Você está em: NACIONAL // Notícia de Fagner Freire // 30 de novembro de 2018


A Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e a Cultura (Unesco) reconheceu o reggae como patrimônio cultural e imaterial da humanidade. O anúncio ocorreu nesta quinta (29), em Port Luis (Ilhas Maurício). O apelo do gênero musical da Jamaica envolve a cultura rastafári, a articulação do movimento negro e o culto ao jamaicano Bob Marley (1945-1981) enquanto um ícone da história da música.

Para o músico e pesquisador Fabrício Mota, mestre pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) com uma dissertação sobre a história do reggae no Estado, o reconhecimento é tardio, porém fundamental.
"Primeiro que, ao transformar em patrimônio imaterial, você coloca na pauta institucional, e transforma um elemento importante da formação da nossa cultura no Brasil. Coloca na ordem dos projetos educacionais, da educação para além da escola", observa ele, autor do livro "Os Guerreiros do Terceiro Mundo" (Editora Pinaúna, 2012), sobre a formação do cenário do reggae na Bahia.

A segunda questão contemplada pela chancela da Unesco, segundo Fabrício, é se colocar diante da importância de perceber a influência da cultura de matriz africana para o Brasil. O pesquisador baiano alerta, no entanto, como existe um grave déficit de atenção do poder público em relação ao gênero, com prejuízos políticos e sociais para a "massa regueira".

"Espero que a declaração reflita de uma maneira positiva e sensibilize o poder público, inclusive para a dissolução de problemas sociais. A gente diz que a 'massa regueira' está nos guetos, nos bairros pobres. A música comunica e representa essa parcela, que é a maioria da população", distingue.

Conceito

Fabrício conceitua o reggae como um gênero "transnacional". E olha para a expansão do gênero da Jamaica em direção ao Brasil, ainda na década de 1970. Com um olhar específico sobre a Bahia, o pesquisador lembra, por exemplo, que os blocos afros como o Olodum surgiram conectados à experiência identitária do reggae. Grupos similares, a exemplo do Muzenza e do Malê Debalê, passaram a desenvolver a vertente do samba-reggae, a partir dessa influência.

"A Jamaica passou a ser um novo símbolo de resistência, uma nova referência de africanidade. O Olodum é um dos ícones desse movimento, mas isso trouxe uma mudança não apenas sonora, mas também do ponto de vista da estética e da política", complementa.

O pesquisador reforça ainda que o reggae deu origem a vertentes como o dub (um formato mais experimental). Para além da Bahia, o gênero no Brasil passou a integrar o cenário cultural de cidades como São Luís (MA) e foi digerido, também, por grupos de música pop como os brasilienses do Natiruts e os cariocas do Cidade Negra.

Fabrício Mota identifica que, embora Bob Marley tenha "explodido" e ganhado espaço no cenário musical beneficiado pela indústria fonográfica, a música jamaicana se difundiu pelo Nordeste e pelo resto do País influenciando, sobretudo, um contexto de luta.
 
 
 
(Diário do Nordeste)
Caderno: NACIONAL
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