O conjunto de peças enfileiradas até lembra uma grande galeria de
arte. Mas o silêncio denuncia a ausência de plateia, ou melhor, de
admiradores e consumidores da arte popular produzida em Juazeiro do
Norte. É neste cenário que os artesãos do Centro de Cultura Popular
Mestre Noza convivem, há nove meses, desde que foram realocados no
Centro Multiuso, enquanto o antigo prédio passa por reformas. Orçada em
pouco mais R$ 241 mil, a obra deveria ter sido entregue em outubro de
2018, mas está paralisada.
A última reforma realizada no Centro Mestre Noza aconteceu há mais de
18 anos. Nos últimos tempos, o equipamento cultural já vinha sofrendo
com o piso danificado e instalações elétricas ultrapassadas.
Com as obras finalizadas, os artesãos esperam ter um local adequado e
seguro para suas criações, além de um ambiente para armazenar a madeira
e estocar seus produtos. O espaço para comercialização será integrado à
nova estrutura.
A ideia é que a circulação de pessoas, desde a entrada até a saída,
possa ser feita de forma interativa, intuitiva e com acessibilidade.
Também está prevista a instalação de um Café Cultural e a criação de uma
área de convivência para os artistas e visitantes.
Enquanto a obra não é finalizada, os artesãos amargam prejuízos. Eles
estão ocupando um espaço no terceiro andar do Centro Multiuso, cedido
pela Universidade Regional do Cariri (Urca), através do Instituto de
Pesquisa José Marrocos (Ipesc).
No térreo do edifício, funciona uma oficina improvisada, com madeira
espalhada por todos os lados. É nesse local que os artesãos trabalham. A
maioria reclama da falta de visibilidade do espaço.
Severino Souza, 48, admite que o Centro Multiuso é bom para
trabalhar, pois tem muito espaço e conta com estacionamento, mas a
visitação é bem diferente da que era registrada no prédio antigo, onde
trabalhou por mais de 30 anos. "As pessoas já conheciam, o turista já
sabia pra onde ir. Aqui, além de ser um pouco deserto, não tem a
visitação que tinha", lamenta.
Desde maio do ano passado, o artesão conta que perdeu as melhores
épocas para comercializar: férias e romaria. "Mesmo não comprando peças
de alto valor, o romeiro pedia ex-votos. Aqui, mesmo estando próximo à
(Igreja) Matriz, eles não vêm", completa.
Outro problema é a falta de referência. Severino imagina que, com as
obras paradas e o prédio fechado, os visitantes podem até achar que o
Centro Mestre Noza acabou. "Eu, particularmente, perdi várias
encomendas. Lá, fazia muitas placas para fazendas, sítios. Aqui,
nenhuma". Contudo, reforça que a renda só não foi mais afetada porque
possui clientes de outros estados como São Paulo e Rio de Janeiro, por
exemplo. "O pessoal de fora nos socorre", diz.
O comércio vizinho ao equipamento em reforma, na Rua São Luiz, também
vem sendo afetado pelo atraso das obras. "Aqui, a gente tinha movimento
nos meses de férias", lamenta a comerciante Dayana Ribeiro. Com o
fechamento temporário do ponto turístico, sua loja de artesanato
contabiliza uma perda de 50% nas vendas. A saída encontrada é participar
de feiras de artesanato.
Apesar de avançada, a obra foi interrompida porque a Secretaria de
Cultura de Juazeiro do Norte está aguardando a liberação, por parte do
Governo Federal, de um aditivo de recurso.
De acordo com a Pasta, o cronograma foi afetado durante a execução,
pois, foi percebido que outras melhorias deveriam incluídas no projeto.
No entanto, não detalhou quais as novas intervenções que devem ser
feitas. Em nota, garantiu que os trâmites burocráticos para receber a
verba já foram realizados, mas não informou qual o valor do dinheiro
solicitado e qual o possível prazo para recebê-lo.
A escolha do Centro Multiuso foi debatida com a Associação de
Artesãos de Juazeiro do Norte que, na época, acreditou que este era o
local com as melhores condições para acomodar temporariamente os
trabalhadores.
Hoje, com aproximadamente 80 associados, apenas 12 trabalham
diariamente no local. O restante elabora as criações em casa e apenas
expõe a produção no equipamento. Desde junho do ano passado, as peças do
Centro Mestre Noza também estão sendo vendidas no Cariri Garden
Shopping.
Alternativas
Longe dali, no Pirajá - outro importante bairro comercial de Juazeiro
- 11 artesãos que trabalhavam no Centro Mestre Noza resolveram, por
contra própria abrir, um ateliê há quatro meses. Com peças expostas,
eles apostam que voltarão a ter a visibilidade que tinham no Centro de
Juazeiro do Norte.
"A gente já estava trabalhando em casa por um motivo pessoal. Nós vimos que estávamos perdendo ainda mais. Como grupo, é melhor ficar juntos. Somos mais fortes", justifica o artesão Nil Morais.
Diário do Nordeste


