Você está em: CEARA // Notícia de Fagner Freire // 29 de abril de 2019


Enquanto Eduarda, de 7 anos, estuda em sua casa à beira do Açude Mucambo, no distrito de Mutambeiras, em Santana do Acaraú, talvez não dimensione os graves riscos que a família tem passado. Sabe que há algo diferente porque ela e o irmão ficaram duas semanas sem aulas. Havia risco de inundação da escola, disseram os adultos. Na frente da casa, o açude peleja para avançar.

A família torce que chova, mas reza para que as águas caiam e sigam adiante. O pior, relatam, já passou. Para eles, a maior ameaça era o possível rompimento da barragem de Pilões, localizada em Morrinhos, cidade vizinha. Pois, apesar da distância, Pilões desaguaria em Mucambo, que já sobrecarregado tenderia a extravasar sobre aqueles que moram ao seu redor.

Há nove anos, Mucambo não enchia, conta Francisca das Chagas, dona de casa que tem o reservatório como paisagem de entrada na residência. Durante as chuvas intensas, o Rio, tomado de capim, avolumou-se. Foi preciso mobilizar os homens da região e na força-tarefa arrancaram a mata fazendo-a descer pelo sangradouro.

A casa abriga sete pessoas e guarda três gerações. Além de Eduarda, há outra criança, Guilherme, de 6 anos. "A gente dormia aqui mas porque não tinha pra onde ir. A gente mal dormia. O pessoal dizia que qualquer hora o açude arrombava e eu morrendo de medo não deixava esses meninos dormirem direito. Era um sofrimento. Mas graças a Deus baixou mais", relata. A área localiza-se geograficamente abaixo da barragem de Pilões.

Dilema

Em 2019, a situação em Santana do Acaraú é um tanto quanto distinta. O problema que atormenta Mutambeiras se origina em Morrinhos. No início de abril, moradores das duas cidades ficaram em alerta devido ao possível rompimento de Pilões, que é particular. Caso a força das águas extravasasse a barragem localizada em área alta, percorreria 40 km abaixo rumo a Mutambeiras.

No início do mês, o sangradouro de Pilões foi limpo, para dar vazão à água e reduzir a tensão no bloqueio. Semanas após o prenúncio de rompimento, a equipe do Sistema Verdes Mares esteve na barragem e a mesma seguia sem reforço. Moradores das proximidades contam que, há alguns anos, a contenção tinha largura razoável e aguentava a passagem de um carro. Hoje, estreita, a parede aparentemente limita-se à dimensão do tráfego de uma motocicleta.
 
Tentar resolver um problema provocado em outra jurisdição não é fácil, explica o secretário de Desenvolvimento Rural e Meio Ambiente de Santana do Acaraú, Arlênio Farias, ao dizer que a Prefeitura foi acionada quando moradores de Mutambeiras se mostram aflitos com a condição de Pilões. "Nós estávamos fazendo uma visita no Açude de Mutambeiras. Somos leigos, não temos conhecimento técnico. Quem tem é a Defesa Civil do Estado", explica.

Após o alargamento do sangradouro em Pilões, a Defesa Civil orientou reforçar a barreira de contenção com sacos de areia. A Prefeitura de Morrinhos deveria se encarregar de, junto ao empreendedor, equacionar a situação. Procurada, a Prefeitura não quis se pronunciar.
Condições

A situação alerta e, conforme o analista de Desenvolvimento Rural, Meio Ambiente e Recursos Hídricos da Associação dos Municípios do Ceará (Aprece), Nícolas Fabre, o acompanhamento e a fiscalização dos açudes particulares são problemas sérios no Estado. Aos municípios, avalia ele, falta condições financeiras para montar equipes de defesa civil especializadas.

"A dificuldade é a mesma que na maioria dos setores da gestão pública. A União e Estado querem descentralizar as responsabilidades sem descentralizar os recursos financeiros para viabilizar tais ações. A Aprece tem na governança interfederativa uma das principais bandeiras, mas temos encontrado dificuldades em dialogar com os demais entes da Federação".


(Diário do Nordeste)
Caderno: CEARA
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