Passadas quase três semanas desde a morte da estudante universitária Isabelle Caracristi, a Polícia Civil do Ceará (PCCE) concluiu inquérito sobre o caso.
João Munhoz Neto, namorado de Isabelle, foi indiciado pelos crimes de violência psicológica e obstrução de Justiça. A investigação não responsabilizou o bacharel em Direito por induzimento ou instigação e auxílio ao suicídio da jovem de 22 anos.
A reportagem solicitou nota à PCCE e aguarda resposta. A matéria será atualizada quando houver resposta da Pasta.
[ATUALIZAÇÃO às 12h32]
A defesa de João Munhoz Neto, representada pela advogada Lígia Peixe, se manifestou sobre o indiciamento e afirmou: "de modo algum houve qualquer obstrução de Justiça. Pelo contrário, nosso cliente sempre cooperou integralmente com as investigações. João disponibilizou o telefone de seu irmão para a polícia e a perícia no dia do fato — tanto é verdade que foi por meio desse número que a polícia entrou em contato".
"Nós o apresentamos à autoridade policial prontamente, assim que solicitado, para prestar todos os esclarecimentos devidos, inclusive neste mesmo momento João entregou o seu próprio aparelho celular, demonstrando cooperação total com a autoridade policial. No tocante à acusação de violência psicológica, a imputação revela-se um completo absurdo. Nosso cliente sempre tratou Isabelle com carinho e afeto. Como um relacionamento tão breve, de apenas cerca de 30 dias, poderia ter gerado o quadro que estão alegando? Acreditamos que há uma tentativa de transferir para o nosso cliente problemas e questões que ela muito provavelmente já vivia anteriormente. É fundamental que se investigue também o seu histórico de vida, os anos anteriores e se ela realmente enfrentava e participava de seus próprios conflitos pessoais e familiares. Afinal, é do João mesmo que ela está falando? A defesa confia plenamente na Justiça e provará a absoluta inocência de seu cliente.”
Para as autoridades, restou evidenciado que Isabelle sofreu uma sequência progressiva de violência, acompanhada de manifestações cada vez mais intensas de sofrimento por parte da vítima.
"Isabelle afirmou sentir-se ameaçada, manipulada, pressionada, sobrecarregada e presa, além de relatar expressamente que as condutas do investigado lhe faziam mal e adoeciam".
João e Isabelle começaram a namorar cerca de dois meses antes da morte da jovem. Ela, universitária do curso de Direito, ingressou em um escritório onde João trabalhava após conseguir uma vaga de estágio.
PRISÃO E SOLTURA DE JOÃO MUNHOZ
A Justiça do Ceará determinou na última semana a soltura de João Munhoz Neto, de 34 anos. O bacharel em Direito, que era namorado da estudante de Isabelle Caracristi, foi preso no último dia 22 de setembro por suspeita de violência psicológica e induzimento ao suicídio da jovem de 22 anos, que se atirou do 23º andar de um prédio na Aldeota.
A decisão aconteceu após pedido da defesa de Munhoz Neto, que teve parecer favorável do Ministério Público do Ceará (MPCE).
Em nota, a Assessoria de Comunicação do Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE) confirmou a ordem para soltar o bacharel. "O Juízo da 5ª Vara do Júri da Comarca de Fortaleza acolheu a manifestação do Ministério Público e revogou a prisão de João Munhoz Neto".
Segundo o Poder Judiciário, "a decisão estabeleceu medidas cautelares, entre elas o distanciamento dos familiares da vítima, o monitoramento eletrônico e a proibição de se ausentar da comarca".
Na época da captura, a advogada de João Munhoz disse que a prisão foi uma "resposta midiática". Ele havia prestado depoimento sobre o caso na 1ª Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), na noite anterior.
Na oitiva, João contou detalhes sobre o relacionamento com a universitária e negou ter cometido qualquer crime. João Munhoz não estava em casa no momento em que a namorada, conforme concluíram laudos produzidos pela Perícia Forense do Ceará (Pefoce), se precipitou voluntariamente do terraço do prédio onde morava com o bacharel.
No dia em que morreu, Isabelle Caracristi relatou a um familiar que vivia um relacionamento abusivo com João Munhoz há aproximadamente dois meses, quando eles iniciaram o namoro. Ela disse ainda que o namorado tinha comportamentos agressivos e possessivos e que se sentia constantemente vigiada por ele.
Em depoimento à Polícia, Rudá Bezerra de Carvalho, dono do escritório de advocacia em que João e Isabelle trabalhavam, disse que ouviu da universitária que o namorado e então chefe direto não a deixava desempenhar funções profissionais sozinha. As informações foram repassadas ao Diário do Nordeste por Leandro Vasques, advogado de Rudá.
"Poucos dias depois, passou a manter relacionamento afetivo com João, homem mais velho e que ocupava posição de ascendência profissional. Em curto espaço de tempo, o investigado passou a participar intensamente de sua vida familiar, financeira, sexual e profissional, bem como a exigir acesso permanente à sua localização. Há elementos de que havia alguma vinculação relacionada a auxílio financeiro e submissão à vigilância do representado, o que constitui elemento indicativo de controle coercitivo", conforme documentos.
Isabelle deixou a casa da mãe para morar com o namorado, irmão e mãe dele.
ÁUDIO ENVIADO UMA HORA ANTES DA MORTE
O relacionamento conturbado entre a estudante universitária Isabelle Caracristi e o bacharel em Direito João Munhoz Neto era frequentemente tema de conversa entre a jovem de 22 anos e um parente dela. Uma hora antes de ser encontrada morta em um edifício na Aldeota, em Fortaleza, Isabelle fez novas revelações ao familiar.
'Não apague este áudio, me responde', pediu ela ao parente por volta das 19h40 do dia 13 de setembro de 2026. Às 20h40 o impacto ao solo da vítima foi registrado. Nas conversas pelo Whastsapp, Isabelle disse "que qualquer coisa que venha a acontecer com ela, este áudio é uma prova. João Munhoz é um doente, não acredite nele".
A editoria de Segurança do Diário do Nordeste apurou com exclusividade e teve acesso ao depoimento do parente de Isabelle, que não terá o nome divulgado para não expor a identidade dele. Ela disse ao familiar que se sentia explorada pelo namorado, que "não aguentava mais os jogos emocionais que ele fazia" e que ela o denunciaria na Justiça do Trabalho devido à exaustiva rotina no escritório de advocacia.
Quando o parente recebeu os áudios e as mensagens da vítima, ele estava em uma lanchonete, motivo pelo qual disse não ter ouvido naquele mesmo momento.
QUEM ERA ISABELLE CARACRISTI?
O Diário do Nordeste conversou com o irmão da universitária, Rafael Magalhães, que falou sobre os "sonhos interrompidos e a tragédia que a família vive agora".
"Desde muito pequena ela sempre quis ser advogada, defensora dos direitos, ela brigava pelos direitos, pelas suas questões. Ela queria ser advogada criminalista, uma juíza, queria defender os direitos de crianças e mulheres", contou Rafael.
A Isabelle, minha irmã, sempre teve muitos sonhos, somos de uma família batalhadora, filhos de professora, filhos de quem sempre lutou".
O irmão lembra da jovem como uma menina alegre e que cuidava da mãe e da avó: "ela gostava de estar presente, de estar junta".
"Todo mês a Isabelle ia pintar o cabelo da minha avó e agora ela pergunta: 'quem vai pintar meu cabelo?'. Ela era comunicadora, divertida, não tinha tempo ruim para a minha irmã".
(Diário do Nordeste)