A aposta no melhoramento genético de rebanhos vem
sendo o caminho adotado pelos produtores de leite do Ceará para
conseguir manter a produção, apesar de longos períodos de estiagem. Em
2014, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o
Estado produzia 1,364 milhão de litros por dia. Em 2018, subiu para
1,933 milhão de litros/dia. Com 2,4 milhões de cabeças de gado, o
rebanho bovino cresceu 5% em um ano, atingindo a 16ª colocação no
ranking nacional, com participação de 1,1% do rebanho brasileiro. O
número representa o início da retomada do crescimento do rebanho, que
retraiu 5,7% em 2017. O destaque é justamente o Município do sertão
Central, Quixeramobim, liderança estadual com 85,5 mil cabeças, ou 3,5%
do total do Estado.
Referência no Ceará, Quixeramobim, por exemplo, desenvolve ações de
melhoramento genético de rebanhos, desde o início da década de 2000,
para fortalecer a produtividade leiteira. A partir da inseminação
artificial, o melhoramento genético se expandiu para outras regiões,
como Sertão de Crateús, Inhamuns, Centro-Sul e Cariri.
Em Juazeiro do Norte, a iniciativa da Secretaria de Agricultura e
Abastecimento do Município (Seagri), em um ano, já alcança mais de 20
pequenos criadores.
O projeto realizado pela Secretaria de Desenvolvimento Agrário (SDA),
em parceria com associações de produtores e prefeituras, aumentou a
produtividade, segundo Márcio Peixoto, coordenador de Pecuária da SDA.
As fazendas atendidas passaram de 5 litros de leite por vaca/dia para 12
litros/vaca/dia. "O resultado mostra que, mesmo no período de estiagem,
a produção leiteira no Ceará se manteve", observou Peixoto.
A SDA distribuiu 90 botijões, cada um, com 100 doses de sêmen de
produtor de alta linhagem das raças gir, holandesa e pardo suíço. As
unidades ficam por um tempo sob a guarda de uma associação de produtores
ou da Secretaria de Agricultura de um município. Depois é feito o
rodízio. "Uma dose de sêmen varia entre R$ 20 e R$ 45, e tem custo bem
reduzido em comparação à compra e criação de um reprodutor (touro) na
fazenda", reforça Peixoto.
Aposta
Na terra do Padre Cícero, a Seagri lançou um programa próprio do
Município, com apoio do Governo do Estado, que doou um botijão de 20
litros, que custa, em média R$3,5 mil. Já para a compra dos kits de
inseminação, 50 doses de sêmen da raça gir, mais 50 da raça holandesa, e
o restante do material, foram investidos R$ 6 mil. A recarga de
nitrogênio custa, em média, R$ 220, e é feita a cada dois meses.
Através de um cadastro, a equipe técnica da Pasta faz uma visita para
determinar se a propriedade está adequada ou indicando adaptações a
serem realizadas, pois o melhoramento genético é baseado no tripé de
genética, manejo e nutrição. "Os animais são avaliados nutricionalmente.
A propriedade também. É realizada uma avaliação de todos os animais e
propriedade, como suporte forrageiro, manejo e sanidade desses animais
para as melhorias necessárias", explica a zootecnista Débora Barbosa,
que coordena o Programa de Melhoramento Genético em Juazeiro.
Após isso, é realizada a inseminação quando o animal apresentar o cio
natural ou a IATF - Inseminação em Tempo Fixo. Após a injeção, o
processo dura entre 48h a 72h. Tudo isso é feito de forma gratuita.
Segundo Débora Barbosa, uma das vantagens da inseminação é a
disponibilidade de genética de qualquer touro com qualidades produtoras.
"O animal com uma genética definida fornece ao produtor a
potencialização da aptidão do rebanho, seja ele para corte ou leite,
definida pelo criador", explica.
Após o nascimento dos bezerros, a Seagri mantém o acompanhamento com
sua equipe, que conta com veterinário, inseminador, agrônomos e técnicos
em agropecuária. Em Juazeiro do Norte, a zona rural foi dividida em
cinco territórios, cada uma com um profissional para visitar mensalmente
criadores e agricultores.
Na propriedade do criador Pedro Gonçalves, no Sítio Jurema, já
nasceram seis bezerros. Trabalhando com o gado há mais de 40 anos, ele
acredita que a estiagem afetou a produção, mas vê com bons olhos o
refortalecimento da bovinocultura em Juazeiro do Norte. "A gente só vai
esperar o que é bom. Aqui vai ser melhor para o leite e espero vender
animais pelo dobro", enfatiza. A expectativa é positiva já que, em
outros locais, o programa já tem boa adesão e vem obtendo bons
resultados, como em Várzea Alegre. "Antes, a vaca produzia no máximo
seis litros de leite por dia, mas hoje a qualidade do rebanho melhorou e
produz o dobro", disse o criador, Luís Bezerra.
Referência
No início da década de 2000, Quixeramobim criou o programa InfoLeite,
de gestão de propriedade rural e de sanidade animal, principais
problemas enfrentados pelos criadores à época. Cinco anos depois, dando
continuidade a esse processo, surgiu o Gera Leite, de assistência
técnica, também desenvolvido em parceria com o Sebrae. Nesse período, a
assistência elevou a produção leiteira, reduzindo ao mesmo tempo os
custos no campo.
Esse trabalho auxiliou na elevação do rebanho. Os últimos números da
Pasta municipal da área são de 2007, com 61.148 animais e sem
ultrapassar os 100 mil litros de leite. O último censo do Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2018, aponta 85.200
cabeças. A produção atual diária de leite está na média de 140 mil, e
deve aumentar, estima a equipe da Secretaria de Desenvolvimento
Agropecuário de Recursos Hídricos e Meio Ambiente de Quixeramobim.
Há dois anos, a Prefeitura passou a desenvolver mais dois programas
focados no setor leiteiro, por meio do retorno do InfoLeite, com a
participação de 241 produtores, e com o Programa de Inseminação
Artificial, com mais outros 120. "Capacitamos 48 técnicos inseminadores e
vamos formar mais. Conseguimos botijões para armazenamento do sêmen,
comprado pela Prefeitura, também o nitrogênio, e a Laticínios Betânia,
através de parceria, dá apoio financeiro. Os resultados já estão sendo
alcançados e atraindo o interesse de outras comunidades", explicou o
titular da Pasta agropecuária, o médico veterinário Kolowyskys Dantas.
(Diário do Nordeste)



