O possível retorno às aulas presenciais, antes previsto para o dia 20
de julho no Ceará, não foi incluído na 4ª fase do plano de retomada
econômica no Estado. Desta forma, a volta às aulas não poderá ocorrer na
próxima semana. A decisão foi informada pelo governador Camilo Santana
em entrevista ao Sistema Verdes Mares, na manhã dessa quarta-feira (15).
Sem estimar as possíveis datas de retorno, Camilo informou que segue
avaliando e discutindo como o processo ocorrerá.
Instituições ligadas à educação e também representativas dos
municípios avaliam que o adiamento foi acertado. No entanto, segundo as
entidades, para evitar evasão escolar e maiores prejuízos aos
estudantes, o momento agora, é de fortalecimento das práticas de ensino
remoto e intensificação do contato das escolas com as famílias.
"A decisão do governador é sensata e está orientada por especialistas
e autoridades sanitárias. E visa evitar que aconteça no Ceará o que
ocorreu em outros países, como França e Itália, que tiveram que
retroceder", avalia a vice-presidente do Conselho Estadual de Educação,
Lúcia Veras. De acordo com ela, é preciso reforçar que a atividade
educacional está inserida no rol das ações que geram aglomeração e,
portanto, a depender das condições, pode pôr vidas em risco. "É um
decisão de preservação de vidas", completa.
O Conselho Estadual de Educação, explica Lúcia, deverá em breve,
publicar uma normativa que orienta a continuidade do ensino remoto no
Ceará até 31 de dezembro de 2020. "Não significa necessariamente que
vamos ter aula remota até essa data, mas com o intuito de preservar a
vida ele pode continuar a depender da situação de pandemia", enfatiza.
Qualidade
No atual período, avalia Lúcia, as redes precisam se preocupar com os
estudantes e com os profissionais. A alternativa para garantir o mínimo
de qualidade é ter foco no ensino remoto. "Importante é manter esse
vínculo da família com a escola, da criança com a escola. E focar
principalmente na preservação da vida. Tudo se recupera. Aprendizagem se
recupera. É importante que a gente não tenha muita evasão porque é uma
coisa nova. Nós não tínhamos cultura desse ensino remoto".
O presidente do Sindicato dos Professores e Servidores da Educação e
Cultura do Estado e Municípios do Ceará (Apeoc), Reginaldo Pinheiro,
reitera que a decisão de adiar o retorno das aulas presenciais foi
correta. "Entendemos que o retorno às aulas neste momento é precipitado.
Embora em alguns municípios a situação esteja estabilizada, em outras
regiões os números de casos são crescentes", diz.
Ele afirma que a realidade de volta às aulas é complexa, envolvendo
não só a adequação dos ambientes escolares, como também o transporte de
alunos, as medidas de distanciamento, e a segurança sanitária. "Além do
planejamento, é preciso que haja recurso público para garantir a saúde e
a vida de alunos e profissionais. Isso demanda mais dinheiro", opina.
Segundo o presidente, os servidores concordam que ter aulas
presenciais em agosto, como estava previsto, não seria possível.
Questionários sobre estudantes e trabalhadores em grupos de risco ainda
estão sendo realizados, que devem seguir protocolo diferenciado. Outro
ponto necessário de ser planejado, acredita Reginaldo, é a contratação
de novos profissionais para garantir que a sobrecarga não irá acontecer.
"Tem que ter respeito com a jornada de trabalho do profissional da
educação". Ele também pontua a importância do cumprimento do acordo
salarial dialogado com o governo Estadual.
Híbrido
Reginaldo defende que, quando for seguro para realizar o retorno, a
modalidade escolhida seja o ensino híbrido, mesclando aulas presenciais e
remotas. Para que isso aconteça, é preciso que haja também um
investimento no atual modelo desenvolvido pelos professores. De acordo
com ele, muitos precisaram comprar equipamentos e contratar pacotes de
internet mais potentes com recursos próprios para conseguir dar
continuidade ao contato com os alunos. Da mesma forma, diversos alunos
não têm condições de acompanhar as aulas e atividades plenamente pela
dificuldade de acesso. "As atividades remotas são alternativas que devem
ser cada vez mais aprimoradas", declara.
