Você está em: NACIONAL // Notícia de Fagner Freire // 3 de fevereiro de 2021

 


Parentes do menino de 11 anos encontrado acorrentado em um barril, no último sábado (30), em Campinas (93 km de SP), afirmam que estão recebendo ameaças, via mensagens de celular, desde a libertação do garoto pela Polícia Militar. O menino está internado.

Os familiares intimados não moraram na mesma casa do garoto, no Jardim Itatiaia. O pai do garoto, um auxiliar de serviços gerais de 31 anos, a mulher dele, uma faxineira, de 39, e a filha dela, uma vendedora de 22 anos, foram presos em flagrante, por tortura. A Justiça determinou a prisão preventiva do trio, ou seja, por tempo indeterminado, na tarde de segunda-feira (1º). A defesa deles não foi localizada até a publicação desta reportagem.

A tia que acompanhou o garoto até o Hospital Municipal Ouro Verde, para onde ele foi levado no sábado com sinais de desnutrição, afirmou à reportagem nesta quarta-feira (3) que a primeira ameaça foi enviada no mesmo dia que a criança foi retirada do barril de lata e levada para um hospital.

"Mandaram mensagens afirmando saber que eu estava no hospital e que estavam monitorando a saída e entrada de familiares [na unidade de saúde]. Não sei como conseguiram meu telefone", afirmou.

Ela disse que foi chamada por telefone, por uma conselheira tutelar, para fazer o acompanhamento do sobrinho, que, segundo ela, não via desde fevereiro do ano passado. Na ocasião, diz a parente, o garoto aparentava estar bem, diferentemente de quando foi libertado por policiais militares no sábado.

"Quando vi meu sobrinho [no ano passado] nem pude entrar na casa, fiquei no portão, onde fui atendida pela mulher de meu irmão, que não estava em casa", afirmou a comerciante.

Ela acrescentou que a cunhada não permitia sua entrada na residência, atendendo-a no porão, há cerca de três anos.

Segundo uma das mensagens enviadas à mulher, o suspeito afirma: "Isso não vai ficar assim, a população quer justiça! Estamos aqui na frente do hospital e a casa deles está sendo vigiada", diz trecho de uma das mensagens, se referindo ao local onde o menino era mantido preso.

Até o genro da mulher, que mora em outra cidade, recebeu ameaças dirigidas à sogra. "A tia que foi ficar com a criança [no hospital] vai ser investigada. Estamos todos reunidos esperando, vendo quem entra e sai do hospital. Nessa noite [domingo, 31] dormiu lá uma senhora, certeza que é a avó. Assim que ela sair a gente vai investigar ela", diz trecho de mensagem dos suspeitos.

Ainda de acordo com a tia do menino, as intimidações foram enviadas até esta segunda. Em uma delas, os suspeitos afirmam que "não interessa quem fez isso [manter o menino no barril], todos vão pagar."

Ainda na noite de terça, a comerciante foi ao 4º Distrito Policial de Campinas, onde teria informado a um policial civil de plantão sobre as ameaças. "Falei que pretendia registrar um boletim de ocorrência sobre isso, mas o policial me desestimulou, falando que isso não iria resolver nada".

A SSP (Secretaria da Segurança Pública) foi questionada sobre a suposta omissão do agente, mas não havia se posicionado até a publicação desta reportagem.

Casa invadida

Nesta terça-feira, o garoto foi transferido do Hospital Municipal Ouro Verde para o Hospital Mário Gatti, também administrado pela prefeitura. "Não nos falaram sobre horário de visitas neste novo hospital. O que meu sobrinho mais precisa neste momento é saber que é amado e querido", disse a tia.

A casa onde morava o menino foi invadida e vandalizada por pessoas, ainda não identificadas, na madrugada desta segunda-feira (1º). O caso, porém, não foi relatado às polícias Civil e Militar, segundo a SSP.

Um tio do menino afirmou que soube da invasão do imóvel quando voltava para sua casa, perto de onde a criança vivia, acompanhado da filha de 10 anos. "Chegaram [vizinhos] falando que a casa [da vítima] estava toda quebrada e virada. Mas não fui lá ver o que aconteceu", afirmou ele, que criticou a invasão da casa.

Sobre a prisão de seu irmão, ele afirmou que soube que seu sobrinho era mantido em um barril após o caso ser divulgado pela imprensa. "Eu imaginava que tinha problemas, como toda família tem, mas não da forma que foi divulgado", afirmou.

Investigação

A Secretaria Municipal da Saúde de Campinas afirmou, na manhã desta quarta, que a criança permanece sob cuidados de pediatria. "Detalhes sobre estado da criança não serão fornecidos por se tratar de um menor de idade e em respeito ao sigilo médico", diz trecho de nota.

A Prefeitura de Campinas abriu uma investigação, nesta terça, para verificar eventuais omissões e falhas de servidores públicos, além de entidades conveniadas, com relação ao caso do menino.

O prefeito Dário Saadi (Republicanos) afirmou que a medida foi tomada após o Conselho Tutelar Sul, que acompanhava o caso do garoto há mais de um ano, afirmar não ter detectado sinais de que a vítima era torturada.

"Nas últimas informações que chegaram ao órgão, em dezembro de 2020 e janeiro de 2021, recebemos a notícia de que a situação da criança e da família vinha evoluindo bem e positivamente", diz o conselho, em nota.

O Ministério Público de Campinas afirmou ter instaurado um procedimento pedindo informações sobre os atendimentos feitos ao menino e à sua família pelo Conselho Tutelar, especialmente em 2020, para verificar se eles foram realizados remotamente, em razão da pandemia da Covid-19, e sobre uma eventual suspensão de atendimentos presenciais à criança.

 

(Diário do Nordeste)

Caderno: NACIONAL
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