O estudo finalmente resolve um mistério que intrigava cientistas desde 2009: a quem pertencia um pé fossilizado achado em 29 fragmentos na região de Woranso-Mille.
Agora, com a ajuda de novos achados, os pesquisadores conseguiram associar o fóssil à espécie Australopithecus deyiremeda, diferente da famosa Lucy (Australopithecus afarensis).
Fragmentos do BRT-VP-2/135 antes da montagem. O espécime foi encontrado em 29 pedaços, dos quais 27 foram recuperados por peneiramento e seleção da terra peneirada. — Foto: Yohannes Haile-Selassie, Universidade Estadual do Arizona
O pé que não combinava com Lucy
Lucy, descoberta em 1974, ficou conhecida por ser totalmente bípede. Por isso, quando o chamado Pé de Burtele foi encontrado em 2009, algo chamou atenção.
Ele tinha um dedão opositor, como o polegar das mãos, útil para escalar árvores; mas o restante do pé indicava locomoção bípede em terra firme.
Era um mosaico incomum: parte trepador, parte caminhante terrestre.
O problema é que, sem uma mandíbula ou dentes associados ao pé, os cientistas não podiam confirmar de qual espécie ele vinha. A prudência é regra na paleoantropologia.
Ao longo da última década, novas escavações trouxeram o que faltava: dentes e a mandíbula de um indivíduo jovem, compatíveis com a anatomia do pé. A partir deles, foi possível confirmar que o dono do fóssil era mesmo o A. deyiremeda.
Montagem de fotos mostra o esqueleto de Lucy e um modelo tridimensional do Australopithecus afarensis — Foto: University of Texas at Austin via AP/AP Photo/Pat Sullivan
Duas espécies no mesmo lugar e ao mesmo tempo
Essa é a parte mais importante da descoberta: é o único sítio arqueológico conhecido onde duas espécies de hominídeos relacionadas aparecem claramente convivendo no mesmo período, na mesma paisagem.
Isso muda o entendimento sobre a Etiópia daquela época. O que se pensava ser um território dominado exclusivamente pelo A. afarensis — a linhagem de Lucy — agora revela um cenário mais diverso, com espécies vizinhas vivendo lado a lado.
E elas ocupavam nichos diferentes.
Jeitos diferentes de andar
A análise do pé mostra que o A. deyiremeda tinha:
- dedão que ainda conseguia agarrar galhos (habilidade útil para forragear e buscar alimento em árvores);
- andar bípede, mas com impulso vindo do segundo dedo, não do dedão — o oposto do que humanos modernos fazem.
Enquanto isso, Lucy tinha pés totalmente adaptados ao bipedalismo terrestre, com dedão alinhado aos outros.
Isso indica que o bipedalismo não surgiu de um jeito único. Havia “experimentos evolutivos” acontecendo simultaneamente, até que uma forma mais eficiente prevaleceu.
Montagem mostra o fóssil do 'Australopithecus afarensis'; à direita, as costas da ossada de 'Selam' — Foto: Divulgação/Dikika Research Project
Dietas diferentes, vidas diferentes
Além dos pés, a equipe analisou isótopos de carbono em oito dos 25 dentes atribuídos ao A. deyiremeda. A técnica permite identificar que tipos de plantas eram consumidos.
Os dados revelaram:
- Lucy tinha uma dieta variada, incluindo gramas e vegetação aberta (plantas C4).
- A. deyiremeda comia majoritariamente plantas C3, típicas de áreas arborizadas.
Ou seja: as duas espécies não competiam diretamente pelos mesmos recursos, o que ajuda a explicar como conseguiram coexistir.
Uma mandíbula infantil mostra como cresciam
Entre os novos fósseis está também a mandíbula de um indivíduo jovem, com dentes de leite e permanentes em formação. A tomografia revelou padrões de crescimento semelhantes aos de outros australopitecos, mostrando que, apesar das diferenças de locomoção e dieta, o desenvolvimento infantil dessas espécies seguia um padrão parecido.
Os pesquisadores destacam que entender o comportamento, a dieta e o ambiente desses ancestrais ajuda a compreender como mudanças climáticas antigas moldaram a evolução — e como transformações ambientais atuais podem afetar a vida humana no futuro.
“Se não entendermos o nosso passado, não conseguimos compreender plenamente o presente”, afirma Yohannes Haile-Selassie, coordenador da pesquisa.