Na avaliação do presidente da Associação dos Municípios do Estado do
Ceará (Aprece), Nilson Diniz, em determinadas regiões do Estado, como o
Cariri, "não existe a mínima possibilidade de retorno no momento". Ele
acrescenta que nos município da região, a análise dos representantes
políticos que não há chance de retorno nem em agosto.
Nilson também reconhece que o ensino remoto enfrenta diversas
dificuldades e segue dinâmicas distintas em cada município. "O fato que é
essa questão das aulas remotas é difícil mesmo de fazer, mas temos que
procurar todos os meios para intensificarmos isso". De acordo com ele,
não há consenso sobre esse retorno presencial e no interior as
autoridades se questionam sobre a margem de segurança para essa volta.
A diretora técnica da Organização Educacional Farias Brito, Fernanda
Denardin, afirma que a instituição respeita a decisão do governo, uma
vez que há um grupo de profissionais especializados que estão
gerenciando esses protocolos. Contudo, ela avalia que há diferenças
entre as demandas dos ensinos público e privado e, por isso, um deva se
sobrepor ao outro.
"O ideal, no nosso ponto de vista, seria que ele (o governador)
pudesse determinar uma data e dar autonomia para que as instituições de
ensino tomassem a decisão quando é melhor para começar. Porque existe
uma certa demanda das famílias, principalmente das famílias de educação
infantil para que esse retorno das aulas aconteça o quanto antes",
pontua Denardin.
Capital
De acordo com a Secretaria Municipal da Educação (SME) de Fortaleza, o
decreto do prefeito Roberto Cláudio de suspensão das atividades
escolares presenciais na cidade tem validade até o dia 31 de julho. Em
nota, a Pasta ainda informou que, no próximo mês de agosto, ocorrerá o
período de férias para alunos e professores. "Destaca-se, ainda, que o
retorno das atividades presenciais será definido conforme orientações do
Governo do Estado, Prefeitura de Fortaleza e autoridades sanitárias",
diz.
Famílias retiram filhos de escolas durante pandemia
Desde que o coronavírus começou a circular no Ceará, oficialmente, em
meados de março, e as atividades presenciais em escolas foram
suspensas, mães e pais de crianças e adolescentes têm optado por
cancelar matrículas. As justificativas são as mais diversas, seja por
questões financeiras, falta de adaptação dos alunos ao ensino remoto ou
ausência de estrutura em casa.
Carol Benevides, de 32 anos,cancelou a matrícula do pequeno Pedro
Vinícius desde o princípio, tão logo iniciou o afastamento das aulas
presenciais. "Tanto por não acreditar que isso (ensino remoto) é viável
para uma criança de cinco anos quanto porque, para a minha realidade,
não dava certo. Eu nunca pude ficar em casa e nem ter o isolamento
social que era preciso porque sou farmacêutica e meu esposo é policial,
então a gente nunca pôde parar de trabalhar", diz.
Para suprir o déficit que o filho poderia vir a ter por causa da
distância da escola, Carol optou por contratar uma professora particular
e, desde então, a profissional viabiliza atividades de segunda a
sexta-feira, por uma hora.
"Ela está fazendo esse acompanhamento com ele em casa. Optamos por
ela porque teria uma resposta melhor no desenvolvimento dele, até porque
a gente não sabia quando volta, e taí, já são quatro meses sem". A
enfermeira Lícia Varela, 34, também optou pelo cancelamento das
matrículas das filhas Esther, de 7 anos, e Rebeca, 6. O problema também
foi a falta de estrutura e o retorno baixo do ensino remoto. "Dado o
avanço da pandemia, em maio, a gente percebeu que elas não estavam
conseguindo acompanhar muito bem as aulas online. São duas crianças com
idade próxima e o tempo de aula era igual", conta.
Para a mãe, embora todos estejam com a angústia de já ter perdido boa
parte do primeiro semestre, "assim que for possível o retorno
presencial, ainda que híbrido, uma vez por semana, elas retornarão. O
retorno delas vai ser esse porque o online não se aproveita, mas no
presencial, sim", avalia.
Diário do Nordeste



