Acostumados com a água doce do Rio Papagaio, em Mato Grosso, Iamaxi, de
47 anos, e seu filho Typju, de 21, foram, no início de julho, conhecer a
água salgada do mar de Santos, no litoral de São Paulo. Indígenas do
povo Myky, os dois, que ali viam o mar pela primeira vez, se encantaram
com as ondas e se assustaram com a poluição marítima.
A visita foi feita após a participação dos dois em um seminário na
Universidade de São Paulo (USP) que debateu as várias modalidades de
fala entre os indígenas. A acadêmicos e a outros indígenas, Iamaxi
apresentou um tipo de fala cerimonial que os Myky usam quando se
encontram com parentes de outra aldeia.
A jornada dos Mykys até o mar começou na aldeia Japuira, no Noroeste de
Mato Grosso, na transição do cerrado para a Amazônia. A cerca de 600 km
da aldeia, pegaram um avião na capital Cuiabá (que na língua indígena
bororo significa ‘lugar de caçar’). O destino foi o aeroporto de São
Paulo em Guarulhos (nome que veio dos índios Guarus, que deram origem à
cidade), de onde partiram para o seminário no bairro do Butantã (onde
fica a USP e que em tupi significa ‘terra dura’). Do Butantã, seguiram
para a pequena praia do Sangava (do tupi, ‘alagado’).
Acostumados a lidar com barcos a motor, no sinuoso Rio Papagaio, os
Mykys foram surpreendidos pelo convite de atravessar o canal do porto de
Santos a bordo de uma canoa havaiana, modalidade que se popularizou no
litoral brasileiro nos últimos anos. O G1 acompanhou os dois no passeio.
Prestes a entrar na embarcação, de remos em punho e colete salva-vidas
posto, o pai, Iamaxi, questionou se, uma vez no mar, poderiam ver
baleias e tubarões. Um dos paulistas que também faria a travessia
explica que há anos, as duas espécies se afastaram do movimento do maior
porto da América Latina. "E aquele que pula?", insiste Iamaxi.
“Golfinho?”. “É, não tem? Mataram ele?”. Golfinhos às vezes são encontrados mortos perto dali, por causa de redes de pesca e da poluição.
Em vez de tubarões e baleias, a canoa cruzou o canal na companhia de
navios cargueiros, com contêineres vindos de toda parte do mundo, além
de motos aquáticas e pranchas de stand up paddle. Algumas tartarugas
marinhas e garças chegaram a se aproximar da embarcação.
Após a travessia saindo de Santos, o grupo parou em uma pequena praia
do Guarujá cercada pela mata, a praia do Sangava. Após hesitar bastante,
Typju tomou coragem e mergulhou no mar pela primeira vez. “Achei meio
diferente, eu achei muito salgado, assim, meio grudento”, resumiu o
jovem.
Enquanto isso, o pai, Iamaxi, observava impressionado a força das
ondas. Achou o fenômeno interessante e o comparou com o movimento de um
coração. “As águas vão e voltam, nunca correm só numa direção [como num
rio]. Ele é como o sangue do nosso corpo, que pulsa sem parar. Por isso o
mar deve ter um coração também, que nem a gente".
O povo Myky acredita que os elementos da natureza - montanhas, pedras e
o próprio mar - têm um "dono espiritual". E, assim como os homens,
esses “donos espirituais” podem morrer se não forem cuidados. “Tem que
cuidar mais, né, senão acaba. E acaba morrendo tudo, as árvores que aí
estão, os animais”, disse ele.
Por isso, pai e filho se espantaram com a poluição que viram no mar de
Santos. O óleo dos navios derramado na água e pedaços de plásticos
boiando aumentavam a sensação de estranhamento dos dois. “Lá na minha
aldeia quase não tem tanta poluição assim, de meio ambiente, com fumaça,
essas coisas”, disse Typju.
O convite ao passeio foi feito pelo antropólogo André Lopes, de 35
anos, que há 10 frequenta o povo Myky. Santista, André aproveitou a
vinda para o seminário para levá-los à praia e para conhecer sua
família. “Sempre que posso trago alguém de lá para conhecer a minha
aldeia”, brinca.
G1



