Nos últimos meses, as chuvas no litoral Oeste se
intensificaram revelando a falta de estrutura para esta situação na vila
de Jericoacoara, uma das praias mais paradisíacas do Ceará e um dos
principais destinos turísticos do Estado. A força das precipitações e a
ausência de uma rede de drenagem têm ocasionado verdadeiras correntezas.
A areia levada das ruas pela água resulta na diminuição do nível do
solo. Consequência disso, são tampas de esgoto e fiação elétrica
expostas.
No caso dos canos de energia, alguns
apresentam estrutura danificada e exibem os fios por onde passa a
corrente que garante o fornecimento para restaurantes, hotéis, lojas e
casas. "Tento andar sempre de chinelo", relata a vendedora Bruna César.
Ela e outros moradores estão se virando como podem para enfrentar,
também, problemas relacionados à instabilidade do serviço de energia da
região.
De acordo com comerciantes, a falta de luz,
que sempre caracterizou períodos de grande ocupação turística como o
Réveillon, tem se tornado costumeira. Proprietário de um restaurante
localizado na rua principal da vila, Sérgio Batista denuncia que o
fornecimento sofre queda várias vezes por semana. "O pessoal que está há
mais tempo que eu aqui na praia diz que essas quedas não são novidade,
mas que agora está muito recorrente".
A
instabilidade atrapalha a rotina de trabalho de Leonardo Parente,
empresário que possui dois supermercados em Jericoacoara. Ele conta que
está acumulando prejuízos relacionados à manutenção do maquinário e à
conservação dos alimentos que vende nos empreendimentos. "Nos últimos
dois meses, só de gastos por conta da queda de energia foram R$ 40 mil
em equipamentos. Isso sem contar as mercadorias, que deve ter sido um
prejuízo ainda maior".
De acordo com Socorro Pontes,
engenheira responsável pelo desenvolvimento de redes da Enel, a
companhia está ampliando e modernizando a rede elétrica que foi
implantada em Jericoacoara há 20 anos. "A construção da nova rede não
afeta diretamente o cliente. Mas algumas intervenções, à medida que
modificam o equipamento, necessitam de um desligamento de energia, o que
afeta todos os clientes, pois é necessário entrar em vigor com uma nova
carga. É um procedimento normal".
Os trabalhos
começaram com a troca de transformadores de energia: "aumentamos a
potência para melhorar a qualidade". Ela avalia que é complicado afirmar
precisamente quais são os fatores que estão contribuindo para a
impermanência elétrica, uma vez que o período chuvoso também contribui
com a oscilação de energia. "Há uma tendência a alagamentos, e isso
afeta as instalações elétricas, sejam novas ou antigas".
Segundo
Socorro, a nova rede elétrica "é mais robusta e com capacidade de
suportar a demanda para mais 20 anos". A previsão de finalização dos
trabalhos é julho deste ano. O investimento da Enel na obra está em
torno de R$ 31 milhões.
Turistas e comerciantes
também têm reclamado das condições de acesso a Jericoacoara. A estação
chuvosa originou lagoas onde antes só havia areia e o Riacho Doce,
localizado em uma área de acesso à praia, aumentou de volume, o que
impossibilita uma passagem segura. Com isso, os motoristas que fazem a
travessia estão utilizando rotas alternativas, algo que nem sempre é
possível.
Além de dificultar a chegada de insumos
utilizados em restaurantes e hotéis, a ausência de uma passagem segura
atrapalha o deslocamento de quem circula entre as praias da região. A
vendedora Bruna César mora na Praia do Preá e trabalha em Jericoacoara.
Ela relata que há dias em que não tem como voltar para casa devido a
impossibilidade de passagem pelo Riacho Doce. "Já tive que dormir no
estacionamento central porque não tive como ir embora. A chuva estava
intensa e os carros que talvez fossem desistiram", relata.
O
secretário de Turismo, Meio Ambiente e Desenvolvimento Econômico de
Jijoca de Jericoacoara, Ricardo Gusso, analisa os problemas de travessia
como "pontuais" e resultado da combinação entre chuva forte e maré
alta. A fim de minimizar o problema, ele afirma que foi construída uma
pequena ponte para atenuar os momentos críticos e facilitar a passagem
pelo local.
(O Povo)



