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| A policial militar Júlia Natália foi indiciada pelo homicídio do soldado Raphael Sampaio. — Foto: Arquivo pessoal |
A policial militar Júlia Natália Girão Gomes e o marido dela, Antoneudo Ribeiro Lima Júnior, foram indiciados pela polícia, na última sexta-feira (21), pelo assassinato do soldado Raphael Sampaio da Silva, de 27 anos, encontrado carbonizado em um carro na Região Metropolitana de Fortaleza.
O crime aconteceu no dia 11 de agosto, após Raphael sair do serviço
acompanhado de Júlia, que era sua colega de equipe e havia trabalhado
com ele no plantão.
Horas após a localização do corpo do soldado em Itaitinga, Júlia Natália foi presa.
Durante as investigações, a Polícia Civil encontrou contradições e
imagens de câmeras de segurança que mostravam a militar circulando em
outros locais no mesmo período no qual ela disse que ficou amarrada em
um matagal.
A defesa de Júlia Natália, representada pelo advogado Walmir Medeiros,
disse que vai pedir a soltura da agente. Já a defesa de Antoneudo
Ribeiro, feita pela advogada Karla Borges, afirmou que não vai comentar
sobre o caso.
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| Soldado Raphael Sampaio da Silva, de 27 anos, encontrado carbonizado dentro de um carro, estava na Polícia Militar desde junho de 2022. — Foto: Reprodução |
Conforme o inquérito policial, que o g1
teve acesso, imagens de videomonitoramento, sistemas de leitura de
placas, prova testemunhal, exames periciais e confronto das versões
apresentadas pelos investigados ajudaram os investigadores a reconstruir
os acontecimentos que levaram a morte de Raphael Sampaio.
Segundo a Perícia Forense, Raphael levou três tiros na cabeça e depois de morto teve o corpo carbonizado dentro do próprio carro.
No veículo, a perícia encontrou uma algema no banco traseiro e um recipiente com gasolina abandonado próximo ao automóvel.
Veja a cronologia do crime:
16 horas do dia 10 até as 2 horas do dia 11 de agosto: segundo o documento, Raphael e Júlia trabalharam juntos no serviço das 16 horas do dia 10 até as 2 horas do dia 11 de agosto.
Entre 1h48 a 1h58 do dia 11 de agosto: imagens do 16º Batalhão da Polícia Militar registraram o encerramento do serviço de Raphael e de Júlia.
2h19: Raphael
e Júlia foram ao estacionamento do 16º BPM e, posteriormente, entraram
no Hyundai I30, pertencente a vítima, deixando a unidade policial.
2h36:
o carro de Raphael passou pela Avenida Jornalista Thomaz Coelho, em
frente a Areninha, indo em direção ao terminal de ônibus da Messejana.
2h40: Raphael chegou à Rua Florêncio Fontenele, onde Júlia morava com o marido Antoneudo.
2h41: câmeras
de segurança próximo da residência registraram que o carro de Raphael
transitou vagarosamente pela mesma rua até chegar debaixo de uma árvore,
local onde o soldado estacionou o veículo, que permaneceu parado por cerca de 21 minutos.
3h02: um
veículo branco posicionou-se atrás do carro de Raphael e, quatro
minutos depois, realizou manobra de marcha à ré, colocou a traseira do
segundo veículo contra a traseira do veículo da vítima.
3h6: aparece nas imagens clarões atrás do veículo branco, onde, segundo a polícia, são perceptível três sons compatíveis com tiros de arma de fogo. Tudo ocorreu a cerca de 30 metros de distância da residência de Júlia e Antoneudo.
3h07: os
dois veículos deixaram o local em direção à Rua Antônio Alves Ribeiro,
sentido BR-116, ocasião em que o veículo branco foi identificado pelas
características externas como sendo um Chevrolet Prisma.
Nas imagens seguintes, obtidas pela polícia, o Chevrolet Prisma seguiu
na frente, acompanhado de perto pelo veículo de Raphael. Esse foi o
último registro dos dois carros juntos antes do soldado ser encontrado
carbonizado no próprio automóvel.
3h22: o
sistema de videomonitoramento registrou o Prisma trafegando sozinho, a
cerca de 226 metros do local em que o veículo e o corpo de Raphael foram
encontrados carbonizados.
Carro é incendiado em Fortaleza. — Foto: Isaac Macedo/SVM
A investigação da polícia revelou que, embora o veículo Chevrolet Prisma estivesse registrado no nome de outra pessoa, desde setembro de 2025 encontrava-se na posse de Antoneudo, marido de Júlia.
A antiga proprietária vendeu o automóvel pelo valor de R$ 24 mil, sendo
cerca de R$ 2 mil pagos pela conta bancária de Júlia e o restante
partiram da conta de Antoneudo.
Além disso, na madrugada do crime, às 3h29, outra câmera registrou o
Prisma em deslocamento. A análise das imagens, feita pela polícia,
identificou movimento de uma pessoa no banco do passageiro, permitindo afirmar a presença de pelo menos dois ocupantes no automóvel naquele momento.
Há imagens também do Prisma entrando na residência de Júlia e Antoneudo
às 3h32 da madrugada do crime. No exame de papiloscópica realizado no
interior do veículo Chevrolet Prisma, foram encontradas impressões
papilares de Antoneudo.
Após o retorno do Prisma à residência do casal Júlia e Antoneudo, as
imagens registraram, às 3h54, uma pessoa aparentemente saindo do imóvel
portando um objeto luminoso e caminhando por cerca de 7 minutos na área
do crime. De acordo com o inquérito, a Polícia aponta esta pessoa como
alguém que estivesse procurando algum vestígio esquecido.
