Você está em: CEARA // Notícia de Fagner Freire // 7 de maio de 2022

 Onça-parda sofre com infecção causada por estilhaços de chumbo, no Ceará. — Foto: PMCE/Instituto Pro-Silvestre

A onça-parda encontrada na região norte do Ceará, em abril, após ser atropelada passou por exames que mostraram uma intoxicação por projéteis de chumbo em várias partes do corpo, como rim, estômago e coluna, possivelmente ocasionados por uma arma de pressão. Além dos estilhaços, o animal fraturou dois membros por conta do atropelamento.

Em abril, o resgate foi feito por uma equipe da Polícia Ambiental em uma estrada entre os municípios de Uruoca e o Martinópole, após as autoridades receberem denúncias sobre o atropelamento da onça. Após o atendimento policial, o animal foi encaminhado para um hospital veterinário plantonista em Sobral, também na região norte.

“Ao chegar aqui, o ortopedista foi acionado e começamos a fazer os primeiros exames; os radiográficos mostraram um resultado de fratura no rádio e outra mais na região do cotovelo da paciente. E vários estilhaços de chumbo, compatíveis com aquelas armas de pressão. Eram pelo menos 14 e em várias regiões: próximo ao rim, estômago, coluna”, lembra Romuelly Cavalcante, diretor técnico do hospital veterinário da Uninta, que atende a onça.

Onça-parda é resgatada entre Uruoca e Martinópole, no Ceará.

O veterinário disse que os resíduos de chumbo já estavam ‘cicatrizados’, o que significava que o animal não havia sido atingido recentemente (próximo à data em que ele foi capturado). Ele acredita que o animal foi atingido por algum morador da região que tentou caçar ou atirou “por maldade”. O veterinário disse que o animal é uma onça-parda, macho e bem jovem; “de no máximo um ano e meio”. 

Os estilhaços, inclusive, são apontados como um dos fatores que causaram o atropelamento, conforme Eliziane Holanda, presidente do Instituto Pro-Silvestre, que cuida da onça-parda atualmente.

“A gente acha que o atropelamento do animal se deu por conta dessa intoxicação pelo chumbo, por ela já estar confusa”, disse Eliziane. Ela informou ainda que os resquícios mais superficiais do chumbo já foram retirados, mas é necessária uma cirurgia complexa para remover dos órgãos internos.

Onça-parda e os profissionais que fizeram resgate, no Ceará. — Foto: Polícia Ambiental/Divulgação

“Ela é comum na região só que, infelizmente por conta das caças, muitos animais vão sendo pouco vistos, e esse é um dos casos. A onça-parda está sim como um dos principais animais, da nossa fauna local, que é observado que pode entrar em extinção”, informou Romuelly.

Cirurgias

A prioridade dos veterinários era cuidar das patas fraturadas, quando a onça chegou ao hospital universitário de Sobral. “Foram colocadas duas placas cirúrgicas nos dois membros, que era o caso mais urgente. Foram feitos exames de sangue e todos os resultados foram passados para os veterinários do Instituto Pro-Silvestre”, explica Romuelly.

Radiografias mostram pedaços de chumbo e fraturas na onça-parda resgatada, no Ceará. — Foto: PMCE/Reprodução

Eliziane disse que atualmente o animal está no recinto do Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetas) do Ibama, e todo o apoio operacional (médicos, alimentação, atendimento, etc) é cedido pelo instituto. “Como é um animal de grande porte, então ele precisa de um local bem reforçado e adequado”, explica a presidente do instituto.

A onça passou, no último sábado (30), por uma reavaliação feita por uma equipe de sete veterinários, entre eles ortopedista, ultrassonografista, radiologista, etc. “Verificamos que esse animal está com vários projéteis de chumbo e, por conta disso, o prognóstico não foi favorável, porque esse material está causando intoxicação no animal e pode comprometer vários órgãos”, destaca Eliziane.

Ela disse, inclusive, que a cirurgia ortopédica nas patas do animal vai precisar ser refeita porque uma das placas colocada se deslocou.

“Ele vai ter de passar por uma cirurgia bastante delicada, para poder retirar os [projéteis] que estão dentro dos órgãos dele, retirar os que estão dentro da coluna. A cirurgia, sem data marcada, ainda está sendo planejada porque vai precisar de um aparato grande, e a gente está vendo com a equipe de veterinários e também com o Cetas para decidir o melhor protocolo”, complementa a presidente do Pro-Silvestre.

A gravidade dos ferimentos também vai impedir o retorno do animal à natureza. "Ele não tem possibilidade de retornar à natureza por conta da fratura que houve. Infelizmente, o movimento de rotação da pata do animal ficou comprometido. Quando o felino vai atacar a presa, para se alimentar, ele ‘abraça’ o outro animal, e esse movimento ficou comprometido", explica Eliziane. 

 

 

(G1/CE)

 

Caderno: CEARA
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