As mortes dos principais líderes do Primeiro Comando da Capital (PCC),
em liberdade, Rogério Jeremias de Simone, o ‘Gegê do Mangue’; e Fabiano
Alves de Souza, o ‘Paca’, não deixaram só a Polícia cearense em dúvida,
mas os próprios membros da facção. A cada fato novo, a certeza de que
nem as vítimas, nem ninguém esperava por esse desfecho. Tanto é que,
segundo uma fonte da Polícia Civil, ‘Gegê’ e ‘Paca’ embarcaram em um
helicóptero, no dia 16, na Praia do Futuro, junto com os executores para
um voo panorâmico.
A fonte ligada às investigações confirma que a aeronave era alugada
apenas para o passeio, que acabou sendo definitivo para os criminosos
paulistas. O policial civil revelou que seis pessoas entraram no
helicóptero no hangar próximo à praia.
A versão confirma o que a mulher de ‘Gegê’, Andrea Soares Maciel,
declarou em depoimento à Polícia. Ela afirmou que acredita que os
executores eram pessoas próximas, pois nem ela sabia com precisão onde o
marido estaria no momento. Andrea teria chegado em Fortaleza em
setembro do ano passado. No fim do ano, chegaram Juliana, a mulher de
‘Paca’; a irmã, a mãe e os dois filhos de ‘Gegê’. As duas famílias
ficaram na casa comprada pela facção, no Alphaville Fortaleza, no Porto
das Dunas.
A mulher conta que todo mundo, com exceção de ‘Gegê’ e ‘Paca’, voltou
para São Paulo em um ônibus fretado, no mesmo dia em que eles foram
executados. Andrea conta que recebeu uma foto de ‘Gegê’ em que aparecia o
mar. Horas depois soube dos assassinatos.
Na Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco),
Andrea Maciel chorou. Disse que a família levava uma vida tensa. Afirmou
que a casa em que estavam era alugada. Porém, as histórias de pessoas
que tiveram contato com ‘Gegê do Mangue’ sugerem que ele não estava aqui
de passagem.
Um morador do condomínio do Porto das Dunas afirma que ele se
apresentava como João Paulo. “Ele e o amigo estavam sempre juntos. Esses
carros de luxo também estavam sempre na frente da casa. Via esse rapaz
aqui desde o começo do ano passado. Sumia uns dias, mas considero que
era um morador, levando em conta a frequência com que o via aqui”,
afirmou.
Outra pessoa que frequenta o condomínio revelou que ‘Gegê’ não era muito
de conversar, mas era sempre educado com os vizinhos. “Era um cara boa
praça”, resumiu. Há também um entregador que diz ter recebido R$ 30
reais de gorjeta das mãos do criminoso e lamentou sua morte.
De 2017, quando chegaram para se instalar no Ceará, até o momento,
‘Gegê’ e ‘Paca’ já haviam gastado, pelo menos, R$ 8,6 milhões, em quatro
imóveis e cinco veículos luxuosos.
‘Tiriça’
A ‘gerência’ de Rogério Jeremias estava incomodando o restante da cúpula
do PCC, por conta dos gastos excessivos e, por possíveis desvios do
dinheiro da facção. Embora ainda não se possa afirmar que a ordem para
as mortes partiu do líder máximo, Marcos Willians Herbas Camacho, o
‘Marcola’, esta é uma das principais linhas de apuração.
O promotor de Justiça Lincoln Gakiya, do Grupo de Atuação Especial de
Combate às Organizações Criminosas (Gaeco), do Ministério Público de São
Paulo (MPSP), diz que o fato ainda precisa ser explicado ao restante da
cúpula, inclusive a Roberto Soriano, o ‘Tiriça’, que era muito próximo
de ‘Gegê’ e ‘Paca’, e também faz parte da cúpula do PCC.
Segundo Gakiya, a mulher que aparece ao lado de Andrea e Juliana, no dia
da liberação dos corpos, no prédio da Perícia Forense do Ceará
(Pefoce), se chama Fabiana e é a mulher de ‘Tiriça’. “ A amiga que
esteve no Ceará é a Fabiana, esposa desse outro líder. Soubemos que ela
foi prestar apoio, quando soube das mortes. As mulheres dos mortos não
estavam morando com eles, nós vínhamos monitorando-as”.
Se a morte dos criminosos foi ordenada pela cúpula da facção, e, mesmo
assim, Fabiana (esposa de um líder) estava aqui dando apoio às amigas
viúvas, as coisas na ‘sintonia geral final’ do PCC podem já não ter mais
a mesma harmonia de antes.
“Não vejo como um racha, por enquanto, mas precisamos ver os
desdobramentos dessas ações e aonde isso tudo vai levar. Essa morte vai
ter que ficar muito bem explicada. Que foi determinada pela cúpula do
PCC, não tenho dúvida, mas eles vão ter que explicar, inclusive para
outros integrantes importantes, como o Soriano e o Abel Pacheco de
Andrade, porque houve esse assassinato”, disse Gakiya.
À Polícia, Andrea Maciel disse que o marido não tinha problema com
‘Marcola’ e que, poucas horas antes do assassinato, ainda estavam
juntos.
Ouvido
O representante do MPSP afirmou que ainda não há nenhum pedido da
Polícia cearense para ouvir ‘Marcola’. O fato foi confirmado pelo
policial civil que conversou com a reportagem. “Quatro delegados estão
trabalhando no caso. Todos aqui, ninguém foi para São Paulo. Nenhuma
prisão foi pedida, nem mesmo dos ‘laranjas’ identificados”.
Diário do Nordeste
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