Ambientalistas alertam para risco ambiental na instalação de teleférico em jardim botânico do Cariri

 

Imagem mostra ave soldadinho-do-araripe em galho de árvore.
Legenda: Ave é símbolo da biodiversidade do Estado. / Foto: Fabio Nunes/Aquasis.





A possibilidade de construir um novo teleférico na região do Cariri tem gerado divergências com ambientalistas desde a semana passada, quando o prefeito do Crato, André Barreto, revelou a intenção de instalar o equipamento na área do futuro Jardim Botânico do Cariri.

Voltado à preservação de espécies nativas, o parque foi anunciado na última sexta-feira (20) e deve custar entre R$ 8 milhões e R$ 10 milhões. Com 27 hectares de área, incluirá os refúgios de Vida Silvestre (Revis) municipal e federal — este criado em 2025 — e uma Área de Proteção Ambiental (APP), além de fazer divisa com a Floresta Nacional do Araripe (Flona).

O secretário municipal de Meio Ambiente e Mudança do Clima do Crato, George Borges, explica que a localização privilegiada do futuro parque, próximo à Trilha do Belmonte, acabou inspirando o plano de instalação de um possível teleférico, projeto antigo do Município e que, originalmente, seria em outro local.

"A localização de onde vai ser o Jardim Botânico é muito legal. Você se sente mesmo na natureza. E quando chegou a equipe e viu a aproximação com a Chapada [do Araripe], aquele paredão, foi levantada essa possibilidade", detalha. 

Segundo George Borges, diferente do Jardim Botânico, que deve ter as obras iniciadas neste ano, o teleférico ainda está em fase inicial de estudos e depende da avaliação de órgãos ambientais municipal, estadual e federal. 

Potencial turístico e os desafios ambientais 

Ao Diário do Nordeste, o biólogo Weber Silva, que atua na Associação de Pesquisa e Preservação de Ecossistemas Aquáticos (Aquasis), explica que a região reúne um delicado ecossistema e é lar de diversos animais ameaçados.

"A área em questão apresenta incêndios recorrentes e uma fonte d'água integrada à rede de abastecimento da cidade, além de espécies ameaçadas de extinção, fazendo com que qualquer julgamento seja precipitado sem antecedência de um exame minucioso", detalha.

Projeto impactaria quatro espécies ameaçadas

De acordo com o biólogo Leo Azevedo, o soldadinho-do-araripe — ave exclusiva do Estado — é uma das espécies que poderá ter o habitat impactado pela iniciativa. Ao todo, o projeto ameaçaria quatro animais listados no Livro Vermelho dos Animais Ameaçados de Extinção do Ceará. São eles:

  • Soldadinho-do-araripe (Antilophia bokermanni): única ave endêmica do Ceará, é uma espécie criticamente em perigo, ameaçada pela redução da vazão hídrica de aquíferos na encosta do Araripe.
  • Sapo-do-araripe (Proceratophrys ararype): da Chapada do Araripe, é considerado um animal criticamente em perigo, ameaçado pelo desvio de córregos e agricultura.
  • Cobra-da-terra (Atractus ronnie): espécie em perigo que vive sob a serrapilheira de florestas úmidas, documentada apenas no Maciço de Baturité, Chapada do Araripe e Planalto da Ibiapaba; ameaçada pelo desmatamento.
  • Rato-do-cariri (Rhipidomys cariri): com distribuição restrita à Chapada do Araripe, é uma espécie vulnerável.

O ambientalista explica ainda que a região é formada por mata ciliar — vegetação que cresce às margens de rios e de córregos —, que poderia ser retirada para a instalação de torres do teleférico. Essa supressão, segundo ele, poderia reduzir a proteção de fontes de água naturais e, consequentemente, reduzir os recursos hídricos da região, impactando o habitat dessas espécies

Seria uma interferência direta no ciclo de vida desses animais.” 


