Assistir "O Agente Secreto" deixar a 98ª cerimônia do Oscar sem nenhuma estatueta neste domingo (15) deixa uma sensação estranha. Não que o cenário já não estivesse previsto, mas a expectativa e a torcida, forte como sempre, nos alimentava a possibilidade de uma saída "mais positiva".
Mas, afinal de contas, por qual motivo essa sensação incomoda ao ponto de causar tristeza? Chuto com uma certa clareza que talvez seja inevitável não entrar na onda positiva do reconhecimento do trabalho brasileiro que, claro, muitos sabem da qualidade.
Assim como em 2025, quando "Ainda Estou Aqui" saiu do 97º Oscar com o prêmio de "Melhor Filme Internacional", a história de "O Agente Secreto" mergulhou também em fatos pesados que fazem parte da história do Brasil. Isso gera reconhecimento.
Passou a ser mais uma história que nos relembra das dores de um povo, da importância de falarmos para não esquecermos. Tudo com o olhar peculiar de Kleber Mendonça Filho, sob uma ótica pernambucana, cheia de referências próprias e profundidades únicas.
"O Agente Secreto" conseguiu o mesmo feito do longa de Walter Salles: o de levar brasileiros às salas de cinema, fazendo-os discutir, fosse pelo significado da obra, fosse pela importância que ela poderia carregar. Já é um feito dos grandes.
Outro enorme é colocar a arte brasileira em uma esfera internacional, uma prateleira diferenciada. Dois anos consecutivos de torcida em noite de Oscar não é feito pequeno. Aglomeração em bares, festa em casa. Dois anos para vermos o Brasil ao lado de produções de diversas partes do mundo.
Cearenses como Geane Albuquerque e Robério Diógenes, por exemplo, estão inclusos neste feito. Tânia Maria também. Temos o reconhecimento da arte em si, mas também de quem a compõe, algo especial para quem luta por espaço artístico.
E é nessa alegria, nesse clima de reunião, por vezes carnavalesco, que brilhamos. Um, brilho que vai além de uma bela estatueta dourada, diga-se de passagem.
Maior vitória vai além de estatueta
Antes mesmo de ser indicado ao Oscar, "O Agente Secreto" já havia faturado diversos prêmios, mais de 60, se contabilizarmos. Mas talvez o maior deles seja mesmo essa capacidade de enxergar na arte o poder de nos colocar para refletir, torcer, mobilizar.
Bem, seria mesmo um grande feito, uma felicidade tremenda, sair da cerimônia com uma estatueta para o filme ou para Wagner Moura. Mas saibamos, mesmo com essa tristeza incômoda, reconhecer a importância do feito deste filme para além dessa premiação, que é mesmo considerada a maior do mundo.
Que "O Agente Secreto" seja sempre lembrado por isso. Pela perna cabeluda. Por Dona Sebastiana. Por Recife. Por Armando/Marcelo. Por Wagner Moura ou por Kleber Mendonça Filho. Acima de tudo, por ser mais um fruto brasileiro, vindo do talento de tantos de nós.
(Diário do Nordeste)



