A empresa Apple anunciou John Ternus como seu novo CEO
(diretor-executivo ou presidente-executivo). Ele substituirá Tim Cook,
que deixará o cargo após 15 anos à frente da empresa de tecnologia
avaliada em quase R$ 20 trilhões.
Ternus, atual chefe de engenharia de hardware e funcionário da Apple há
25 anos, assumirá a função em 1º de setembro. Cook, por sua vez,
passará a ocupar o cargo de presidente do conselho de administração da
Apple.
Cook está à frente da Apple desde 2011, quando o cofundador Steve Jobs
(1955-2011) renunciou ao cargo por motivos de saúde, pouco antes de sua
morte.
Ele permanecerá como CEO por alguns meses a fim de conduzir a transição
ao lado de Ternus. Após esse período, Cook "auxiliará em determinados
aspectos da empresa, incluindo o relacionamento com formuladores de
políticas públicas ao redor do mundo."
A decisão de Cook de deixar o cargo de CEO ocorre após meses de
especulação sobre quem seria o sucessor na Apple, que acaba de celebrar
seu 50º aniversário.
Cook descreveu o cargo como "o maior privilégio da minha vida".
Durante a sua gestão, levou a empresa a se tornar uma das mais valiosas
do mundo. Em 2018, a Apple se tornou a primeira empresa de capital
aberto a atingir valor de mercado de US$ 1 trilhão (cerca de R$ 5,6
trilhões, na cotação atual). Atualmente, vale US$ 4 trilhões (cerca de
R$ 20 trilhões).
Cook descreveu Ternus, o novo CEO, como um executivo "visionário", com
"a mente de um engenheiro, a alma de um inovador e o coração para
liderar com integridade e honra".
"Ele é, sem qualquer dúvida, a pessoa certa para conduzir a Apple ao futuro", acrescentou Cook.
Ternus surgiu como favorito para suceder Cook no ano passado, após a
saída de outro executivo de longa data, Jeff Williams, que ocupava o
cargo de diretor de operações.
Ao longo de seus 25 anos na Apple, Ternus trabalhou em praticamente
todos os principais produtos lançados pela companhia, incluindo todas as
gerações do iPad, diversas gerações do iPhone e o lançamento dos
AirPods e do Apple Watch.
Ternus também supervisionou a transição dos computadores Mac de
processadores da Intel para chips próprios da Apple, o Apple Silicon.
Em comunicado divulgado na segunda-feira (20/4), Ternus se referiu a
Cook como seu "mentor". "Estou cheio de otimismo sobre o que podemos
alcançar nos próximos anos", disse ele.
A Apple foi fundada por Steve Jobs e Steve Wozniak, em uma garagem de
São Francisco, no Estado americano da Califórnia, em 1976. Atualmente,
cerca de 1 a cada 3 pessoas do planeta tem um produto da Apple.
A escolha de um líder com origem em produtos e hardware pode permitir
que a Apple responda a uma crítica recorrente ao período de gestão de
Cook: a de que a empresa deixou de ser inovadora.
Embora Cook tenha supervisionado um crescimento de quatro vezes no
lucro anual da Apple, com uma expansão expressiva nos produtos vendidos
ao redor do mundo, a linha de produtos da empresa permaneceu em grande
medida estática.
Dipanjan Chatterjee, analista-chefe da consultoria Forrester, nos EUA,
elogiou a estabilidade financeira que Cook trouxe à Apple, mas observou
que ele não havia dado à empresa um produto como o iPhone, algo que
pudesse garantir a Ternus outros 20 anos de sucesso.
Para Chatterjee, a Apple "continua estruturalmente dependente do telefone" enquanto "busca seu próximo motor de crescimento".
A nomeação de Ternus indica que a empresa procura "diferenciação" em
seus produtos, disse Chatterjee. Segundo o analista-chefe da Forrester, o
novo líder "precisa resistir à tentação do incrementalismo que tem
marcado a Apple recentemente e escapar da gravidade do iPhone".
Ken Segall, que foi diretor criativo de Steve Jobs por mais de uma
década, disse à BBC: "Não acho que Tim tenha jamais conseguido se livrar
da imagem de executivo de operações."
"Acho que quando as pessoas falam sobre a diferença entre Steve e Tim,
era basicamente isso: Steve [Jobs], o visionário; Tim [Cook], o
executivo de operações que assumiu o comando."
Gil Luria, diretor-geral da gestora DA Davidson & Co, nos EUA,
disse que ter alguém com tanto foco em hardware no comando agora
demonstra que a Apple vai investir mais energia em novos produtos, como
celulares dobráveis e dispositivos vestíveis (wearables, em inglês),
como óculos de realidade virtual e realidade aumentada.
A gigante de tecnologia também enfrentou críticas por ter sido lenta em
aproveitar a demanda crescente por inteligência artificial (IA) e
acabou integrando tecnologias do Google e da OpenAI aos seus sistemas
operacionais.
Após o anúncio de segunda-feira, Sam Altman, da OpenAI, publicou no X:
"Tim Cook é uma lenda. Sou muito grato por tudo o que ele fez e sou
muito grato à Apple."
Tim Cook lidera a Apple desde 2011, quando assumiu o cargo após a saída do cofundador Steve Jobs — Foto: Getty Images
Cook não vinha de uma área de hardware (parte física dos dispositivos,
como celulares e computadores) ou de desenvolvimento de produtos quando
ingressou na Apple.
Em vez disso, havia passado muitos anos como executivo de operações em
empresas como IBM e Compaq. Era um executivo de tecnologia focado em
operações, cadeia de suprimentos, logística e resultados de vendas,
menos voltado à concepção e ao lançamento de novos produtos.
Jobs era mais conhecido e celebrado nessas messas áreas.
Um dos lançamentos mais relevantes durante a gestão de Cook foi o Apple
Vision Pro, um headset (óculos de realidade virtual e aumentada) que
não teve boa aceitação entre os consumidores.
Ainda assim, sua habilidade como executivo operacional fará com que
seja amplamente lembrado como um dos líderes empresariais mais
bem-sucedidos.
Timothy Hubbard, professor da University of Notre Dame Mendoza College
of Business, nos EUA, afirmou que a era Cook transformou a Apple em uma
empresa que é "a melhor em aperfeiçoar, escalar e defender um sistema
extraordinariamente poderoso".
"A questão agora é saber se essa mesma organização conseguirá migrar
para um modelo mais exploratório, em que o sucesso depende de
velocidade, tolerância à incerteza e maior disposição para
experimentar", disse.
A aparente relutância da Apple em mergulhar de cabeça em produtos e
serviços de IA a distanciou de concorrentes como Google, Microsoft e
Meta, que gastam centenas de bilhões de dólares por ano para avançar
nessa área.
Com um novo líder, a Apple pode estar sinalizando interesse estratégico
em uma integração mais profunda da IA em seus dispositivos, disse
Hubbard.
"As mesmas qualidades que tornaram a Apple dominante, como disciplina,
acabamento e controle, podem se tornar limitações se a próxima fase
valorizar abertura e ciclos de desenvolvimento mais rápidos", afirmou
Hubbard. "Essa inovação acelerada foi onde a Apple começou, e talvez
seja para lá que a empresa precise voltar."
(g1)