O tempo percorre e as dúvidas
permanecem. Quem se responsabiliza pelas 14 mortes ocorridas na 'Tragédia de
Milagres', sendo seis delas reféns? Em busca de respostas, os órgãos públicos
se mobilizam para aprofundar a investigação do caso e procurar dizer à
sociedade o que aconteceu na madrugada da última sexta-feira (7), no Município
do Interior do Ceará, a 500Km da capital do Estado.
Ontem, o governador do Ceará,
Camilo Santana, informou que 12 policiais envolvidos na ocorrência foram
afastados dos serviços até que a apuração do grupo especial, formado para
investigar a ação, seja concluída. Em paralelo ao afastamento, o Ministério
Público do Estado do Ceará (MPCE) entrou formalmente no caso para acompanhar a
investigação.
O procurador-geral de Justiça,
Plácido Barroso Rios, anunciou ter designado 10 promotores para oficiarem em
conjunto ou separadamente, com o promotor de Justiça em atuação na Promotoria
de Justiça da Comarca de Milagres, futura ação penal referente à tragédia. Eles
devem atuar junto à Polícia Civil do Estado do Ceará para esclarecer os fatos.
Em coletiva de imprensa, Plácido
Rios levantou uma série de questionamentos sobre o passo a passo da operação.
"Queremos saber o porquê não se criou rigor protocolar. Por que a PRF e a
Polícia Federal não foram acionadas? Se a Polícia já sabia os alvos, porque não
providenciaram iluminação no local? Quem estava no comando da operação".
A sequência de perguntas do
procurador revela série de detalhes não cumpridos. Para Rios, mesmo sem
respostas exatas, algumas conclusões já podem ser tiradas. A primeira é que é
preciso cumprir protocolos, prevendo que em situações como a de Milagres, tenha
reféns.
"Não sabemos se naquele
momento existia um comando rígido da tropa ao qual os policiais deviam se
reportar e dizendo como fazer e quando fazer. Não sabemos ao certo se os
policiais estavam sob o próprio comando. Quem começou a atirar e porque começou
a atirar. São questões que precisamos ver não apenas para dar respostas aos
familiares das vítimas, mas para sociedade como um todo e para evitar
acontecimentos semelhantes com o mesmo fim", destacou o procurador-geral.
Cautela
Na última semana, horas após as
mortes serem noticiadas, o titular da Secretaria da Segurança Pública e Defesa
Social (SSPDS), André Costa, destacou precisar de cautela antes de culpar
qualquer envolvido. Ontem, Plácido Rios também ponderou que não se pode
criminalizar a atividade dos policiais, e disse entender a difícil situação
pela qual viveram. No entanto, o chefe do Ministério Público Estadual, não
deixou de expressar sua opinião com relação ao resultado da diligência.
"Nós entendemos a difícil
situação pela qual passavam os policiais. Era uma operação de risco, sensível.
A operação foi um fracasso sob todos os aspectos. Não se pode, em nome de
resguardar um patrimônio, ter vítimas. Evidente que os policiais não
vislumbravam este resultado. Claro que a Polícia pode ter tido excessos, mas o
primeiro ato que desencadeou tudo isso foi, sem dúvidas, dos criminosos",
afirmou o procurador.
Outro ponto abordado foi
recolhimento de provas suficientes para apontar os responsáveis por cada
disparo que matou oito criminosos e seis reféns. Testemunhas já começaram a ser
ouvidas. O intuito é preservar as identidades para que não sejam inibidas de
falar o que aconteceu no dia do crime. Há ainda busca por imagens de câmeras
nos locais onde a quadrilha passou. A Polícia já teria recolhido algumas imagens.
A presidente em exercício da
Comissão de Segurança Pública da OAB-CE, Débora Lima, também se posicionou
sobre a necessidade de acompanhar as investigações.
Diário do Nordeste


