Está faltando camarão no Ceará. Com isso, muitos restaurantes que
tinham o crustáceo como carro-chefe do cardápio estão procurando outras
alternativas para satisfazer a clientela. A dificuldade de encontrar o
produto se deve à infestação dos viveiros por um vírus conhecido como
mancha branca que não faz ao ser humano, mas leva os crustáceos à morte,
com a calcificação da carapaça. Uma vez infectado, a morte é rápida.
Os donos de restaurantes reclamam da dificuldade em encontrar o
alimento e da elevação nos preços, que chega a 80% quando comparada ao
ano passado. Além dos valores mais altos, os empresários afirmam que
está difícil de encontrar no volume necessário. Os compradores alertam
que não há quantidade suficiente para atender a demanda. Com a
infestação, que também atingiu os viveiros do Rio Grande do Norte, a
queda na produção chega a 70%, de acordo com os produtores.
Ingrediente presente em 70% dos pratos servidos no restaurante Budega
do Poço, no Bairro Varjota, em Fortaleza, o camarão está com tamanho
menor e preço mais alto. "Nós estamos tendo que nos reinventar. Para
nós, a crise econômica pela qual está passando o país foi multiplicada
por 10 por causa da escassez da nossa principal matéria-prima", relata
Thiago Gomes Ferreira, gerente do restaurante.
Segundo ele, antes da infestação dos viveiros pelo vírus da mancha
brança, o consumo de camarão no restaurante chegava a 300 quilos por
semana. Hoje, mal conseguem 150 quilos para trabalhar. "Os clientes
reclamam do tamanho do crustáceo que está sendo servido e do preço
cobrado. Se antes a gente conseguia comprar camarão por até R$ 13 o
quilo, atualmente não se consegue adquirir por menos de R$ 35", explica.
Para permanecer funcionando, o restaurante está apostando em outros
ingredientes, como a tilápia. "O grande problema é explicar o problema
para os fregueses", diz.
'Produção nunca mais será a mesma'
“Os produtores estão começando a povoar novamente os viveiros, mas a produção nunca mais será a mesma, a não ser que se amplie a área de cultivo”, lamenta o empresário cearense Cristiano Maia, maior produtor de camarão do Brasil e presidente da Associação Cearense de Produtores de Camarão.
O Ceará é um dos maiores produtores de camarão do Brasil. Só em 2015,
de acordo com a Associação Brasileira de Criadores de Camarão, o estado
produziu 76 mil toneladas do crustáceo, representando 65,7% da produção
do país. No Ceará, são cerca de 700 fazendas de criação de camarão.
O empresário Cristiano Maia tem fazendas de cultivo de camarão no Ceará
e no Rio Grande do Norte, estado que está passando pela mesma
infestação. No Ceará, ele é dono da Samaria Aquicultura, que produz
camarão em cativeiro no município de Paraipaba, no litoral Norte do
Estado. “Cheguei a perder toda a produção mensal em uma das minhas
principais fazendas”, conta.
De acordo com o empresário, em 2015, a produção de suas fazendas foi de
duas mil toneladas. Em 2016, a produção aumentou e chegou a cinco mil
toneladas. “Produzia 200 mil quilos por mês e, em novembro, só consegui
20 mil quilos”, conta. Apesar da repovoação dos viveiros, a expectativa
dos produtores para os próximos dois anos, não é favorável.
“Se não houver aumento nas áreas produtivas, é possível que consigamos
recompor a produção em 50% no próximo ano e em torno de 70% a partir de
2017”. O resultado, é escassez do produto e, consequentemente, preço
mais alto. “Com o vírus, o preço ao consumidor final aumentou cerca de
50%”, diz Cristiano Maia.
G1



