Produtores de mel no Ceará relatam enfrentar dificuldades para obter a
certificação do produto, entrave que limita o avanço das exportações. A
informação foi apresentada durante o evento PEC Brasil 2026, em
Fortaleza.
Para que produtos de origem animal, como o mel, possam ser
comercializados, eles precisam de selos de certificado de inspeção, que
podem englobar níveis municipal (SIM), estadual (SIE) e federal e
exportação (SIF).
Há ainda o Sistema Brasileiro de Inspeção (SISBI), com abrangência
nacional. Um apicultor pode comercializar o mel natural e os derivados
sem a necessidade dos três selos, mas o SIF é o único que garante vendas
para o exterior.
Segundo o presidente da Federação Cearense de Apicultores (Fecap),
Joventino Neto, o Ceará tem 70 mil apicultores, a maioria de pequeno
porte.
Para todo esse contingente, o total de casas com o SIF válido chega a somente cinco no Ceará, mas "só três estão em funcionamento".
A produção de mel no Ceará, embora seja uma das maiores do Brasil, enfrenta desafios persistentes, segundo os apicultores.
Um deles envolve a falta de certificação dos produtores buscando
aumentar as vendas no mercado nacional e até mesmo para as exportações.
Ainda que as exportações de mel de abelha a partir do Ceará, entre janeiro e maio de 2026, tenham alcançado R$ 10,8 milhões,
conforme dados da ComexStat, plataforma do Ministério do
Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), entidades do
setor apontam que o Estado poderia vender muito mais mel para o
exterior, situação que fica entravada em virtude da falta de
certificação.
Situação é generalizada no Estado, afirma Fecap
Segundo Joventino, o Estado tem cerca de 60 casas de mel construídas
pelo Projeto São José, da Secretaria de Desenvolvimento Agrário (SDA),
mas sem funcionamento efetivo ao longo do ano.
Lafaete Mesquita, coordenador-executivo do Projeto São José IV,
explica que foram investidos pouco mais de R$ 21 milhões desde 2018 na
construção dessas casas de mel e outros R$ 2 milhões devem ser
desembolsados para cinco novos empreendimentos.
"Acredita-se que essas casas estejam cumprindo sua função, mas é
preciso compreender a dinâmica dos grupos. As casas não funcionam todo o
ano, obedecem à florada e a organização do grupo para operarem, o fato
de parte do ano elas não estarem em funcionamento não significa que
estejam paralisadas", pondera.
"Financiamos tanto a construção de casas de mel como entrepostos,
quanto equipamentos para essas casas funcionarem. Mas para venderem o
mel para outros locais, essas casas precisam estar certificadas. Não
financiamos esses selos, são de interesse da entidade, até porque tem
custo de manutenção. Tem entidade certificada por nós que não teve o
interesse em se certificar. A inspeção é de responsabilidade de cada
grupo", acrescenta.
Já Erisvaldo Maia, gerente de Inspeção de Produtos de Origem Animal
da Agência de Defesa Agropecuária do Estado do Ceará (Adagri),
acrescenta que há somente um estabelecimento registrado na categoria
"unidade de beneficiamento de produtos de abelhas". Outros cinco
encontram-se em processo de registro.
Com relação ao SIF e ao SISBI, a reportagem procurou o Ministério da
Agricultura e Pecuária (Mapa) em busca do quantitativo exato dos
estabelecimentos com a certificação federal. Quando houver retorno, este
material será atualizado.
Apicultora critica de falta de certificação
A engenheira agrônoma Melca Macêdo divide as atenções do dia a dia
com a administração da Melka, da qual é fundadora e CEO. A empresa, em
funcionamento desde 2021, atua no processamento de mel de abelha em Limoeiro do Norte, no Vale do Jaguaribe cearense.
Mensalmente, são 150 quilogramas (kg) do alimento processados, e ela
ainda batalha por uma certificação adequada junto às autoridades,
situação detalhada por ela em entrevista ao Diário do Nordeste durante participação na PEC Brasil 2026.
