40 km separam o açude do Cedro,
em Quixadá, e o Arrojado Lisboa, em Banabuiú. A distância, porém, não
desassocia a dura realidade vivenciada pelos agricultores que tiravam o
sustento destes reservatórios
| Foto: Alex Pimental |
"O açude secou. Moro desde criança aqui bem próximo ao açude e já vivenciei alguns períodos de seca, mas não me lembro de ter visto o Cedro como nestes últimos anos. Está muito seco. É penoso olhar. Triste". A fala, em tom de desabafo, do agricultor Francisco de Assis Bessa Pinheiro, de 64 anos, retrata a realidade do Açude Cedro, na cidade de Quixadá. Na frase consternada, porém, há lugar para um sopro de esparança. Olhando para o céu, seu Francisco tira o chapéu gasto pela ação do tempo, retira um lenço de tecido do bolso e o leva ao rosto, enxugando o suor decorrente do forte calor. Após o ritual, diz: "Vai cair água. Tem que chover! O povo não aguenta mais", e devolve o chapéu à cabeça de cabelos brancos.
No céu, observado pelo
agricultor, nenhum indicativo de nuvem que possa sinalizar a tão esperada
chuva. No peito, entretanto, lá estão todos os indícios que lhe mantêm firme na
caminhada: a fé e a esperança. "O sertanejo é, antes de mais nada, um povo
bravo, que não esmorece e acredita sempre num futuro melhor. Tenho fé que isso
aqui vai voltar a tomar água. A agricultura vai se recuperar", conta. A
menos de 10 metros de onde seu Francisco tenta profetizar o futuro, duas
canoas, ancoradas há meses no leito do Açude, denunciam a improdutividade do
"Velho Rei", como os mais antigos se referem ao reservatório.
O título majestoso, no entanto,
não veste mais o açude, erguido a partir de ordem do imperador D. Pedro II para
solucionar o sufrágio de milhares de sertanejos no coração do Ceará. Redenção
para centenas de famílias de pequenos produtores rurais, hoje, a primeira obra
pública de barragem no Brasil agoniza diante do descaso governamental e falta
d'água na sua bacia.
A última grande alegria do açude
construído no período de 1890 a 1906, ocorreu em 1989, quando sangrou pela
última vez. Passadas três décadas, não acumulou mais o seu volume máximo, 126
milhões de metros cúbicos, recorda Almir Benício, 63 anos, quase 40 deles na
função de agente de atividades agropecuárias do Dnocs. Desde 2012, ele é o
administrador do Cedro. Coordena uma equipe de seis funcionários.
De acordo com o administrador,
além de ser o mais belo e exótico açude do País, por conta dos seus traços
arquitetônicos e da Pedra da Galinha Choca no seu entorno geográfico, na sua
jusante foi projetada a primeira estrutura complexa de irrigação, através de
canais. A água corria até 7,5 quilômetros. Mais de 500 produtores e irrigantes
se dedicavam à cotonicultura - cultura de algodão -, à cana da Índia e forragem
para os animais. Outros 500 trabalhadores rurais se dedicavam à pesca e ao
cultivo de feijão, de milho e de batata. Eles eram conhecidos como ribeirinhos.
Quando o Cedro enchia, havia fatura.
Dificuldade
Como depende exclusivamente das chuvas,
cada vez mais escassas nas últimas décadas, "somente um dilúvio poderá
encher sua barragem novamente", analisa o produtor Flávio Oliveira Cunha.
"Costumam comentar que as
muitas barragens construídas acima do açude dificultam a recarga hídrica. Acompanho
essa história desde criança. Para chegar a sangrar, somente com uma boa
chuvarada. Nenhum grande rio ou riacho deságua nele com volume tão
intenso", aponta o agente do Dnocs, Almir Benício.
Desde a sua construção, a
barragem sangrou apenas seis vezes. A primeira registrada foi em 1924, depois
1925, 1974, 1975, 1986 e 1989. Secou totalmente em 1930, 1932, 1950, 1999 e na
última seca de 2016. Hoje, está apenas com 890 milhões de m³, o equivalente a
0,71% da sua capacidade.
Por conta dessa dificuldade, a
partir da década de 1990, a água não correu mais nos canais de irrigação. Hoje,
a exploração viável para o Cedro, é turística, por conta dos seus atrativos. O
complexo é reconhecido nacionalmente pela sua importância histórica e sua
beleza natural. Esses predicativos lhe renderam o tombamento pelo Instituto do
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 1977. Todavia, neste mais
de 110 anos, as três esferas governamentais públicas, Federal, Estadual e
Municipal, nunca criaram um plano nesse sentido, apesar de o espaço atrair e
deslumbrar semanalmente centenas de visitantes.
Banabuiú
"A dificuldade que
enfrentamos aqui poucas pessoas conseguem imaginar. Pescador sem peixe não tem
condição de sobreviver, e peixe sem água não existe. Vamos levando como dá, mas
estamos chegando ao limite. A esperança é que Deus traga um bom inverno para
encher esse açude". O relato do pescador Jocélio Pereira da Silva, de 48
anos e que há mais de três décadas se dedica ao ofício, é uma voz uníssona no
Sertão Central.
O açude em que ele se referia
como "empresa", está secando ano após ano. O reservatório Arrojado
Lisboa, popularmente conhecido como Açude Banabuiú, homônimo da cidade onde foi
construído, é o terceiro maior do Estado. Atualmente, está apenas com 5,46% de
sua capacidade máxima (1,7 bilhão de m³). "Esse açude era uma empresa. Com
ele cheio, tinha emprego para todo mundo e dava para tirar uma boa renda".
Hoje, porém, pouco se vê a água.
A "empresa" que antes era fonte de sustento para 300 pescadores e suas
famílias, já não possui o mesmo vigor de anos atrás. "É triste saber que
de onde a gente costumava tirar peixe para mais de oito caminhões por dia, hoje
não conseguimos o suficiente para encher nem um carrinho de mão", relata o
também pescador César Gusmão.
Controle de cheias
Ironicamente, de acordo com o
Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs), a represa do Banabuiú
foi construída pelo órgão com a finalidade de controlar as cheias do rio,
responsáveis por inundações no Vale do Jaguaribe. O represamento do afluente
viabilizou projetos de irrigação em Morada Nova, a piscicultura e o
aproveitamento das áreas de montante, para a agropecuária familiar.


