Antigo, o elevador em que morreua agente sanitária Mara Sousa dos Santos passava por problemas constantes,
segundo moradores ouvidos pelo Diário do Nordeste. O edifício conta com um
elevador mais moderno, mas também, segundo relatos, está sem operar há mais de
um ano. Mara faleceu na manhã da última quarta-feira (30), após cair no fosso
do equipamento, do sexto andar do Edifício Residencial Pimentel, no Centro de
Fortaleza.
Segundo uma moradora identificada
apenas como Mercedes, o elevador parava de funcionar constantemente, deixando
seus usuários presos. Além disso, complementa, não funcionava nos dois
primeiros andares do prédio. "Ele não para no primeiro andar, onde eu
moro, então o problema já começa aí. Só para do terceiro em diante e por isso
eu nunca uso ele, graças a Deus, mas sei que são muitos problemas e nunca tinha
manutenção preventiva", diz.
Moradora do 7º andar, a
comerciante Meire Costa confirma a informação, alegando já ter ficado presa em
uma dessas ocasiões. "Todo dia ele 'dá o prego'. Uma vez quase fico
asfixiada, mas comecei a bater na porta e me tiraram logo", conta. Segundo
Meire, o equipamento só era visto por técnicos quando parava de funcionar.
"Esses prédios muito antigos precisam de manutenção sempre e não só quando
dá problema", avalia.
Segundo comentários entre
residentes e funcionários do edifício, Mara teria se distraído e não percebido
a ausência do elevador por estar falando ao celular. Para Meire, outro indício
de problema, uma vez que a porta deveria permanecer indisponível até a chegada
do equipamento. "Era para estar lacrada, mas não estava". Na porta do
equipamento, atualmente interditado até a conclusão da perícia, um aviso alerta
aos usuários para nunca abrir a porta antes da chegada total da cabine. No
local, o funcionário da portaria não quis dar maiores informações, mas confirma
que ele mesmo colocou o aviso, em virtude do risco iminente.
Vulnerabilidade
Elpídio Brígido, engenheiro
mecânico e proprietário de uma empresa especializada na manutenção de
elevadores em Fortaleza, explica que grandes vulnerabilidades nos elevadores
concentram-se justamente no sistema de porta.
Entre os equipamentos antigos e
novos, explica ele, a diferença é que - até o ano 2000 - os elevadores de
prédios residenciais multifamiliares podiam ser fabricados com portas do tipo
eixo vertical (em que próprio passageiro abre manualmente a porta). Desde 2000,
no entanto, a Norma Brasileira referente à fabricação de elevadores (NM 207)
proíbe esse tipo de porta (semiautomática) e exige que os equipamentos tenham
abertura automática. Conforme o engenheiro, isto reduz o número de ocorrências
como a que vitimou a agente sanitária.
Brígido esclarece, ainda, que há
dois tipos de manutenção: a corretiva e a preventiva. Nesta última, afirma, os
contratos estabelecem que as manutenções sejam mensais.
Na incidência de um óbito, a
responsabilidade pela ocorrência deve ser definida por meio de investigação
criminal pautada numa perícia técnica, segundo explica o advogado criminalista
Márcio Vitor Albuquerque. "Existe, neste caso, a responsabilidade penal e
civil, que pode decair contra a empresa responsável pela construção do elevador
como, dependendo do caso, em desfavor do próprio condomínio. Mas, para isso, é
preciso uma perícia conclusiva, que ateste o porquê do mau funcionamento desse
equipamento", destaca.
A reportagem entrou em contato
com o advogado do proprietário do edifício mas, até o fechamento desta edição,
a demanda não foi respondida. Na quarta-feira (30), no entanto, o dono havia
manifestado nota de pesar, mas dito que qualquer outro pronunciamento somente
após a conclusão do laudo pericial.
Diário do Nordeste



