A construção de redes de apoio nos municípios tem
ocupado boa parte da agenda dos pré-candidatos ao Governo do Ceará. Nas
redes sociais, auxiliares de Elmano de Freitas (PT) e de Ciro Gomes
(PSDB) – nomes que dominam as pesquisas pré-eleitorais por ora – expõem
uma rotina de reuniões com lideranças locais.
Os alvos mais cobiçados são os prefeitos,
naturalmente, pelo caráter centralizador de seus cargos e o peso que
exercem na escolha dos munícipes. Sob essa perspectiva, Elmano tem
vantagem no momento, com mais de 100 gestores no seu entorno.
Contudo, essa influência não é absoluta. É justamente nos municípios onde o governismo não conseguiu consolidar apoio ou onde existem lideranças políticas independentes que o principal adversário do petista, Ciro Gomes, busca construir novas alianças.
“São essas lideranças que estão na ponta, que atuam e permitem que a
candidatura se capilarize, se espalhe por todo o território. Então, na
impossibilidade de você ter um prefeito aliado, você busca quem? A
oposição, outra liderança naquele município que cumpra esse papel, ainda
que não tenha os mesmos recursos que o prefeito teria”, destaca
Monalisa Torres, professora de Teoria Política da Universidade Estadual
do Ceará (Uece).
184
Número de municípios do Ceará.
Na divisão da geografia do voto, fatores como a musculatura dos partidos aliados, o peso do eleitorado de cada cidade e as disputas narrativas sobre apoios adicionam mais camadas à discussão.
Além da estrutura política que os prefeitos oferecem aos candidatos, a melhora da avaliação das administrações municipais também amplia seu peso eleitoral. Segundo pesquisas internas citadas pelo cientista político e diretor técnico do Instituto Opnus, Pedro Barbosa, a média de aprovação das gestões municipais supera atualmente os 70%, o que fortalece a capacidade de transferência de votos nas eleições gerais.
“Há a percepção das pessoas de que a situação em seus municípios, em
larga medida, está melhorando. Estão vendo obras acontecendo,
equipamentos sendo entregues, políticas públicas sendo aprimoradas a
nível municipal, então, naturalmente, os prefeitos tornam-se personagens
ainda mais importantes, especialmente se eles compartilharem a
percepção positiva que se tem das suas gestões municipais com a
estadual”, sintetizou Barbosa.
7 milhões
Número de eleitores do Ceará, segundo o Tribunal Regional Eleitoral (TRE).
Segundo o especialista, o prefeito atua como um "intérprete" das
entregas de governo para a população, sinalizando a quem deve a
“paternidade” de diferentes projetos e programas no seu território –
sejam eles recentes ou antigos.
Ter um grande volume de prefeitos bem avaliados no seu entorno pode, inclusive, blindar governadores incumbentes de desgastes com a população, indica Monalisa Torres.
Ela lembra que a avaliação do segundo governo de Cid Gomes, por
exemplo, foi inferior à do primeiro governo, mas isso não fez diferença
nos pleitos seguintes. Prova disso é que ele elegeu um sucessor em 2014,
Camilo Santana (PT), foi alçado para o Senado Federal em 2018 e
emplacou dezenas de prefeitos nos últimos anos.
Essa relação com lideranças locais é uma via de mão dupla,
complementa Monalisa: o prefeito precisa dos recursos do Estado para
tocar sua gestão e, em contrapartida, atua como cabo eleitoral para o
governador em eleições estaduais.
A dinâmica de retroalimentação é um ativo tão importante nas eleições
do Ceará que nenhum governador enfrentou resistência significativa de
prefeitos desde a redemocratização, mesmo que tenha sido eleito pela
oposição.
“Isso é óbvio; se a pessoa ganha o Governo do Estado, que é eleição
majoritária, a tendência é que realmente haja um número maior de
prefeitos (do seu lado). Mas o que é interessante é que esse número é
sempre muito alto. O PSDB, por exemplo, chegou a ter 90 prefeituras”,
complementa.
Histórico de alinhamento no Ceará
Nesses quase 40 anos, o alinhamento de um grande número de prefeitos
ao grupo governista contribuiu para que os candidatos apoiados pelo
Palácio da Abolição vencessem quase todas as disputas pelo Governo do
Estado. A principal exceção foi a eleição de Cid Gomes, em 2006, quando
ele derrotou o então governador Lúcio Alcântara.
A tabela a seguir ajuda a ilustrar como a relação entre governadores e
prefeitos tem sido uma constante da política cearense nas últimas
décadas. Os dados organizados por Monalisa Torres, extraídos da Justiça
Eleitoral e cedidos ao PontoPoder:
Corrida nos municípios
Os partidos que compõem ou tendem a compor o arco de alianças
favorável à reeleição de Elmano administram atualmente 172 prefeituras
cearenses. Destas, 71 pertencem ao PSB e 47 ao PT, com relações costuradas e sustentadas pelos senadores Cid Gomes e Camilo Santana, respectivamente.
