A Polícia Civil cumpriu, ontem, mandados de
prisão contra parentes de uma adolescente de 17 anos, no Crato, vítima
de estupros continuados durante 10 anos. Cinco dos suspeitos são tios da
vítima e o outro, tio-avô. Um deles está foragido. Foi assim que teve
início o mês da mulher na região do Cariri, que registra altos índices
de violência de gênero no Estado. No fim da tarde de ontem, dezenas de
pessoas realizaram um protesto no Centro da Cidade pedindo o fim da
violência contra as mulheres.
Além desse caso, anteontem, Geanne Tavares Souza, de 28 anos, foi
morta a tiros ao sair de uma farmácia, onde trabalhava, no mesmo
Município. O suspeito do feminicídio é seu ex-companheiro identificado
como Paulo Roberto Carlos Ramalho, que tentou suicídio e está em
internado em estado grave.
No primeiro caso, a violência contra a jovem começou após a morte do
pai dela, quando a menina tinha apenas 7 anos. A própria vítima fez a
denúncia anonimamente no fim do ano passado. De acordo com a titular da
Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de Crato, Kamila Brito, a mãe da
adolescente informou que sabia do crime desde 2016, mas, por medo dos
suspeitos, não teve coragem de contar à Polícia sobre os abusos. As duas
moravam juntas, próximas aos parentes, em um sítio a 14 quilômetros da
sede do Município do Crato.
Os cinco homens capturados prestaram depoimento e foram levados à
Cadeia Pública de Crato, onde devem ficar presos temporariamente por 30
dias. O prazo, segundo a delegada, é suficiente para que o inquérito
seja concluído. A identidade deles não foi divulgada para preservar a
vítima.
Os suspeitos podem responder por estupro de vulnerável. A Polícia
Civil segue à procura do sexto foragido. Segundo a delegada, um dos seis
tios suspeitos de estuprar a sobrinha confessou o crime contra ela e
mais duas sobrinhas-netas, na época com 7 anos. O idoso, que hoje tem 84
anos, chegou a levar as três meninas a uma escola abandonada para
praticar os abusos.
A adolescente também prestou depoimento. De acordo com Kamila, a
jovem contou detalhes sobre o caso. Os cinco homens são irmãos do pai
dela, já falecido. Ela passará por um tratamento psicológico. A equipe
do Centro de Referência da Mulher já entrou em contato com a jovem.
Apesar da prisão, a delegada admite que, pelo grande número de
notificações na Delegacia de Crato, as ações preventivas na zona rural
não têm acontecido nos últimos meses. "Desde agosto suspendi os
trabalhos preventivos. É isso que é importante. Se for só pra reprimir,
aplicar pena, não vamos dar um basta (na violência contra mulher)",
destaca Kamila.
Feminicídio
Por volta das 18 horas, na última quinta-feira (28), um caso de
feminicídio também foi registrado, em pleno Centro da cidade de Crato.
Geanne Tavares de Souza, 28, tinha acabado de terminar o expediente numa
farmácia, onde trabalhava como caixa, quando foi surpreendida a tiros
pelo seu ex-namorado, Paulo Roberto Ramalho. Os dois haviam se separado
há três meses e ele não aceitava o fim do relacionamento. Uma amiga da
vítima relatou ainda que a mulher tinha uma medida protetiva contra o
suspeito.
Os agentes que atenderam a ocorrência, acreditam que o crime foi
premeditado, já que o suspeito aguardou a vítima sair do trabalho em seu
caminho habitual. Depois do assassinato, Paulo Roberto atirou contra si
mesmo, na boca. Ele foi levado em estado grave ao hospital. A arma foi
recolhida pela Polícia.
A professora Verônica Isidório, do Conselho Municipal dos Direitos da
Mulher Cratense, conta que o movimento de mulheres da Região se
preparava para se organizar para os atos do dia 8 de março - Dia
Internacional da Mulher - quando foram surpreendidas pelos últimos
crimes. "A região do Cariri tem se destacado nos altos índices. A gente
tem buscado, mas os avanços foram muito poucos. Há uma desarticulação em
nível de Estado de política no enfrentamento da violência contra a
mulher. Porém, conseguimos aprovar em Juazeiro e Crato o ensino da Lei
Maria da Penha nas escolas", pondera.
Três dias antes da morte de Geanne, no bairro São José, em Juazeiro
do Norte, Natália Ferreira Barão, de 24 anos, morreu após ser lesionada
gravemente no pescoço com uma garrafa de cerveja quebrada. A vítima
tentava defender sua amiga, Maria do Socorro, que estava sendo agredida
pelo ex-marido, identificado como Carlos Rodrigues Silva, que está
foragido. A mulher possuía uma medida protetiva contra o suspeito.
Professora
No dia 19 de agosto de 2018, a professora Silvany Inácio de Souza, de
25 anos, era morta com tiros à queima-roupa, na Praça da Sé, também em
pleno Centro de Crato, na frente do seu filho. O suspeito do crime é seu
ex-companheiro que foi preso minutos depois. Menos de um mês depois, no
dia 16 de setembro, outra professora, Cidcleide Bezerra Campos, também
foi assassinada no Município, vítima de golpes de faca por seu
ex-namorado, que tentou se matar após o crime.
Curiosamente, naquele último mês de setembro, o número de boletins de
ocorrência registrados por mulheres vítimas de violência na Delegacia
de Defesa da Mulher (DDM) de Crato dobrou de sua média mensal, que fica
entre 80 e 100 casos. Em 2016, foram notificados 2.299 casos de
violência contra a mulher em Crato, Juazeiro do Norte e Barbalha. Ou
seja, 6,26 por dia.
Estes dados estão disponíveis no caderno "Diálogos sobre as
experiências no enfrentamento à violência no Cariri", resultado do
trabalho realizado por pesquisadores e a equipe de bolsistas do
Observatório de Violência e Direitos Humanos, da Universidade Regional
do Cariri (Urca).
A partir dos dados, percebeu-se que o Crato tem uma taxa de 14,18
notificações, superando Juazeiro do Norte, que possui uma população
maior de mulheres e registrou 10,18 notificações. Mesmo o Crato tendo
uma população feminina que não alcança a metade do número de mulheres do
Município vizinho - 63.812 contra 131.586 -, "o número de B.Os,
inquéritos instaurados e medidas protetivas são quase equivalentes ao da
Delegacia de Juazeiro do Norte", conta a delegada Kamila Brito.
(Diário do Nordeste)