Posteriormente, às 7h17, Antoneudo foi registrado conduzindo o
Chevrolet Prisma até uma oficina. Às 7h21, ele deixou o estabelecimento
utilizando um Fiat Pulse vermelho.
O Fiat Pulse vermelho usado depois por Antoneudo também foi registrado trafegando em direção à Aquiraz, região em que Júlia apareceu amarrada.
A investigação concluiu, a partir dessa sucessão de imagens e
testemunhos, que Antoneudo teria levado Júlia posteriormente até
Aquiraz, com a criação de uma falsa narrativa de sequestro.
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| Júlia Natália Girão Gomes, Raphael Sampaio da Silva e Antoneudo Ribeiro Lima Júnior — Foto: Reprodução |
As investigações apontaram que o assassinato de Raphael teve motivação
passional, visto que ele e Júlia Natália, ambos casados com outras
pessoas, mantinham relacionamento extraconjungal.
Testemunhas relataram à polícia que a vítima já havia revelado o
relacionamento com a colega de equipe e acreditava que Antoneudo sabia,
pois Júlia havia mostrado uma foto de Raphael para o próprio marido.
Além disso, na véspera do homicídio, Raphael comunicou a uma pessoa próxima que havia conversado com Júlia e que ambos planejavam assumir publicamente o relacionamento, divorciando-se dos respectivos cônjuges para permanecerem juntos.
"Há, portanto, suporte testemunhal para a hipótese de motivação
passional, relacionada ao relacionamento extraconjugal mantido entre
Raphael e Júlia e ao conhecimento ou suspeita de Antoneudo, esposa da
policial militar, acerca dessa relação", diz um trecho do documento.
Uma pessoa ouvida pela polícia retalou ainda que Antoneudo havia
comentado com ela que sabia que estava sendo traído por Júlia.
O inquérito destacou que esse elemento, contudo, não é considerado
isoladamente como prova de autoria. A relevância ocorreu quando
confrontado com a sequência objetiva dos acontecimentos apurados nas
horas imediatamente anteriores e posteriores ao homicídio.
Autoria dos tiros contra o soldado
A análise da polícia, integrada com os elementos produzidos no curso da
investigação, permitiu a hipótese de que Antoneudo possa ter sido
responsável pelos disparos contra o soldado Raphael Sampaio. No entanto,
não há registros audiovisuais que permitam a individualização dele em
caráter conclusivo.
A disposição das lesões dos tiros também foi compatível com a presença
do atirador em região posterior e ligeiramente à esquerda da vítima.
"Esse encadeamento permite considerar plausível, no plano indiciário,
que Antoneudo, movido pelo conhecimento do relacionamento extraconjugal
mantido por sua esposa com Raphael, tenha se utilizado do Chevrolet
Prisma para participar da abordagem e execução da vítima e que possa ter
sido a pessoa que desembarcou do veículo imediatamente antes dos
disparos", consta do documento.
Um exame pericial identificou ainda que Antoneudo apresentou uma lesão
no punho direito, com características de queimadura de segundo grau. O
exame foi realizado três dias após o homicídio do soldado.
"A circunstância também se harmoniza com a hipótese anteriormente
desenvolvida acerca de sua possível atuação material nos disparos: após a
execução, Antoneudo teria acompanhado ou conduzido o deslocamento até o
ponto de abandono do Hyundai I30 e participado da subsequente
utilização de combustível para incendiá-lo, retornando depois no
Chevrolet Prisma à residência do casal".
A policial militar Júlia Natália foi indiciada pelo homicídio do soldado Raphael Sampaio. — Foto: Arquivo pessoal
Quanto a participação de Júlia, a polícia identificou que ela não
vinculava apenas como uma pessoa que mantinha um relacionamento
extraconjugal com a vítima, mas sim um agente ativo.
"Júlia buscou trabalhar exatamente no plantão de Raphael; deixou o
batalhão na companhia dele; acompanhou a vítima até as proximidades de
sua própria residência; e, após os acontecimentos relacionados ao
homicídio, aparece novamente vinculada a Antoneudo", diz a investigação.
Outra testemunha relatou ainda que Júlia não estava escalada para o serviço entre os dias 10 e 11 de agosto,
mas insistiu para trabalhar naqueles dias com a equipe de Raphael, além
de oferecer R$ 50 para outra agente trocar de lugar com ela na escala.
"Tal circunstância possui relevância indiciária porque demonstra que a
presença de Júlia ao lado de Raphael naquela noite não resultou
simplesmente da escala ordinária, tendo decorrido de iniciativa da
própria investigada para trabalhar especificamente naquele plantão",
afirmou a investigação.
Além disso, após o crime ela apresentou a versão de que havia sido
sequestrada por terceiros após uma abordagem na qual Raphael teria sido
atingido por disparos, sustentando ter sido retirada pelos cabelos e
colocada no porta-malas de um veículo desconhecido.
Declarou, inclusive, não recordar quando deixou de utilizar a farda e
passou a vestir o vestido com que posteriormente foi encontrada.
"Sua conduta antecedente e, sobretudo, a atuação posterior coordenada
com Antoneudo e a apresentação de versão incompatível com os registros
objetivos constituem elementos relevantes de adesão à empreitada
investigada".
Para a polícia, há indícios suficientes de que Júlia Natália e
Antoneudo concorreram conscientemente para a prática do homicídio de
Raphael Sampaio, mediante atuação conjunta e divisão de tarefas.
Com isso, o casal foi indiciado por homicídio qualificado, por recurso que dificultou ou impossibilitou a defesa da vítima, e por motivo torpe, relacionado ao contexto de relacionamento extraconjugal, ciúme, possessividade e retaliação.
(G1/CE)