Marcado para iniciar às 9h30 desta segunda-feira (23) no Fórum Clóvis
Bevilaqua, em Fortaleza, o julgamento de Júlio César Braga da Costa, o
sexto acusado de matar a travesti Dandara dos Santos, 42, atrasou mais
de quatro horas por causa da ausência de dois irmãos da vítima, chamados
para serem testemunhas da defesa. A juíza responsável pelo caso,
Danielle Pontes, acionou a Polícia Militar para realizar a condução
coercitiva de ambos e o tribunal do júri foi iniciado por volta das
13h50.
Dandara foi brutalmente espancada e morta em fevereiro de 2017. O caso teve repercussão mundial.
Júlio César é julgado por homicídio triplamente qualificado. A defesa
alega que o réu não participou da execução e espera que ele seja julgado
apenas pelo que ele fez.
O advogado dele, Sergio Ângelo, defende que o crime foi planejado por um
suposto namorado de Dandara, que na época teria ficado enfurecido por
descobrir que a travesti estava com o vírus HIV.
O promotor de Justiça, Marcus Rennan Palácio, acusa Julio Cesar de ter
participado do crime de forma covarde e cruel, igual aos demais
acusados. "Quando ela se encontra no chão, toda desfalecida, ele tem a
insensibilidade de dar dois chutes no rosto dela. E ajuda os demais a
colocá-la no carrinho que a leva até o local em que ela é atingida",
afirmou.
Marcus Renan Palácio disse ainda que, considerando as condições sociais
do acusado, acredita que ele deve pegar uma pena entre 14 e 18 anos de
prisão.
Cinco testemunhas foram chamadas para depor a favor da defesa. As
testemunhas serão as primeiras a serem ouvidas e, só depois, o acusado
será interrogado.
A expectativa é que o tribunal do júri termine na noite desta terça.
Nos julgamentos dos outros acusados, a família de Dandara esteve
presente. Neste, preferiram não participar. Na véspera, a mãe de Dandara
disse em entrevista que prefere acreditar na justiça de Deus e que,
para ela, os assassinos já foram perdoados.
Depoimento
Por volta das 16h, Júlio César foi ouvido pelos advogados de defesa e
acusação. O réu começou dizendo que não conhecia Dandara, mas confessou
que participou do linchamento. "Cheguei e me deparei com o
acontecimento. Nunca tinha visto a vítima. A população disse que Dandara
tava roubando nas proximidades. Fiquei olhando, não me aguentei e
participei do linchamento. Dei dois chutes. Fui até a esquina e depois
fui para a minha casa", ressalta.
O depoimento de Júlio César durou aproximadamente trinta minutos.
Durante o interrogatório, Júlio pediu desculpas à família da vítima.
"Não tive intenção de matar, nem executar. Tinha consciência que tava
fazendo mal a ela. Peço desculpas à família. Eu errei", conclui o
acusado.
O coordenador da Diversidade Sexual da Secretaria de Direitos Humanos e
Desenvolvimento Social da Prefeitura Municipal de Fortaleza, Paulo
Diógenes, está acompanhando o julgamento e espera que a justiça pela
morte de Dandara seja feita.
"Espero que tenha justiça, que foi mais do que visto que houve uma
agressão, não pelo fato de ser LGBT, mas sim pelo fato de ser humano.
Houve agressão, teve a transfobia. Dr. Hélio Leitão deu uma ajuda muito
grande como advogado que a gente conseguiu com a coordenadoria. Espero
que tenha justiça. A gente quer mais justiça. A gente quer mais amor,
mais respeito e mais tolerância pelo próximo, reforçou o coordenador.
Diário do Nordeste



