades de Jaguaribe, Jaguaribara, Icó,
além de distritos e vilas, como Feiticeiro e Nova Floresta, em Jaguaribe, e
Guassussê, Pedregulho e Igarói em Orós.
A atividade de piscicultura na
bacia do Açude Orós gera ocupação para 700 famílias. A produção de tilápia por
mês é estimada em 120 toneladas. O quilo do pescado é vendido em média por R$
6. São cerca de R$ 7,2 milhões movimentados mensalmente nas mãos de produtores
da aquicultura familiar.
"Todo esse quadro mostra que
é preciso alertar a população do Ceará para o uso restrito, econômico de
água", disse o prefeito Simão Pedro. "Vamos procurar inicialmente a
Companhia de Gestão de Recursos Hídricos (Cogerh), a Secretaria de Recursos
Hídricos (SRH) e discutir sobre a decisão de esvaziar o Orós", anunciou.
"Uma medida drástica dessa dimensão vai gerar prejuízos enormes para a
economia regional".
O esvaziamento do Açude Orós,
ocorrido em 1993 para transferência de água, em caráter de urgência, para a
capital cearense, por meio do Canal do Trabalhador, ainda está na memória dos
moradores e produtores da bacia do reservatório. Naquele ano, ficou com menos
de 10% da capacidade. "Até hoje não houve nenhuma compensação",
observou o produtor rural Luís Cândido. "Centenas, milhares de produtores
ficaram sem trabalho e renda por mais de dois anos", disse.
O proprietário de barco que faz
passeios com turistas disse que a movimentação já caiu mais de 50% porque o
açude está com volume baixo. "Se secar, ninguém vem visitar e vamos viver
de quê?", disse Pedro Souza. O integrante do Comitê de Bacia do Alto
Jaguaribe, Paulo Landim, disse que questionou, na mais recente reunião em
Limoeiro do Norte, o anúncio do governo em adotar uma operação de liberação de
água do Açude Orós em grande quantidade para o Castanhão e depois para
Fortaleza. "Em 1993, não existiam os comitês de bacias e as comissões
gestoras", lembrou. "Agora, esses órgãos têm discussão coletiva sobre
a vazão dos açudes e essa decisão do governo não passou ainda por nenhuma
dessas instâncias", completou.
Landim disse que, caso ocorra a
transferência em larga escala de água do Orós, será uma medida que esvazia o
papel dos órgãos de deliberação da vazão de água nos açudes do Ceará.
"Creio que haverá mobilização, pois milhares de pessoas dependem da água
do Orós".
Há cerca de um mês foi suspensa a
transferência de água por gravidade do Orós para o Açude Lima Campos, em
decorrência da queda de volume do reservatório. Centenas de caminhões-pipa
continuam retirando água do Lima Campos para dezenas de municípios da Paraíba.
A cidade de Icó também depende da água desse açude para o abastecimento dos
moradores.
Diário do Nordeste



