Os processos são diferentes. O do
patriarca de Juazeiro do Norte tem uma etapa a mais a ser superada. Ele teve as
ordens sacerdotais suspensas pela Igreja e precisa ser reabilitado. Esse é o
primeiro passo para uma possível beatificação
A canonização de Irmã Dulce reacendeu o debate sobre a reabilitação do Padre Cícero. Proclamado "santo" pelos romeiros, o processo sobre o fundador de Juazeiro do Norte permanece, desde 2007, na Congregação para a Doutrina da Fé, em Roma. De lá para cá, uma carta, enviada em outubro de 2015, pelo secretário de Estado do Vaticano, Pietro Parolin, endereçada à Diocese de Crato, devolveu esperanças aos fiéis. Após quase quatro anos, não houve mais nenhuma novidade.
"Mas é sempre possível, com
a distância do tempo, reavaliar e apreciar as várias dimensões que marcaram a
ação do Padre Cícero como sacerdote", dizia Parolin. O trecho, destacado
pela Diocese, foi interpretado como uma reconciliação entre a Igreja e o
sacerdote. Na época, uma multidão lotou a Basílica Menor de Nossa Senhora das
Dores, na cidade que fundou, para ver a entrada triunfal de um quadro do
"padrinho".
Milagres da hóstia
O fenômeno que mudou para sempre
a história do Padre Cícero aconteceu, pela primeira vez, em 1889, quando a
hóstia se transformou em sangue na boca da beata Maria de Araújo, em missa
celebrada por ele na então Capela de Nossa Senhora das Dores. O episódio voltou
a acontecer inúmeras vezes. Por acreditar no suposto milagre, Padre Cícero teve
as ordens suspensas pela Igreja em 1894 e, até hoje, não as recuperou.
Após sua morte, a luta pela
reabilitação - recuperação das ordens - só teve inicio em 2001, quando o bispo
Dom Fernando Panico assumiu a Diocese de Crato. Na época, foi criada uma
comissão para estudar o milagre e a vida do sacerdote. Com ajuda de
pesquisadores, historiadores, teólogos e psicólogos, um relatório foi entregue,
em 2007, ao então papa Bento XVI.
"Cada santo tem sua
história. No caso de Irmã Dulce, não houve dificuldade nenhuma na sua
evangelização nem na sua relação com as autoridades, seja eclesiástica ou
civil. Correu sem nenhuma dificuldade", explica Dom Gilberto Pastana,
atual bispo da Diocese de Crato. O sacerdote esclarece que a carta do cardeal
Parolin representa uma "reconciliação histórica" e não uma
"reconciliação canônica", mas "alimenta esperança e abre
possibilidades", acredita. "Temos um longo caminho a percorrer. Agora
não podemos prever datas, tem todo um ritual", completa o bispo.
O professor e advogado José Luís
Lira, especialista em Código de Direito Canônico e vice-postulador da Causa de
Beatificação do monsenhor cearense Arnóbio de Andrade, explica que na Igreja já
houve um processo controverso e ainda mais longo que o do Padre Cícero: a
canonização de São Nuno de Santa Maria.
O santo foi um nobre e general
português, que morreu em 1º de novembro de 1431. Contudo, sua beatificação só
aconteceu em 1918, enquanto a canonização foi confirmada em 26 de abril de
2009, pelo papa Bento XVI, mais de seis séculos depois. "Quando (o
pontífice) reabriu o processo e autorizou a canonização, eu vi como uma
possibilidade de acontecer o mesmo com Padre Cícero", acredita.
No caso do Padre Cícero, Luís
acredita que o estudo sob o comando de dom Fernando foi feito de forma séria.
"Se for feita uma análise técnica e religiosa sobre sua biografia, vai ver
um homem de extrema obediência a Deus e às regras da Igreja. Essa questão, pra
mim, é uma grande injustiça. Ele é o santo mais genuinamente brasileiro",
classifica.
Os passos para a Canonização
Antes de ser canonizado, ou seja,
reconhecido como “Santo” pela Igreja, o candidato precisa se tornar “Beato”. No
caso do Padre Cícero, antes de iniciar este processo, sua reabilitação teria
que ser aprovada na Congregação para a Doutrina da Fé. De lá, a Causa é
analisada pela Congregação para as Causas dos Santos que, se aceita, emite o
‘Nihul Obstat’, o 'Nada Obsta', documento onde afirma que não se opõe ao
processo. Ali, o postulante é nomeado “Servo de Deus”.
Na fase inicial, os teólogos
investigam as virtudes, detalhando as circunstâncias da morte. A comprovação de
um milagre, necessária para a beatificação, é dispensada no caso de martírio.
Depois, o pedido é analisado pela comissão de cardeais e, se aprovado, aguarda
a chancela do papa. Após se tornar "Beato", a Igreja exige a
comprovação de um novo milagre para aprovar a canonização. Os critérios para
sua veracidade são ser preternatural (a ciência não consegue explicar),
instantâneo (logo após a oração), duradouro e perfeito.
Diário do Nordeste



