O caminho que as vacinas têm de percorrer até
chegar aos postos de saúde é longo, burocrático e sujeito a obstáculos.
As remessas da pentavalente e das doses de reforço que deveriam imunizar
bebês de Fortaleza, por exemplo, tropeçaram em um dos imprevistos e
estão com distribuição irregular no Ceará e demais estados brasileiros
desde agosto do ano passado. Hoje, cerca de 18 mil crianças na capital
cearense estão sem a proteção, expostas a pelo menos cinco doenças
graves, de acordo com a Secretaria Municipal de Saúde (SMS).
Segundo Vanessa Soldatelli, coordenadora de imunizações da SMS, o
Estado chegou a ficar dois meses sem receber nenhum repasse das vacinas
pelo Ministério da Saúde (MS), o que gerou uma demanda reprimida de nove
mil crianças, em média, para cada mês de falta. "A pentavalente veio
mês sim, mês não. Foram dois meses sem a chegada da vacina. A DTP
(reforço) veio até agosto, depois não veio mais. Mas a maior preocupação
é com a 'penta', porque ela é a primeira proteção dos bebês contra as
infecções".
A vacina pentavalente é obrigatória no Calendário Nacional de
Vacinação, e deve ser aplicada nos bebês aos dois, quatro e seis meses
de idade, garantindo a imunização contra difteria, tétano, coqueluche,
hepatite B e a bactéria Haemophilus influenza tipo B, que pode causar
meningite e outros tipos de infecções. Já as chamadas doses de reforço
ou complementações são feitas por meio da vacina adsorvida difteria,
tétano e pertússis (DTP), voltada a crianças a partir de um ano.
Em nota, o Ministério da Saúde informou que "a remessa de vacina
pentavalente, adquirida por intermédio da Organização Pan-Americana da
Saúde (OPAS), foi reprovada em teste de qualidade feito pelo Instituto
Nacional de Controle de Qualidade em Saúde (INCQS) e análise da Agência
Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa)".
Por esse motivo, "as compras com o antigo fornecedor, a empresa
indiana Biologicals E. Limited, foram interrompidas pela Organização
Mundial da Saúde (OMS)".
O órgão confirmou que o abastecimento estava parcialmente
interrompido desde julho e deveria ser normalizado a partir de novembro
do ano passado. Quando os estoques forem estabilizados, aponta a Pasta
Federal, equipes do Sistema Único de Saúde farão busca ativa pelas
crianças que completaram dois, quatro ou seis meses de idade entre os
meses de agosto e novembro, para vaciná-las.
A coordenadora de imunizações de Fortaleza, contudo, afirma que a
gestão municipal "recebeu, só em janeiro, apenas a quantidade de rotina
normal para um mês": 9 mil doses de pentavalente e 5 mil da DTP, repasse
ainda insuficiente para vacinar as crianças descobertas durante o
período de falta. Para todo o Estado, conforme a Secretaria da Saúde do
Ceará (Sesa), foram enviadas 83.500 doses da vacina pentavalente e
60.840 da DTP, de agosto de 2019 até janeiro de 2020.
A professora Railane Morais, 35, precisou "madrugar" para conseguir
uma dose da vacina para o bebê Igor, de 3 meses, em um posto de saúde do
bairro Lagoa Redonda, na Regional VI da Capital. Só encontrou semana
passada. "Chegaram só 50 doses no posto, madruguei e consegui. Eu ficava
ligando e olhando as redes sociais das secretarias de saúde, para ver
se chegava. Procurei em vários cantos, por praticamente um mês, e vi
várias mães com bebês de até 5 meses que nunca tinham tomado. Só diziam
que não tinha previsão", relembra.
Clínicas particulares
Recorrer às clínicas particulares foi a única opção encontrada pela
dona de casa Ana Karine Batista, 40, para garantir a saúde do filho,
após dois meses peregrinando entre postos da Capital. "Não tinha mais
condição de esperar e recorri à via particular. Paguei R$ 300 pela
primeira dose, e agora vou pagar mais R$ 300 pela segunda, parcelado. É
um valor considerável, já que tenho outros filhos que estudam. Fico
imaginando outras mães que não têm de onde tirar dinheiro ou um cartão
de crédito. Ficam à mercê, e os filhos sem acesso ao que é direito
deles", avalia.
É o caso da família da costureira Marta Sousa, 45, que tem enfrentado
uma preocupação dupla: as duas netas, de 5 meses e de 1 ano e 5 meses
de idade, estão sem a imunização. "A mais nova ainda não tomou nenhuma
dose, a mais velha não conseguiu o reforço, tá tudo atrasado. A gente se
preocupa, porque elas estão totalmente desprotegidas", lamenta a avó,
que mora no município de Viçosa do Ceará, na divisa com o Piauí;
enquanto as netas vivem em Maracanaú, Região Metropolitana de Fortaleza.
"Os pais delas procuraram em vários postos, de vários bairros, mas
nada. Só dizem que tá faltando em todo canto e que não tem previsão de
chegar. Aqui na cidade eu fico perguntando também, por que se chegar e
elas puderem vir tomar, vêm. A gente não tem condição de comprar a
vacina no particular, ainda mais sendo duas", declara Marta.
Para Vanessa Soldatelli, o cenário é preocupante e requer cautela
porque, caso se prolongue, pode facilitar o retorno das doenças que
podem ser prevenidas.
Cenário preocupante
"As crianças que tiveram acesso à pentavalente podem ficar
tranquilas, porque precisam só da dose de complemento, que reativa a
imunidade e garante dez anos de proteção, até o reforço na fase
adolescente e adulta. Com as crianças que não tiveram nenhuma dose da
penta, precisamos ter mais cuidado. Recomendamos que os pais não saiam
muito para praias, festas de aniversário, igrejas e shoppings, que têm
grandes aglomera, diz Soldatelli.
A incidência das doenças que podem ser prevenidas por meio da
pentavalente é relativamente pequena. A difteria teve apenas um caso
confirmado no Ceará (em 2003), entre 1997 e 2018, de acordo com boletim
do Ministério da Saúde. Outras doenças, porém, continuam presentes. Em
2019, foram registrados 11 casos de tétano, quatro deles na Capital; de
coqueluche foram 29 casos, sendo nove em Fortaleza. Já a hepatite B
contabilizou 196 infecções e cinco mortes em todo o Estado - 77 dos
casos e uma das mortes foram anotados em Fortaleza.
Outra doença grave à qual crianças estão expostas sem a imunização é a
meningite causada pela bactéria Haemophilus influenza tipo B. No Ceará,
ano passado, foram 423 casos e 29 mortes contabilizadas por
"meningites", não especificado o causador. A Capital concentrou 227 dos
registros e nove dos óbitos. Todos os dados são do último boletim
epidemiológico de 2019 da Secretaria Estadual da Saúde.
Para Vanuza Chagas, pediatra e coordenadora de uma clínica de
imunização particular, a preocupação de pais e profissionais de saúde é
justificada pela vulnerabilidade de crianças a enfermidades sérias.
"Manter o calendário em dia é importante para evitar doenças que se
comportam de forma muito grave no primeiro ano de vida. São doenças que
podem deixar crianças internadas com complicações severas", alerta.
(Diário do Nordeste)