Apesar desse potencial de apoio, o número de prefeitos que já
participaram de reuniões políticas com o grupo governista é menor. Até a
última semana, a relação estava consolidada com 113 prefeituras,
segundo o próprio Camilo, coordenador político da campanha de Elmano.
“Hoje, quarta-feira pela manhã, estou aqui no meu gabinete em
Fortaleza, já recebi 113 prefeitos e prefeitas do Ceará, fora deputados e
deputadas. Quero agradecer aos prefeitos que vieram do interior do
Estado, percorrendo quilômetros e quilômetros, mostrando o compromisso
que eles têm com o projeto do Elmano e do presidente Lula”, disse o
senador petista na última quarta-feira (17).
O próprio Elmano reconhece o caráter estratégico da relação com os
municípios, destacando ações articuladas com os prefeitos “dedicados e
trabalhadores”.
“Evidentemente, pode ter um ou outro que não tem essa mesma condição,
mas a ampla maioria são homens e mulheres com espírito público, e isso é
pré-requisito para as coisas acontecerem e terem o resultado que a
gente gostaria que tivesse”, disse, durante o XIV Seminário dos Gestores
Públicos, na última semana.
Já Ciro, atualmente, tem o apoio público de cinco prefeitos: de
Juazeiro do Norte (Gledson Bezerra, do Podemos), de Acarape (Edilberto
Beserra, do PSB), de Massapê (Ozires Pontes, do PSDB), de Iguatu
(Roberto Filho, do PSDB) e de Parambu (Rômulo Noronha, do
Solidariedade).
Em paralelo, o pré-candidato tem atraído outros expoentes locais,
como vereadores e ex-prefeitos. Junto aos deputados estaduais Felipe
Mota (União), Lucinildo Frota (PL), Antônio Henrique (PSDB) e Cláudio
Pinho (PSDB), Ciro teve encontros com lideranças de 17 municípios na
última semana, como São Gonçalo do Amarante, Brejo Santo e Maracanaú.
Um dos principais representantes do municipalismo cirista, Gledson
Bezerra minimiza o impacto do volume diminuto de prefeitos na campanha.
“A força do Ciro é muito orgânica. É parecido com o que eu vivi aqui.
Quando fui candidato a prefeito de Juazeiro, as pessoas olhavam para o
outro palanque e viam todas as lideranças juntas, ex-prefeitos,
deputados estaduais, federais, enfim. Mas era uma vontade que
vinha muito do povo, de dentro para fora. Então eu acho que o Ciro ganha
ponto por isso”, avalia.
Por outro lado, para a governista Ana Afif (PSB), prefeita de
Cascavel, a atuação direta dos gestores municipais será um diferencial
na campanha. Apesar de estreante no comando do Poder Executivo, a
política destaca o papel estratégico que novos líderes devem desempenhar
nessas eleições.
“Quem fica no dia a dia dos municípios, na ponta, perto do povo, são
os prefeitos. São deputados estaduais, deputados federais. A gente já
tem uma aproximação muito boa com o governo, mas aproxima ainda mais
diante dessa atuação para definir o futuro do Ceará. A gente fica feliz
que, nessa leva de prefeitos novos, a gente tenha uma boa capacidade de
mobilização, de aproximação com o povo”, pontuou.
Maracanaú é caso emblemático
Um exemplo recente de como essa disputa por lideranças municipais tem
se desenrolado ocorreu em Maracanaú, quarto maior colégio eleitoral do
Estado. Ciro Gomes e o prefeito Roberto Pessoa (União) se encontraram durante a tradicional festa de São João da cidade, e o episódio repercutiu.
Para o ex-ministro, o momento representou a retomada do diálogo entre
dois ex-adversários, que se “afastaram sem romper” por atritos em
relação à tributação na época em que Ciro era governador. O
pré-candidato classificou Pessoa como “unanimidade entre a classe
política do Ceará”, que “já merece estar fora do mundanismo das disputas
menores”.
Ao apostar na aproximação, avalia Pedro Barbosa, a oposição tenta
demonstrar que é possível "furar a influência do governo" sobre os
prefeitos. Pesam os fatos, ainda, de Maracanaú abrigar o 4º maior
eleitorado do Estado e ter uma gestão bem avaliada.
“Disputar o apoio do prefeito de uma cidade de grande porte como
Maracanaú é muito importante para qualquer candidatura. Ele usa isso não
somente como um ativo eleitoral, mas como um ativo político, como se
dissesse aos outros prefeitos: ‘Olha, o pessoal já tá querendo vir pro
meu lado, hein? E aí, você vem também? Vamos conversar’”, explica
Barbosa.
Entretanto, após a repercussão, o próprio grupo de Roberto Pessoa explicitou que o seu apoio é reservado à reeleição de Elmano. O governismo, então, usou o ato para reafirmar sua unidade.
“Ou seja, é uma disputa de narrativas. Um vai tentar dizer que está
aproximando e outro vai dizer que isso não é nada demais”, complementou o
cientista político.
(Diário do Nordeste)