Uma espécie que não existe em nenhum outro lugar do mundo vive em uma
única poça temporária do interior do Ceará e só aparece quando chegam
as chuvas. O Cynolebias penaforte, nova espécie de peixe das nuvens descrita pela ciência,
foi descoberto graças a uma mobilização que começou nas redes sociais e
terminou em uma expedição científica ao município de Penaforte, no
Cariri cearense.
A história começou quando Kayque Fernando de Alencar Ferreira,
morador da cidade e seguidor do perfil de divulgação científica Peixes
da Caatinga, reconheceu nas publicações um peixe que costumava capturar durante a infância.
Quando o período chuvoso chegou, ele fotografou um exemplar e enviou a
imagem ao biólogo Telton Ramos, pesquisador da ictiofauna (conjunto de
todas as espécies de peixes que habitam determinada região) da Caatinga e
mantenedor do perfil na rede social.
Até então, não havia qualquer registro de peixes das nuvens na região do Alto Jaguaribe. A fotografia despertou a curiosidade dos pesquisadores, que decidiram investigar a ocorrência da espécie.
“Quando ele mandou a foto, eu fiquei louco. Pensei: ‘Caramba, a gente
não tem registro desse peixe em Penaforte. A gente precisa ir lá’”,
relembra Telton.
Sem financiamento institucional para a viagem, a solução também veio
pelas redes sociais. Os próprios seguidores do perfil organizaram uma
campanha para custear a expedição, realizada em junho de 2021.
“Um seguidor sugeriu fazer uma vaquinha. As pessoas contribuíram para
que a gente pudesse viajar. Fomos eu e um aluno de doutorado numa
caminhonete antiga, que os seguidores chamam carinhosamente de
Siriguela”.
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| Foto: Reprodução/Arquivo pessoal. |
A viagem confirmou a suspeita: tratava-se de uma espécie até então desconhecida pela ciência. O estudo foi publicado em julho deste ano, batizando oficialmente o animal como Cynolebias penaforte, em homenagem ao município onde foi encontrado.
O que são os peixes das nuvens?
Apesar do nome curioso, os peixes das nuvens não caem do céu. A explicação está no ciclo de vida incomum desses animais, considerados um dos grupos mais ameaçados do Brasil, de acordo com Telton.
Eles vivem exclusivamente em poças temporárias formadas pelas chuvas,
sem qualquer ligação com rios ou açudes. Quando a água seca, os peixes
morrem, mas deixam os ovos enterrados na lama.
Durante toda a estiagem, os embriões permanecem adormecidos até que as chuvas retornem e inundem novamente o terreno.
“É por isso que o sertanejo acredita que eles caem das nuvens.
Chove, a lagoa aparece e, de repente, os peixes estão lá. Na verdade, os
ovos passaram meses enterrados esperando a chuva voltar”, explica
Telton.
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| Foto: Reprodução/Redes sociais. |
A confirmação de que o peixe encontrado em Penaforte era uma nova
espécie levou cinco anos de trabalho, entre 2021 e 2026. Além da coleta
em campo, os pesquisadores realizaram análises morfológicas - comparando
escamas, dentes, nadadeiras, coloração e outras características - e
testes moleculares, com sequenciamento do DNA.
“É como um jogo dos sete erros. A gente compara aquela espécie com todas as outras conhecidas da região para encontrar as diferenças”, resume o pesquisador.
Os resultados das análises morfológicas e genéticas confirmaram que se tratava de uma espécie inédita para a ciência.
Os cientistas ainda retornaram ao município em outras expedições para
verificar se ela ocorria em outros locais, mas não encontraram novos
exemplares.
A descoberta de Cynolebias penaforte não é o primeiro registro recente de uma nova espécie de peixe das nuvens no Ceará. Em 2024, pesquisadores identificaram o Hypsolebia gongobira na bacia do rio Pacoti, também noticiado pelo Diário do Nordeste à época.
Assim como o Cynolebias penaforte, o Hypsolebia gongobira vive em ambientes temporários que dependem das chuvas para completar seu ciclo de vida. A espécie foi encontrada em uma região afetada pela expansão urbana, além de atividades agrícolas e de mineração.
Segundo os pesquisadores, a degradação desses ambientes representa
uma ameaça para os peixes das nuvens. No caso da bacia do Pacoti, os
cientistas defendem a ampliação da área de proteção ambiental para
incluir os habitats onde essas espécies ocorrem.
Nativo da Caatinga, bioma predominante em todo o estado do Ceará, o peixe das nuvens desempenha um papel na representatividade do ecossistema.
Para Telton Ramos, a descoberta da nova espécie serve para desconstruir o preconceito
e chama atenção para a falta de conhecimento generalizado. “Aquela
imagem que as pessoas sempre tiveram, de que a Caatinga é pobre, que o
sertanejo é pobre, que não tem diversidade… Mostra, ainda, que tem
muitas espécies de peixes e de outros animais no geral. Falta incentivo para os estudos para descobrir espécies”.
Considerando os hábitos alimentares dos peixes de água doce, Telton
destaca que eles atuam até mesmo na prevenção de enfermidades.
“Essa espécie é bastante importante porque elas geralmente se alimentam de larvas de mosquitos.” O pesquisador lembra que, historicamente, o Brasil recorreu à introdução de uma espécie exótica para o controle de vetores da dengue, embora a própria fauna nativa já reunisse espécies com potencial para desempenhar essa mesma função.
O professor destaca ainda que, pelas condições de sobrevivência no
semiárido brasileiro, o peixe das nuvens tem um ciclo de vida mais
rápido entre os vertebrados - eles têm entre três e quatro meses para
nascer, crescer, se reproduzir e envelhecer.
Nesse sentido, a espécie é uma forte candidata a pesquisas sobre o envelhecimento humano, uma vez que é um vertebrado próximo do ser humano.
Espécie existe em uma única poça e pode desaparecer
Ainda que tenha um ciclo de vida curto e se adapte às condições adversas do seu habitat, o peixe das nuvens de Penaforte é uma espécie vulnerável suscetível à extinção.
Até o momento, os exemplares foram encontrados apenas em um alagado temporário próximo aos canais de Transposição do Rio São Francisco, com a possibilidade concreta de afetação pela mudança do ciclo do rio a depender das estações do ano.
Vide a fragilidade, o biólogo chama atenção para a entrada da
espécie na Lista Nacional de Espécies da Fauna Ameaçada de Extinção,
organizada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade
(ICMBio).
“Quando ela [a espécie] entra oficialmente na lista de espécies
ameaçadas, é proibido qualquer impacto de força nessas espécies. Então,
você não pode ir lá coletar eles [peixes das nuvens], não pode ir
aterrar, não pode mexer”.
O documento em questão estabelece o nível de risco, fixa prioridades
de conservação e orienta a aplicação de recursos. Com isso, fundamenta
ações como os Planos de Ação Nacionais para a Conservação de Espécies
Ameaçadas de Extinção (PAN), os Planos de Redução de Impactos à
Biodiversidade (PRIM) e a instituição de Unidades de Conservação (UCs),
segundo consta no portal do Instituto.
Os critérios para inserção de qualquer espécie na lista são ditados
pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla
em inglês), referência global para espécies ameaçadas. Dentre as
observações, os animais são avaliados com base
- em taxas de declínio populacional
- tamanhos populacionais
- distribuição geográfica
- perda e fragmentação de habitats
- intensidade de pressões de captura pela atividade de pesca e poluição.
A última edição da Lista Nacional de Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção – Peixes e Invertebrados Aquáticos foi publicada em abril deste ano.
(Diário do Nordeste)