Tribunal de Justiça anula sentença que autorizava bingo no Centro


Após oito anos de funcionamento com liminar judicial, o bingo mais "tradicional" de Fortaleza tem autorização derrubada pelo Tribunal de Justiça do Ceará (TJ-CE) e, há duas semanas, segue operando em completa ilegalidade, assim como muitos outros que movimentam milhões de reais por mês na cidade. A liminar da Justiça obtida, em 2011, pela Brink Administração e Comércio de Diversões 
 Eletrônicas criou um embaraço em operações policiais que combatem crimes de contravenção. 

A decisão que favorecia o popular Savanah, local que coleciona episódios de fechamento e reaberturas, repercutiu em outras empresas que operam bingos na Capital, também apelantes de liminares para funcionamento.

O desembargador relator Paulo Francisco Banhos Ponte, do Tribunal de Justiça, deu provimento à apelação do Estado do Ceará pela anulação da liminar e a remessa dos autos à Justiça Federal, criando novo capítulo que poderá, inclusive, ter participação da Polícia Federal.

Noites adentro

Os estabelecimentos que operam jogos de azar são um pedaço da Fortaleza que não dorme e segue ativo por toda a madrugada. Durante os meses de julho e agosto, a reportagem esteve em alguns bingos, no Centro da cidade, incluindo o Savanah, o maior e mais concorrido.

Por turno, trabalham no local cerca de 20 funcionários, entre seguranças, vendedores de cartela, locutores, faxineiros e barman. Idosos, homens e mulheres predominam no público, mas os jovens em geral são homens. Alguns mais velhos são vistos com bebidas e profissionais do sexo que atendem nas redondezas.

Algumas senhoras com a bolsa a tiracolo, óculos de grau, preferem não ficar só olhando para o computador fazer a marcação das cartelas e ocupam mesas com caneta e o papel de que se almeja a sorte. Como os números são anunciados rapidamente, marca no papel quem tem experiência. "Tem o risco de passar batida numa vez ou outra, mas eu não tenho paciência pra ficar olhando o computador marcar por mim", relata Francisca, com mais de dez anos de Savanah.

Do lado de fora, especialmente à noite, taxistas e mototaxistas fazem as idas e vindas dos jogadores. Em sua maioria, chegam ansiosos e saem derrotados. Muitos não pensam em sair com dinheiro (quando ganham, gastam), então também saem satisfeitos.

Enquanto jogadores são envolvidos na compulsão pelos jogos de azar, a expectativa de delegados ouvidos pela reportagem é que, com a transferência de competência e anulação de sentença favorável a Brink Administração e Comércio de Diversões Eletrônicas, operações coibitivas possam ser retomadas sem que haja desconfiança jurídica.

Em nota, a PF informa que o chefe da Delegacia Regional de Investigação e Combate ao Crime Organizado (DRCOR), delegado Paulo Henrique, ainda não tinha tomado conhecimento da anulação da sentença. Chegando à PF, o delegado apreciará o declínio de atribuição estadual.



(Diário do Nordeste)

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