"O maior gargalo que temos hoje é mercado. Temos dificuldade em
conseguir selos de certificação, não temos ainda uma estrutura grande
para tirar o selo de certificação para o mercado interno e para as
exportações. Temos um mercado muito grande para exportar e não temos o
selo, e o mercado que temos está dando trabalho de entrar", explica.
Essa falta de certificação é um entrave para a própria cadeia produtiva do mel,
que a apicultora define como "bastante rentável". "A gente consegue
fazer um leque de produtos que traz um valor agregado tanto para a
apicultura quanto para o mercado", observa.
Nesse contexto, Melca precisa mandar o mel para ser envasado com parceiros que possuem certificação em Monsenhor Tabosa,
cidade do Sertão de Crateús que fica a mais de 300 quilômetros (km) de
distância de Limoeiro do Norte por estrada, o que deixa os produtos mais
caros, segundo ela.
"Precisamos de maior agregação de valor dos produtos. Hoje não estou
produzindo, somente comprando. Tenho planos de voltar a produzir,
principalmente com o mel certificado como orgânico", diz Melca.
A situação é corroborada por Davi Queiroz, analista ambiental da
Federação da Agricultura e Pecuária do Ceará (Faec). De acordo com ele, a
produção melífera no Estado precisa ser profissionalizada.
"É necessário ainda atender às normas regulamentadoras para
certificação e entender os mercados potenciais que agregam valor a
cadeia, além de apoio governamental para regularizar as casas", defende.
Maracanaú ganhará cooperativa de exportação de mel
Mesmo que o Estado exporte o alimento em quantidades consideráveis,
Joventino expõe que a maior parte do mel de abelha produzido no Estado é
enviada para o Piauí para o processamento, o que prejudica o
desenvolvimento pleno da cadeia produtiva cearense.
Nas palavras dele, isso só será viabilizado com a futura Centercop
(Central de Cooperativas), que será criada para aglutinar os
apicultores do Estado em uma área de 6,6 mil metros quadrados em
Maracanaú, na Grande Fortaleza.
"A apicultura é a base do agronegócio. Sem abelha, nada vinga. Não dá
para entender porque tanta marcação com a apicultor, e por isso,
estamos fundando a primeira cooperativa para exportação de mel", comenta
o presidente da Fecap.
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| Foto: Governo do Piauí/Divulgação |
Joventino já havia afirmado ao Diário do Nordeste que a Centercop pretende organizar a exportação direta do produto pelo Ceará, reduzindo custos logísticos e deixando o mel de abelha cearense mais competitivo.
Ainda de acordo com ele, o Piauí "compra 80% do nosso mel, e ficam
somente 20% para o Ceará". De uma produção de cerca de R$ 100 milhões, o
presidente da Fecap estima que somente R$ 20 milhões ficam para o
território cearense.
"O mel comercializado passa de 6 mil toneladas por ano no Ceará. O
Estado perde bilhões em arrecadação. É uma briga desigual, e quem sofre é
o pequeno apicultor", lamenta.
Davi Queiroz endossa a questão com a problemática da falta de
certificação das casas de mel no Ceará, cujo mel precisa ser enviado
para o Piauí para processar.
"É essencial investir em equipamentos, adequações sanitárias, apoio
governamental para treinamentos, profissionalização dos apicultores e
gestão da organização (associações e cooperativas) para enfrentar a
burocracia", argumenta.
Produção de mel no Ceará sobe em um ano
Os dados da Pesquisa da Pecuária Municipal (PPM), do Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apontam que o Ceará segue em crescimento na produção de mel no País.
Entre 2023 e 2024, no último levantamento disponível, a alta foi de 7,2%. Foram 410 mil toneladas a mais produzidas, chegando a 6,05 milhões de toneladas em 2024.
Nos municípios, mesmo perdendo o posto de maior produtor de mel do Brasil, Santana do Cariri se mantém na liderança estadual, que produziu 940 mil toneladas de mel.
Nas dez primeiras posições, o destaque fica com Salitre, que mais do que triplicou a produção de mel, saindo de 49 mil toneladas para 162 mil toneladas.
(Diário do Nordeste)