Uece coordena pesquisa com cannabis medicinal em crianças com autismo

 

Crédito: Samuel Setubal



A Universidade Estadual do Ceará (Uece) vai coordenar uma pesquisa clínica que pretende avaliar uma formulação à base de cannabis medicinal em crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA). O estudo está em fase de organização e conta com a parceria da empresa farmacêutica GreenCare Pharma e de instituições de ensino de São Paulo.

No Ceará, a pesquisa será conduzida pelo Laboratório de Neurociência e Inovação Translacional (Lanit) e pelo Grupo de Pesquisa e Estudo em Neuroinflamação e Neurotoxicologia (Genit), sob coordenação do professor Gislei Aragão, vinculado ao Instituto Superior de Ciências Biomédicas (ISCB) da Uece.

Ao todo, 120 crianças com TEA poderão participar do estudo, divididas igualmente entre Ceará e São Paulo. Os participantes serão acompanhados por uma equipe multidisciplinar, formada por neuropediatras e psiquiatras infantis, com avaliações clínicas semanais ao longo de três meses.

Início previsto para o segundo semestre de 2026

A etapa de organização já foi iniciada e antecede a fase de seleção dos participantes e a aplicação clínica do produto rico em canabidiol. De acordo com a Uece, a previsão é que o estudo seja realizado entre o segundo semestre de 2026 e o primeiro semestre de 2027.

O Instituto da Primeira Infância (Iprede) será parceiro na seleção das crianças com TEA que poderão integrar a pesquisa.

Segundo o professor Gislei Aragão, a metodologia foi cuidadosamente planejada para garantir a confiabilidade dos resultados. O estudo adota o desenho considerado “padrão-ouro” da pesquisa clínica: duplo-cego, randomizado e controlado por placebo.

“O ensaio clínico está no topo da pirâmide das evidências científicas. Quando randomizamos as crianças, ou seja, as colocamos de forma aleatória em diferentes grupos — de tratamento e de placebo — isso proporciona ainda mais confiabilidade ao estudo. Além disso, o desenho foi pensado para minimizar ao máximo os vieses, garantindo maior robustez e validade aos resultados”, afirma.

Foco em comportamentos disruptivos

O principal foco da avaliação será o impacto da formulação em comportamentos disruptivos, como agitação, agressividade e inquietação — sintomas que podem estar presentes em crianças com TEA e que, em alguns casos, exigem tratamento farmacológico.

“Hoje, as opções medicamentosas são limitadas e, em geral, envolvem o uso de antipsicóticos, que podem causar muitos efeitos colaterais. A ideia é oferecer um produto farmacológico com maior segurança e menos efeitos adversos para determinados casos do TEA”, destaca o pesquisador.

Outro ponto da pesquisa será a avaliação de diferentes doses da formulação, com o objetivo de identificar parâmetros mais adequados para a maioria dos pacientes.

“A resposta à cannabis pode variar muito entre os indivíduos, por isso é fundamental estudar diferentes dosagens para estabelecer referências mais seguras e eficazes”, explica Aragão.

Desenvolvimento de produto

Para o pesquisador, o projeto representa um avanço para a universidade e para a ciência brasileira, não apenas pela realização do ensaio clínico, mas também pela possibilidade de desenvolvimento de um produto acessível à população, caso os resultados confirmem eficácia e segurança.

“Esse não é apenas um ensaio clínico. Trata-se de um projeto completo de desenvolvimento de um produto à base de cannabis medicinal, que já passou pela etapa pré-clínica e agora avança para estudos em humanos”, afirma.

Caso os resultados sejam positivos, os impactos poderão alcançar famílias, profissionais de saúde e até o Sistema Único de Saúde (SUS).

“Isso traz mais segurança para o médico prescrever, para a família utilizar e para a sociedade ter acesso a um produto testado e validado cientificamente, diferente de muitos que hoje circulam sem controle ou padronização”, completa.

O professor reforça que o estudo será conduzido com rigor ético e independência científica. “Os resultados serão publicados, independentemente de serem positivos ou não. Não estamos aqui para prometer cura, mas para produzir conhecimento confiável que ajude famílias e profissionais a tomarem decisões”, afirma.

Para a Uece, o projeto consolida a instituição como referência nacional e internacional em pesquisa translacional. “Um estudo dessa magnitude coloca a universidade em evidência no cenário científico global e fortalece o papel da pesquisa desenvolvida no Nordeste”, conclui Gislei Aragão.



(O Povo)

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