Você está em: CEARA // Notícia de Fagner Freire // 24 de julho de 2020


Uma pesquisa envolvendo mais de 150 cientistas brasileiros e de outros países, fruto de uma cooperação que garantiu o sequenciamento do genoma do novo coronavírus no Brasil, identificou 104 cepas (linhagens) iniciais do vírus no País. Os pesquisadores analisaram 427 amostras, de 21 estados. Destas, três predominam. Uma das linhagens se concentra no Ceará, conforme explica o pesquisador Darlan da Silva Cândido, cearense de Quixeramobim, que estuda na Universidade Oxford, no Reino Unido, e é um dos realizadores do estudo.

O achado desta cepa diferenciada no Ceará, conforme Darlan, não precisa "causar alarme". O pesquisador explica que isto ocorre porque o vírus passa por mutação. Algumas vezes, essa mudança pode influenciar de modo a aumentar a transmissão ou a severidade dos casos. Mas, por enquanto, não é possível fazer esse tipo de afirmação em relação às linhagens encontradas no País. Outra cepa predominante está em São Paulo e a terceira circula em 16 estados brasileiros. Nesta quinta-feira (23), um artigo, fruto da pesquisa, foi publicado na revista Science, um dos mais renomados periódicos científicos no mundo.

Você participou do sequenciamento do genoma do coronavírus no Brasil. E agora, do que trata a pesquisa e o artigo?
Nós estudamos vários aspectos diferentes da epidemia de coronavírus especificamente no Brasil. Sabemos que tem uma pandemia acontecendo, mas o nosso foco da universidade de Oxford e de várias instituições no Brasil é justamente entender qual o quadro atual de coronavírus no País. Então, a pesquisa tem dois lados. Um deles é o lado da epidemiologia. É entender os casos. Quem são essas pessoas? Quais as características dessas pessoas que se infectaram? Qual o desfecho dessa infecção? Ou seja, esses pacientes se recuperaram, houve óbitos, e tentar entender alguns aspectos relacionados a isso. Outro ponto que é o relacionado ao artigo, é sobre o vírus em si. Aí que entra a questão do sequenciamento do genoma. O sequenciamento dessa receita do vírus, essa identificação do vírus. Então, quando a gente sequencia o genoma, eu consigo identificar o vírus. Se eu sequencio o genoma de uma pessoa, eu consigo identificar se ele é diferente do genoma do vírus da outra pessoa. E vamos fazendo comparações. A partir desse processo, conseguimos sequenciar 427 novas amostras do coronavírus no Brasil.

O que esse processo significa?
Essas 427 são do Brasil inteiro, de 21 estados. Conseguimos ter um panorama interessante do que está acontecendo em várias regiões do País. É claro que é importante comparar essa sequencia desses genomas entre as amostras do Brasil, mas a gente também compara com as amostras de outras regiões do mundo. E quando se faz isso, conseguimos entender de onde vieram esses casos do Brasil. Sabemos que não tínhamos o coronavírus no Brasil, então ele veio de algum lugar. Quando colocamos isso no contexto que está no mundo, podemos entender como foi a introdução e reconstruímos a história dessa epidemia no Brasil.

Esse comparativo é ir confrontando "sequências de números e letras" achadas no Brasil e ver se bate com a de pessoas contaminadas em outros países?
É um pouco mais complicado do que isso, mas a ideia por trás do processo é exatamente isso. São modelos matemáticos complexos que fazem essa comparação para a gente e vão agrupando essa sequencia. Vamos reconstruindo e vamos entendendo.

Quais foram os achados e o que o artigo informa?
Nosso primeiro achado mais interessante é que dessas 427 amostras, 104 foram introduções internacionais no Brasil. Então, não foi transmissão local. Foram importações. Alguém que voltou de algum outro país, nesse caso, são países da Europa, e veio para o Brasil, trouxe o vírus para cá. Esse número pode parecer grande, mas, na verdade, a gente tem certeza que são números subestimados. Porque só temos 427 amostras. Até o fim de abril, tínhamos mais de 80 mil casos no Brasil. Então, nós sequenciamos uma a cada 200 casos. Se tivéssemos conseguido sequenciar mais que isso, provavelmente teríamos encontrado mais importações. É importante para entender que a epidemia que vivemos no Brasil não é resultado de uma só introdução, mas de várias introduções.
O segundo achado é que apesar de termos tido mais de 100 introduções no País, apenas três parecem contar a história geral do que está acontecendo no Brasil. Então, como sabemos isso? Porque se formaram três grupos de sequência brasileiras em nossas análises. Um grupo bem grande é mais com sequências do Estado de São Paulo, o segundo com sequências do Brasil todo, principalmente Sudeste, e o terceiro grupo é do Ceará. Isso mostra que a epidemia que está acontecendo no Ceará é resultado de uma introdução que é diferente daquilo que acontece no restante do País.
No Ceará, aparentemente a epidemia que nós vivemos hoje é resultado de uma introdução da Europa. Talvez pelo Ceará ter reagido de forma rápida e eficaz, ela também não se espalhou muito para outros lugares do Brasil. Ela é uma linhagem característica do nosso Estado.

