Ao conceder a entrevista ao O POVO, a estudante Ana
Beatriz Santos, 19, teve várias vezes de interromper a fala para colocar
a mão no rosto, espantando mosquitos. "Vocês estão vendo como é aqui. A
gente precisa ficar com a boca fechada. Se não, engole mesmo as
muriçocas", diz. A casa em que mora, no Vila União, dá de porta com a
Lagoa do Opaia. Quando chove, o lixo deixado em volta do manancial é
ninho perfeito para o pernilongo. "A gente se cuida como pode. Tem esse
pano aqui, que serve para espantar", conta, enquanto repele os insetos
da pele.
A razão para o aumento da infestação com as chuvas é que a
muriçoca não escolhe somente água limpa para se reproduzir, como o
mosquito Aedes aegypti. Ela põe os ovos em qualquer água parada, suja ou
limpa. Biólogo, epidemiologista e professor do curso de pós-graduação
em Saúde Coletiva, da Universidade Federal do Ceará (UFC), Luciano
Pamplona associa que regiões próximas de lagos, lagoas e canais sofrem
ainda mais no período chuvoso com o aumento da infestação. Nem é preciso
estar próximo às águas. O lixo cumpre bem o papel de reservatório de
ovos.
Os insetos aproveitam a água parada para pôr os ovos quando a
chuva passa. Por isso, de acordo com o médico veterinário Atualpa
Soares, gerente da Célula de Vigilância Ambiental da Secretaria
Municipal da Saúde (SMS), é tão importante não deixar reservatórios
expostos. Uma identificação pode ser feita para além do período de
quadra chuvosa. Com a redução da temperatura, as condições climáticas do
Estado se tornam favoráveis. Segundo Luciano Pamplona, clima mais ameno
é perfeito para infestação por muriçoca.
Nenhuma enfermidade
grave foi identificada, no Brasil, causada pela muriçoca. A principal
questão está relacionada aos processos alérgicos numa população mais
suscetível, sobretudo em crianças e idosos. As alergias podem resultar
em inflamação e secreção. "Foi feito um estudo, no Rio de Janeiro, sobre
a possibilidade do culex transmitir o vírus da zika, mas, segundo o
coordenador, a hipótese não foi confirmada", ressalta Soares.
O
canal aberto na avenida Eduardo Girão, no Bairro de Fátima, já é
propício para a reprodução da muriçoca. O lixo deixado por moradores ao
longo de todo o reservatório, com a chegada do período de chuvas,
aumenta consideravelmente o risco do incômodo pernilongo. Aléssio Silva,
22, trabalha como auxiliar de barman em um restaurante na via. Se uma
mão não para de trabalhar com copos, a outro, com uma flanela, remexe o
ar incansavelmente para expulsar os insetos. "As muriçocas faltam me
levar", brinca.
Quem não tem cão, caça como gato. Sem dinheiro
para comprar repelente, Rafaela Carol dos Santos improvisa com o que tem
para expulsar as muriçocas da pele dos filhos Nicole, 5, e Diego, 8. E é
com um ventilador ligado no três durante toda a noite que ela tenta não
deixar os filhos com as marca do mosquito. "Depois das seis da tarde,
não tem quem fique dentro de casa sem ventilador. Eu fecho a porta e
todas as janelas e, às vezes, a bicha ainda entra", diz.
(O Povo)



