Guerra entre facções e feminicídios: Ceará lidera assassinatos


 


No Ceará, a média é de 32,6 mortes violentas para 100 mil habitantes - mais que o dobro da taxa do Brasil, que é de 15,97%. O indicador é considerado preocupante por especialistas e vai na contramão da redução nacional, de 11% no comparativo com 2024. (veja no infográfico abaixo) 

☠️Ao todo, foram registrados 3.022 assassinatos no Ceará em 2025, dos quais 96,9% correspondem a homicídios dolosos — quando há intenção de matar. Em todo o país foram 34.086 mortes violentas e a taxa nacional por 100 mil habitantes é de 15,97.

♀️Outro dado que chama atenção é o crescimento dos feminicídios. O estado registrou um aumento de 14,63%, com um total de 47 mulheres mortas no ano passado.

De acordo com pesquisadores ouvidos pelo g1, a alta taxa de mortes violentas no Ceará é resultado da sobreposição de diferentes dinâmicas de violência, com destaque para os feminicídios e os assassinatos associados à guerra entre facções criminosas. (entenda os motivos abaixo)

O Governo do Estado não divulga a estatística detalhada com as mortes ligadas à disputas entre criminosos, mas em entrevista ao g1, o coordenador da Coordenadoria Integrada e Planejamento Operacional (Copol) da Secretaria da Segurança Pública do Ceará, Harley Filho, afirma que "a ampla maioria dos homicídios no estado do Ceará estão vinculados ao conflito entre grupos criminosos rivais". 

A fala de Harley vai ao encontro com o que o governador Elmano de Freitas (PT) declarou em entrevista à TV Verdes Mares, afiliada da Globo no Ceará, em julho de 2025. Segundo ele, 90% das mortes violentas no Estado eram resultado de conflitos entre grupos criminosos que disputam território. 

Violência contra as mulheres

O número de feminicídios registrado no Ceará em 2025 foi o maior desde 2018, ano em que este tipo de crime passou a ser contabilizado nas estatísticas da Secretaria da Segurança Pública do Ceará. 

Segundo Artur Pires, professor da Universidade Estadual do Ceará (Uece) e pesquisador do Laboratório de Estudos da Violência da Universidade Federal do Ceará (UFC), o alto número de feminicídios no estado está diretamente relacionado ao machismo. 

"Os feminicídios têm relação com a nossa histórica estrutura machista no Brasil e no Ceará. Uma estrutura na qual, sobretudo, os homicídios ocorrem nos lares, nas famílias. São eventos nos quais os companheiros têm uma ideia de posse sobre aquele corpo. Isso aqui no Ceará é muito forte ainda, sobretudo pelo histórico nosso de patriarcalismo", diz o pesquisador.

🔎 A tipificação de feminicídio foi criada em 2015. O crime ocorre quando uma mulher é assassinada pelo fato de ser mulher.

Em janeiro de 2025 três mulheres foram assassinadas vítimas de feminicídio no Ceará. Em junho do mesmo ano foram 11, o maior número do ano para um único mês. Um destes crimes vitimou uma jovem de 18 anos de Trairi, que teve a cabeça decapitada por um homem que a importunava. 

A pesquisadora Fernanda Naiara, também do Laboratório de Estudos da Violência (LEV/UFC), destaca que os dados sobre feminicídio indicam que, na maioria dos casos, os crimes são cometidos por homens que mantinham ou mantêm vínculos afetivos com as vítimas, como namorados, ex-namorados, maridos ou ex-maridos. 

Segundo ela, trata-se de um crime marcado pela proximidade e por relações de poder, além de apresentar, em muitos casos, elementos de crueldade que atingem de forma específica os corpos das mulheres. (leia mais abaixo)

Conforme Artur Pires, o elevado número de assassinatos está diretamente relacionado aos conflitos entre facções criminosas, como Guardiões do Estado (GDE), Comando Vermelho (CV), Terceiro Comando Puro (TCP) e Massa ou Tudo Neutro (TDN), que disputam o controle de bairros, comunidades e rotas do tráfico. 

Artur explica que alguns fatores aumentaram a disputa entre as facções, como: 

  • O fim da Guardiões do Estado (GDE) no 2° semestre do ano. A facção de origem cearense foi praticamente dissolvida e perdeu lugar para outro grupo, o Terceiro Comando Puro (TCP);
  • O TCP é uma facção de origem carioca. A chegada do bando no CE mexeu com o controle do Comando Vermelho (CV) em algumas áreas, e os dois passaram a duelar;
  • Apesar disso, o CV conseguiu fechar 2025 com certa "hegemonia" na Região Metropolitana e hoje encontra pouca resistência de grupos rivais;
  • Um desses grupos rivais é a Massa ou Tudo Neutro (TDN), que ainda tem uma 'ilha' de resistência na Região Metropolitana de Fortaleza.

Um dos locais marcados por briga de facção em 2025 foi o bairro Vicente Pinzón. — Foto: Reprodução 

Ainda segundo Artur, a violência no Estado aumenta à medida que os grupos criminosos buscam diversificar sua atuação. Antes concentrados no tráfico de drogas, agora as facções estão expandindo para outras áreas consideradas 'lucrativas', como extorsão de comerciantes e monopólio de serviços básicos, como água, gás de cozinha e internet. 

Famílias do distrito de Uiraponga, na cidade de Morada Nova, a 167 quilômetros de Fortaleza, foram expulsas por criminosos em meio a guerra de facções. — Foto: Meu País Uiraponga/ Reprodução 

Também em 2025, o Ceará registrou a expulsão de centenas de famílias de suas próprias casas por causa da 'guerra' entre criminosos. Dois casos se destacaram: 

  • Uma vila de casas na cidade de Pacatuba, Região Metropolitana de Fortaleza, que tornou-se um “território fantasma” após cerca de 30 famílias serem expulsas da área por facções criminosas;
  • E o distrito de Uiraponga, na cidade de Morada Nova, que ficou completamente vazio após a violenta disputa entre membros de facções na região.

Grande Fortaleza concentra mais da metade das mortes

Cidades com mais mortes violentas no Ceará em 2025

Municípionº de vítimas
Fortaleza742
Caucaia246
Maracanaú200
Sobral112
Maranguape106

Os dados mostram que a Grande Fortaleza concentrou 1.645 homicídios em 2025, o que representa aproximadamente 54% de todas as mortes violentas registradas no Ceará. A capital lidera o ranking estadual, com 742 homicídios, seguida por Caucaia e Maracanaú. (veja ranking acima)

Outros municípios da Região Metropolitana também aparecem com números expressivos, como Maranguape e Pacatuba (63), além de Trairi (35), Cascavel (34), Horizonte (33) e Pacajus (31). A expansão dos grupos criminosos para outras cidades não é à toa. Nos novos locais, eles tentam estabelecer poder e domínio sobre as comunidades, além de ter acesso a melhores armas e drogas. 

Harley Filho admite que as facções "brigam por território" no Ceará, mas o integrante do governo do Estado é categórico ao dizer que "nenhum grupo criminoso domina territórios no Ceará". 



(G1)


Postagens mais visitadas do mês