Essas diferenças de linhagem trazem consequência? É mais identificação ou, por isso, a doença pode, por exemplo, ser mais forte no Ceará?
Não sabemos ainda algumas informações. Quando eu falo de linhagem, significa que o vírus do Ceará é um pouquinho diferente do vírus do Sudeste, por exemplo. Isso a gente chama de mutação. Essas mutações são um problema? Não necessariamente. Na maioria das vezes a mutação não é um problema. Ela é um processo natural e vai acontecer. Mas, algumas mutações levam a alterações no vírus que são importantes. Por exemplo, existem mutações que podem aumentar a transmissão, que podem aumentar severidade dos casos e por aí vai. Pode ser que essa diferença de linhagem não seja significativa em termos de transmissão e severidade de casos. Mas é algo que pode ser explorado em estudos mais para a frente.

Por que e como essas mutações acontecem?
Você imagina que o objetivo de qualquer espécie é se reproduzir e manter-se viva. O objetivo do vírus é a mesma coisa. O vírus não infecta o paciente para matar. Ele infecta porque ele precisa do paciente para se multiplicar. Ele quer infectar o maior número de pessoas porque ele quer manter a espécie. É nesse processo de se multiplicar que ocorrem erros. Uma cópia acaba sendo diferente da outra. Quando as nossas células estão se multiplicando tudo isso também acontece. Só que em uma frequência muito menor do que o vírus. Essa é a diferença. O vírus muta muito mais rápido do que a gente. Então, é essa mutação que pode significar alguma coisa, como, por exemplo, ele se tornar resistente a um medicamento.

Então, essa mutação pode fazer com que o remédio que serve para uma cepa não sirva para outra?
Isso pode acontecer. Pode ser que um medicamento só sirva para uma cepa e não sirva para outra. Temos tratamento que são específicos para cepas de determinados vírus, bactérias... Mas neste momento, no caso do coronavírus, não temos um medicamento super eficaz. E não temos mutação que parece ter efeito então em eficácia de medicamento.

Quando vocês encontram o Ceará com essa cepa diferenciada, já estava no radar de pesquisa que estados que têm um fluxo internacional maior poderiam apresentar algo assim?
Nós já esperávamos que alguns estados fossem apresentar isso, principalmente os que são mais conectados em cada região. Mas realmente foi uma surpresa vê o quão fechado parece que é a transmissão dentro do Ceará. Pelas amostras que tivemos acesso, percebemos que é uma linhagem bem específica do Ceará. Isso me deixou um pouco surpreso porque vemos que para os outros estados do Brasil tivemos essa dispersão, principalmente, no Sudeste. Não vemos isso no Ceará. Receber menos linhagem também pode ser uma coisa positiva, porque ter várias linhagens diferentes circulando ao mesmo tempo pode ser mais difícil ter um controle da epidemia. Não queremos criar um alarmismo. É uma linhagem diferente. Mas isso não quer dizer que é diferente porque é mais séria. Nesse momento, estamos em um ponto que criamos mais perguntas do que respostas. Respondemos uma pergunta e criamos outras 20. Com o tempo, vamos conseguir entender essas coisas de uma forma melhor.

Tem como reconstituir e dizer de onde esse vírus veio?
Quase 100% de todas as introduções internacionais que aconteceram no Brasil vieram da Europa. Das que a gente identificou. Uma relação que podemos fazer é o fato do Ceará receber voos, e isso está ligando o Ceará com a Europa. Quando a gente faz a reconstrução não é só no tempo, não é só a data, e também no espaço. A gente consegue saber onde cada uma dessas coisas aconteceu. Então, sabemos que quase 100% das linhagens foram introduzidas da Europa e que a linhagem específica do Ceará é introduzida a partir da Europa.

Qual o foco da pesquisa agora? Alguém vai continuar investigando essas diferentes linhagens?
O foco de continuar sequenciando mais amostras do Brasil. Temos alguns estudos específicos que estão em andamento mas, neste momento, não vamos parar para testar e falar 'oh essa mutação parece que está causando isso, e aquela está causando aquilo'. Nosso foco é mais descrever essa história e olhar para outras coisas relacionadas ao sequenciamento, mas esse tipo de estudo é complexo e difícil de fazer. Então, em geral, só parte para um estudo desse quando tem algum achado que te leva a pensar que tem isso já envolvido. Por exemplo, se o Ceará tivesse uma mortalidade muito mais alta do que qualquer Estado do Brasil, nos levaria a pensar que a linhagem do Ceará é diferente e pode ser que esteja relacionado a isso.

De onde vieram as amostras? Como é essa análise?
Essas amostras vêm de várias fontes diferentes. Do sistema público ao privado. Essas amostras são as que a gente chama de residual. O que é isso? Ela foi usada para o diagnóstico e elas são anonimizadas, não temos acesso ao nome dos pacientes e elas vêm para a gente para serem sequenciadas. Não são nem coletadas necessariamente para o sequenciamento, mas elas são utilizadas para o sequenciamento porque se entende que elas são amostras que restam do diagnóstico e podem ser utilizadas para fins de pesquisa.

Quantos pesquisadores estão envolvidos nessa pesquisa?
Na verdade, esse trabalho é uma força-tarefa. Temos 15 instituições diferentes no Brasil participando desse trabalho, várias instituições no exterior que ajudaram na parte de análise de dados. Temos 78 autores e temos uma lista de mais 80 pessoas que ajudaram mas que não entraram exatamente como autores. Então, é muita gente e é muito trabalho.


 (Diário do Nordeste)
Caderno: CEARA
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