Justamente porque tudo está conectado (cf. Laudato si '42; 56) no bem, no amor, justamente por essa razão, toda falta de amor repercute em tudo. A crise ecológica
que estamos vivenciando é, acima de tudo, um dos efeitos desse olhar
doente sobre nós, sobre os outros, sobre o mundo, sobre o tempo que
passa; um olhar doente que não nos faz perceber tudo como um presente
oferecido para descobrir que somos amados. É esse amor autêntico,
que às vezes nos alcança de maneira inimaginável e inesperada, que nos
pede para rever nossos estilos de vida, nossos critérios de julgamento,
os valores nos quais baseamos nossas escolhas. De fato, agora se sabe
que poluição, mudanças climáticas, desertificação, migrações ambientais, consumo insustentável dos recursos do planeta, acidificação dos oceanos, redução da biodiversidade são aspectos inseparáveis da desigualdade social: da crescente concentração de poder e riqueza nas mãos de muito poucas e das chamadas sociedades do bem-estar, dos insanos gastos militares, da cultura do descarte e de uma falta de consideração do mundo do ponto de vista das periferias, da falta de proteção de crianças e menores, de idosos vulneráveis e crianças ainda não nascidas.
O texto é de autoria do Papa Francisco, publicado no livro Nostra Madre Terra. O extrato é publicado por Corriere della Sera, 16-10-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.
É esse amor autêntico, que às vezes nos alcança de maneira
inimaginável e inesperada, que nos pede para rever nossos estilos de
vida, nossos critérios de julgamento, os valores nos quais baseamos
nossas escolhas - Papa Francisco
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Um dos grandes riscos de nosso tempo, então, diante da grave ameaça à vida no planeta causada pela crise ecológica, é a de não ler esse fenômeno como o aspecto de uma crise global,
mas de nos limitarmos a procurar - embora necessárias e indispensáveis -
soluções puramente ambientais. Ora, uma crise global requer uma visão e
abordagem globais,
que passam primeiro por um renascimento espiritual no sentido mais
nobre do termo. Paradoxalmente, as mudanças climáticas poderiam se
tornar uma oportunidade para nos questionarmos sobre o mistério de ser
criado e sobre o quê vale a pena viver. Isso levaria a uma profunda
revisão de nossos modelos culturais e econômicos,
para um crescimento na justiça e no compartilhamento, na redescoberta
do valor de cada pessoa, no empenho para que aqueles que hoje estão à
margem possam ser incluídos e aqueles que vierem amanhã ainda possam
desfrutar do beleza do nosso mundo, que é e continuará sendo um presente
oferecido à nossa liberdade e à nossa responsabilidade.
A cultura dominante
- aquela que respiramos através das leituras, dos encontros, das
diversões, nas mídia etc. - baseia-se na posse: de coisas, de sucesso,
de visibilidade, de poder. Quem tem muito vale muito, é admirado,
considerado e exerce alguma forma de poder; enquanto aquele que tem
pouco ou nada, corre o risco perder até mesmo seu próprio rosto, porque
desaparece, torna-se uma daquelas pessoas invisíveis que povoam nossas
cidades, uma daquelas pessoas que não notamos ou com quem tentamos não
entrar em contato. Certamente, cada um de nós é, acima de tudo, vítima
dessa
mentalidade, porque de muitas maneiras somos bombardeados por ela.
Desde crianças, crescemos em um mundo em que uma ideologia mercantil generalizada, que é a verdadeira ideologia e prática da globalização, estimula em nós um individualismo que se torna narcisismo, ganância, ambições elementares, negação do outro ...
A cultura dominante - aquela que respiramos através das
leituras, dos encontros, das diversões, nas mídia etc. - baseia-se na
posse: de coisas, de sucesso, de visibilidade, de poder - Papa Francisco
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Portanto, nessa nossa situação atual, uma atitude justa e sábia, ao
invés da acusação ou do julgamento, é acima de tudo a tomada de
consciência. Somos envolvidos, de fato, em estruturas de pecado (como São João Paulo II
as chamava) que produzem o mal, poluem o meio ambiente, ferem e
humilham os pobres, favorecem a lógica da posse e do poder, exploram os
recursos naturais, obrigam populações inteiras a deixar suas terras,
alimentam o ódio, a violência e a guerra.
É uma tendência cultural e espiritual que opera uma distorção em nosso
senso espiritual que vice-versa - em virtude de termos sido criados à
imagem e semelhança de Deus – nos orienta naturalmente ao bem, ao amor e
ao serviço dos outros. Por essas razões, a virada não pode vir
simplesmente do nosso empenho ou de uma revolução tecnológica: sem
negligenciar tudo isso, precisamos nos redescobrir pessoas, ou seja,
homens e mulheres que reconhecem que são incapazes de saber quem são sem
os outros e que se sentem chamados a considerar o mundo à sua volta não
como um objetivo em si, mas como um sacramento da comunhão. Dessa
maneira, os problemas de hoje podem se tornar oportunidades autênticas,
para que possamos nos descobrir verdadeiramente como uma única família, a
família humana. Enquanto tomamos consciência de que estamos perdendo a
meta, de que estamos dando prioridade ao que não é essencial ou mesmo ao
que não é bom e causa mal, o arrependimento e o pedido de perdão podem
nascer em nós.
Eu sinceramente sonho com um crescimento da consciência e do sincero arrependimento
de todos nós, homens e mulheres do século XXI, crentes e não crentes,
de parte de nossas sociedades, por nos deixarmos levar por lógicas que
dividem, provocam fome, isolam e condenam. Seria bom se pudéssemos pedir perdão aos pobres,
aos excluídos; então poderíamos nos arrepender sinceramente também do
mal feito à terra, ao mar, ao ar, aos animais ... Pedir e conceder
perdão são ações que são possíveis apenas no Espírito Santo, porque Ele é
o artífice da comunhão que abre os fechamentos dos indivíduos; e é
preciso muito amor para deixar de lado o orgulho, perceber que se
cometeu um erro e ter esperança de que novos caminhos sejam realmente
possíveis. Portanto, o arrependimento para todos nós, para a nossa era, é
uma graça a ser humildemente implorada ao Senhor Jesus Cristo, para que
em nossa história essa nossa geração possa ser lembrada não por seus
erros, mas pela humildade e sabedoria de ter sabido inverter a rota.
O que estou dizendo talvez pareça idealista e pouco concreto, enquanto parecem mais viáveis as estradas que visam o desenvolvimento de inovações tecnológicas, a redução no uso de embalagens, o desenvolvimento de energia a partir de fontes renováveis etc.. Tudo isso, sem dúvida, não é apenas um dever, mas necessário. No entanto, não é suficiente. A ecologia
é a ecologia do homem e de toda a criação, não apenas de uma parte.
Como em uma doença grave, a medicina sozinha não é suficiente, mas é
preciso olhar para o doente e entender as causas que levaram ao
aparecimento do mal; assim, da mesma forma, a crise de nosso tempo deve
ser enfrentada em suas raízes. O caminho proposto consiste, então, em
repensar nosso futuro a partir das relações: os homens e as mulheres de
nosso tempo têm tanta sede de autenticidade, de rever sinceramente os
critérios da vida, de reorientar-se para o que vale, reestruturando a existência e a cultura.



