Valentino Talluto escondia que era portador do vírus e insistia em sexo sem proteção; quando questionado, dizia ser alérgico a preservativos.
"Seus atos tinham como único objetivo matar". Foi assim que promotores
descreveram o que fez o contador italiano Valentino Talluto, condenado
nesta sexta-feira (27) a 24 anos de prisão por infectar mais de 30
mulheres com HIV (vírus que transmite a Aids) intencionalmente.
Sob o pseudônimo "Hearty Style", Talluto conheceu por meio da internet
mais de 53 mulheres, com as quais fez sexo desprotegido e sem contar que
era portador do vírus até ser preso, em novembro de 2015.
Quando algumas delas lhe pediam para fazer sexo com proteção, o
italiano, de 33 anos, alegava ser alérgico a preservativos e que tinha
acabado de fazer um teste que descartou a presença de qualquer doença
sexualmente transmissível.
De todas as vítimas de Talluto, 32 mulheres foram infectadas, assim
como os cônjuges de três delas e o bebê de uma quarta. A criança nasceu
com encefalopatia (inflamação no cérebro), segundo os médicos, "devido
ao vírus HIV contraído da mãe durante o nascimento".
Muitas das parceiras do italiano eram estudantes. Algumas já eram mães. A mais jovem tinha 14 anos e a mais velha, 40 anos.
Quando várias delas descobriram, por meio de exames de rotina, que eram
portadoras do vírus, entraram em contato com Talluto, que alegou que
não tinha nada a ver com o contágio.
Outras só souberam de sua condição quando a prisão dele foi noticiada pela imprensa.
Durante o julgamento, que começou em março deste ano em Roma, as
vítimas descreveram os horrores do HIV, incluindo o estigma, e o fardo
do tratamento.
Algumas delas continuaram com Talluto meses depois de descobrirem que
tinham o vírus. No final, foi a traição compulsiva dele - o italiano
chegava a manter seis relacionamentos ao mesmo tempo - que as afastou.
A acusação pediu a prisão perpétua de Talluto por ele ter causado de forma intencional "uma epidemia".
"Talluto nunca colaborou, fez declarações falsas, negou toda a
responsabilidade (...). Suas ações tinham como único objetivo matar",
afirmaram os promotores.
Por outro lado, a defesa alegou que os atos do italiano foram "imprudentes, mas sem intenção".
Segundo seu advogado, Talutto era um homem carente de afeto, que nunca
conheceu seu pai e perdeu sua mãe, viciada em drogas e soropositiva, há
quatro anos. Além disso, argumentaram que as mulheres poderiam ter sido
infectadas por outros homens.
No fim do mês passado, Talluto quebrou o silêncio. Ele se mostrou
arrependido pelo que fez, mas disse não ter consciência dos seus atos.
"Muitas das mulheres com quem me relacionei conheceram meus amigos e
parentes. Disseram que eu queria infectar a maior quantidade de pessoas
possível. Se fosse assim, teria buscado sexo casual em bares; não teria
compartilhado minha intimidade com elas", alegou.
Ao fim de mais de 10 horas de julgamento, Talluto foi considerado
culpado por ter causado "danos físicos graves e incuráveis" a suas
vítimas e condenado a 24 anos de prisão.
O juiz, contudo, não acatou o argumento da acusação de que o italiano teria provocado uma "epidemia".
Essa não foi a única condenação no mundo por contágio intencional de HIV.
No Estado americano do Missouri, que tem uma das legislações penais
mais duras dos Estados Unidos, um jovem de 23 anos foi condenado a 30
anos de prisão em 2015 por esconder que era soropositivo e fazer sexo
sem proteção com cinco homens. Um deles acabou infectado.
No mesmo Estado, outro homem, de 36 anos, foi condenado a 12 anos de
prisão pela mesma acusação. Um de seus ex-parceiros afirmou ter sido
infectado por ele.
Diagnosticado com o vírus HIV havia dez anos, o acusado fez sexo sem
proteção com mais de 300 homens. Durante o julgamento, ele reconheceu
que não informou nenhum deles sobre sua condição.
No entanto, o juiz optou por reduzir a pena para 12 anos de prisão uma
vez que as autoridades tiveram dificuldade para localizar potenciais
vítimas e reunir provas. A maioria dos encontros, organizado por meio da
internet, aconteceu de forma fortuita.
G1
G1



