Entenda o que falta para confirmar se líquido achado no CE é petróleo

IFCE mediou contato com a ANP. — Foto: Gabriela Feitosa/g1
IFCE mediou contato com a ANP. — Foto: Gabriela Feitosa/g1
 



O caso de um agricultor do interior do Ceará que encontrou um líquido semelhante a petróleo em seu quintal, em 2024, ainda não há previsão de ter resposta definitiva. Sidrônio Moreira, de 63 anos, possui um sítio na cidade de Tabuleiro do Norte, e descobriu o material ao perfurar o solo do terreno onde vive em busca de água. 

A família enfrenta um problema antigo: falta de água encanada em casa. Na esperança de conseguir uma fonte própria através de um poço artesiano, eles decidiram perfurar o solo duas vezes. No lugar da água, Sidrônio viu jorrar um líquido preto, denso, viscoso e com cheiro de combustível.

Após o primeiro contato, um dos filhos do agricultor decidiu levar o caso para o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE), que tem um campus em Tabuleiro do Norte.

Em 2025, testes laboratoriais feitos pelo instituto apontaram que o líquido encontrado pelo agricultor tem as mesmas características físico-químicas do petróleo de jazidas da região vizinha da Bacia Potiguar, no Rio Grande do Norte.

O g1 lista abaixo algumas das principais dúvidas. Acompanhe:

Caso seja confirmado, o agricultor poderá 'lucrar'?

Se o líquido for mesmo petróleo, Sidrônio não será dono do material, pois a Constituição Federal determina que o subsolo e suas riquezas, incluindo o petróleo e o gás, são de propriedade e monopólio da União.

No entanto, Sidrônio poderá ter um retorno financeiro caso a área passe por um processo de exploração e produção comercial no futuro. Dessa maneira, o proprietário da terra tem direito a receber um percentual.

➡️Mas, atenção: primeiro a agência precisa analisar se vale a pena explorar a bacia. Outros achados parecidos foram descartados por serem acúmulos pequenos.

Esse repasse financeiro, garantido por lei, pode chegar a até 1%, dependendo de vários fatores que precisarão ser avaliados.

O que se sabe até agora?

A ANP visitou pela 1° vez o sítio de Sidrônio em 12 de março deste ano. Ao g1, eles disseram que o achado causou espanto na equipe, pois é incomum que líquido semelhante a petróleo jorre de uma profundidade considerada rasa (40 metros).

"Existe o processo de exsudação, que é quando o petróleo ou hidrocarboneto como um todo vai à superfície de maneira natural. Mas não é o caso, claramente, aqui. Houve uma perfuração, uma perfuração rasa, uma profundidade muito abaixo do que é naturalmente realizado na exploração e produção de petróleo e gás", explicou Ildeson Prates Bastos, superintendente da ANP.

Nesta primeira visita, no entanto, os agentes apenas verificaram o poço de onde a substância emergiu e conversaram com a família do agricultor.

"Isso nos causou um pouco de espanto, mas considerando a área e a geologia da região, sendo uma borda de bacia, a gente pretende dar continuidade aos estudos para entender melhor o que pode ter acontecido. E, a partir de um relatório, a gente conseguir se manifestar mais assertivamente", pontuou o especialista.

Achado de possível petróleo em poço raso no Ceará 'causa espanto' em técnicos da ANP

Os técnicos da ANP não colheram uma amostra no local, mas levaram uma amostra feita pelo Instituto Federal do Ceará (IFCE), que acompanha o caso desde o início.

De acordo com Adriano Lima, engenheiro químico do Instituto Federal do Ceará (IFCE), outras análises mais específicas devem ser feitas pela ANP para confirmar (ou não) a descoberta:

➡️ Análises preliminares já realizadas:

  • Viscosidade
  • Densidade
  • A análise por Espectroscopia de Infravermelho com Transformada de Fourier (FTIR)
  • Flashpoint (também chamado de ponto de fulgor)

Resultados: Esses primeiros testes apontaram que o material tem um comportamento extremamente similar aos óleos da região. Ou seja: é semelhante a petróleo. Mas por que isso ainda não pode ser cravado? De acordo com Adriano, somente a ANP pode dar este resultado.

➡️ Para isso, outras análises devem ser feitas, como:

  • Medição do teor de compostos saturados
  • Medição do teor de compostos aromáticos
  • Medição do teor de resina
  • Medição do teor de asfaltenos
  • Verificação da origem do material, para confirmar se tem de fato uma origem geológica.

Uma outra amostra também foi enviada para a Universidade Federal do Ceará (UFC), que conta com um laboratório especializado nesses casos. Ao g1, um dos professores que conduz o processo disse que as análises demoram um pouco, mas ele acredita ter algo concreto até esta sexta-feira (27).

"Algumas análises são mais específicas, são mais elaboradas, exigem uma norma muito mais apurada, até com equipamentos, com tudo que precisa ter. Naturalmente, a gente teve que buscar ajuda a uma ou outra instituição, que no caso foi a Universidade Federal do Ceará (UFC), e o material está lá, passando por análises", pontuou Adriano.

Quais são os próximos passos?

Essa precaução é fundamental para garantir a segurança das pessoas e proteger o meio ambiente contra possíveis riscos não dimensionados

Agora, os técnicos da ANP devem encaminhar uma amostra ao laboratório da agência para que faça as devidas análises. "A análise aí é uma questão técnica, tem que ver os parâmetros que vão ser analisados, mas essa análise vai buscar trazer algumas informações, características químicas desse material, para que se entenda do que se trata", explicou Moisés Vieira.

Um processo foi aberto pela ANP para apurar oficialmente a notificação. Ainda não há um prazo estimado para a conclusão e divulgação dos resultados. O tempo necessário dependerá da logística de transporte da amostra e da complexidade dos testes laboratoriais exigidos.

"Ele só pode ser explorado e produzido mediante um contrato assinado entre a União, com a ANP envolvida e empresas especializadas no setor. O proprietário da terra não tem direito ao material, é propriedade da União. Eu não posso estimar prazo [para a divulgação oficial do resultado], o que a gente pode dizer é que toda e qualquer informação produzida vai constar no processo administrativo", concluiu o técnico.

Problema da água continua

A renda da família vem das aposentadorias de Sidrônio e sua esposa, Maria Luciene, e do trabalho realizado no campo, com a venda de animais, feijão e milho. Na casa, moram o casal e dois filhos. O agricultor, de 63 anos, é enfático ao dizer que lhe interessa apenas resolver o problema da água, e não tinha intenção de encontrar o possível petróleo.

"Eu não quero riqueza, quero dinheiro para sobreviver, você acredita? O que vale é a saúde da pessoa. É tanta conversa por aqui, já inventaram tanta coisa. Já me disseram para trancar o portão do sítio para ninguém entrar, para não contar ninguém [da descoberta], mas eu disse: 'Quando o 'cabra' vai no médico ele precisa conversar para saber o que está sentindo e o médico passar remédio'. Como eu vou ficar calado? Como nunca vou tirar a dúvida do que é isso?", diz o cearense.



(g1)

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