Impactos da construção ao funcionamento

Além de ameaçar a fauna, Leo aponta que o equipamento turístico poderia causar ainda outros possíveis impactos ambientais, como:

  • Supressão vegetal: necessária tanto para a instalação das diversas torres do teleférico quanto para a abertura de caminhos de acesso a essas estruturas.
  • Fragmentação de habitat: a instalação da infraestrutura dividiria o ambiente natural, dificultando a sobrevivência e o deslocamento das espécies.
  • Perturbação sonora: o ruído possivelmente gerado pelo empreendimento poderia incomodar a fauna local.
  • Aumento do fluxo humano: a presença constante de pessoas em uma área sensível poderia gerar risco adicional para os animais ameaçados.
  • Danos ao solo e drenagem: a obra poderia causar impactos na estrutura do solo e nos sistemas naturais de drenagem da água.

Já Weber cita como exemplo a análise realizada para a instalação do teleférico de Barbalha, município vizinho. Inaugurado em 2021, o equipamento está localizado na mesma posição de encosta que o do Crato. 

O relatório de Barbalha, emitido pela Superintendência Estadual do Meio Ambiente (Semace), em 2016, aponta que tanto a construção quanto a operação do sistema de transporte aéreo poderiam gerar ruídos e acúmulo de resíduos sólidos, especialmente nas margens e na faixa de domínio do sistema, aumentando, por exemplo, o risco de acidentes entre a fauna silvestre e resíduos. 

"O projeto de instalação de um teleférico pode causar impactos negativos sobre o meio ambiente devido ao seu potencial de modificar o comportamento e o modo de vida da população local, sobretudo pelas intervenções nos 'usus' e costumes da população local. Em contrapartida, este tipo de projeto também pode gerar outros impactos positivos nas esferas econômica, ambiental e social", frisou o documento na época.

Teleférico de Barbalha.
Legenda: Ambientalistas afirmam que o processo para análise de teleférico cratense seria mais rigoso que o de Barbalha.  / Foto: Hélio Filho/Divulgação.


Weber destaca ser possível reduzir os impactos, principalmente por ações de atenuação. "Todo projeto gera algum impacto, então, o desafio será fazer com que tais impactos sejam monitorados e mitigados na construção e implementação da obra. Sem monitoramento, não há ciência e, por conseguinte, faltaria política pública séria."

O próprio relatório do teleférico de Barbalha recomenda políticas de mitigação para impactos negativos apontados. Por exemplo, para reduzir as chances de acidentes entre animais silvestres e lixo que poderia acumular no trecho, o relatório sugere o desenvolvimento e a manutenção de planos constantes de coleta permanente de resíduos sólidos e líquidos. 

"A melhor resposta para prever [impactos ambientais] é verificar se houve cumprimento de tais requisitos nos empreendimentos similares. Em suma, para ser 'sustentável', a vazão das águas deve ser mantida e as extinções devem cessar, tudo isso com base em medições", destaca o profissional ligado à Aquasis. 

Porém, para Leo, não é possível construir um teleférico de forma sustentável no Crato. O biólogo aponta uma possível contradição conceitual na associação do equipamento a um parque voltado à preservação.

O Jardim Botânico não pode ser pretexto para flexibilização ambiental para ter um teleférico. O jardim botânico tem que ter seu ponto central, que é ajudar na conservação dessas espécies ameaçadas.”

Teleférico ainda está em fase de estudos

O secretário municipal de Meio Ambiente frisa que a concretização do projeto da instalação do sistema de transporte aéreo em Crato depende da aprovação de órgãos ambientais, como o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) — responsável pela preservação da Flona — e o Conselho Municipal de Meio Ambiente.

É uma área que tem uma riqueza ambiental muito grande e a gente não pode chegar e fazer qualquer intervenção que venha causar algum dano ao meio ambiente."

Weber explica que o possível teleférico cratense deverá ser submetido a um processo semelhante ao ocorrido em Barbalha, porém mais rígido.

"Antes que uma obra equivalente venha a ser feita em Crato, todo esse rito [produção de um Relatório de Impacto Ambiental atrelado a um Estudo de Impacto Ambiental] deverá ser cumprido, incluindo mais duas Unidades de Conservação de Proteção Integral (mais restritivas): os Refúgios de Vida Silvestre soldadinho-do-araripe (municipal) e 'do' soldadinho-do-araripe (federal)", detalha o biólogo ligado à Aquasis.

Caso o projeto seja aprovado pelas autoridades ambientais, a intenção é que o novo teleférico comece a ser construído em 2027, podendo passar a funcionar no mesmo ano ou no seguinte, segundo George. 


(Diário do Nordeste)

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