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| Vídeo mostra momento em que agricultor encontra possível poço de petróleo por acidente ao perfurar solo em Tabuleiro do Norte (CE) — Foto: Reprodução |
A residência onde a família vive, na localidade de Sítio Santo Estevão, a cerca de 35 quilômetros da sede do município, não possui água encanada. De acordo com o gerente de vendas Saullo Moreira, filho de Sidrônio, a propriedade até recebe água de uma adutora do município, mas o abastecimento é intermitente e, muitas vezes, não é suficiente para um mês inteiro.
Para abastecer a propriedade, em boa parte do ano, a família paga por carregamentos de água de carro-pipa. "A adutora, às vezes, demora muito a chegar água e acaba que não dá para passar o mês. Quando não dá para passar o mês, tem que 'comprar' carro-pipa tanto para dar água de beber para os bichos quanto pra abastecer o tanque, que vai água pra casa", contou Saullo.
📍Localizado a cerca de 210 quilômetros de Fortaleza, Tabuleiro do Norte fica na divisa com o Rio Grande do Norte e faz parte da região do Vale do Jaguaribe. A região fica próxima à Bacia Potiguar, uma área de exploração de petróleo localizada entre o Ceará e o Rio Grande do Norte. Tabuleiro do Norte não está inserido em nenhum bloco de exploração de petróleo, mas a localidade onde a substância foi descoberta está a apenas 11 quilômetros do bloco de exploração mais próximo.
"Quando eles estavam perfurando, já estavam quase a 40 metros, saiu um líquido. No vídeo, meu pai até comemora porque ele pensava que era água. E acabou que, depois que o perfurador parou, não saiu nada [de água]", relatou Saullo.
Semanas após perfurar o poço, a família voltou a mexer no local, ainda na esperança de encontrar água. Em vez disso, eles encontraram um líquido viscoso, escuro, de odor característico semelhante ao de óleo automotivo.
Além do empréstimo, Sidrônio usou parte das suas economias para pagar a perfuração do poço. Após a frustração inicial com o primeiro poço, que não deu água, a família chegou a furar um segundo poço, mais raso. Porém, também não encontrou água.
"Tem poços na região que são de 30 metros, já dá água, e a água que a gente fala nem é água de consumo mesmo, é água para os próprios animais. A gente cavou outro poço, só que o outro poço é bem mais raso, é 20 metros no máximo, e aí não deu também. A gente acabou que isolando [o poço], porque, como não tava dando, a gente tava acabando o nosso recurso", relatou Saullo.
O agricultor Sidrônio Moreira, por sua vez, aguarda a resposta da análise da ANP sobre o petróleo, mas sua mente está em outro líquido: a água. “Eu tinha vontade que eles viessem aqui ver isso aí e continuassem, para ver se dava alguma coisa. Qualquer coisa que desse aí servia para a gente, porque é uma calamidade muito grande de água aqui”, concluiu.
Busca por respostas
Em junho de 2025, o filho de Sidrônio, Saullo Moreira, procurou a equipe do Instituto Federal do Ceará (IFCE) de Tabuleiro do Norte em busca de orientação e conversou com o engenheiro químico Adriano Lima - agente de inovação do campus para o Vale do Jaguaribe.
Após receber uma amostra do material, Adriano levou o líquido para análise no Núcleo de Pesquisa em Baixo Carbono da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa), em Mossoró (RN), onde realizou análises físico-químicas do líquido.
A família e o IFCE procuraram a ANP ainda em julho de 2025 informando da descoberta, mas a Agência demorou meses para dar uma resposta.
Em fevereiro deste ano, o órgão confirmou ao g1 que recebeu o aviso e que vai investigar o caso. A ANP também disse que vai contatar "o órgão de meio ambiente competente para as providências cabíveis".
Necessidade de água continua
Enquanto aguarda resposta da ANP, a família de Sidrônio vive na incerteza. Há necessidade de água continua, mas, para além dos custos para pagar novas perfurações em outros pontos da propriedade, a própria descoberta do óleo tornou a busca por um poço artesiano mais complexa.
A família foi alertada, por exemplo, que se um poço fosse perfurado incorretamente, o óleo poderia vazar para o lençol freático e contaminar a água da região, gerando uma série de problemas ambientais.
Ao g1, o filho de Sidrônio, Saullo Moreira, destacou que a família preferia ter encontrado água, mas, diante da possibilidade de encontrar petróleo, espera que o processo seja resolvido quanto antes para saber o que será feito com a propriedade.
"O que a gente queria era água, né? O que a gente queria era solucionar o problema da água lá, até porque meu pai já é idoso, gosta de criar esses animais. Hoje, eu queria que, se fosse petróleo, a gente resolvesse o mais rápido possível pra ele ter essa forma de renda extra e, aí sim, se tiver uma forma de renda extra, ele conseguir, de alguma forma, levar a água, nem que seja mais próximo. Hoje eles compram carro-pipa quando falta [água] por muito tempo. Se tiver algum recurso, eles podem comprar com mais frequência", disse Saullo.
O que acontece agora?
As análises feitas pelo IFCE e Ufersa confirmaram que o líquido encontrado em Tabuleiro do Norte é um tipo de hidrocarboneto que, em termos de densidade, viscosidade, cor e cheiro, se assemelha ao petróleo encontrado nas redondezas.
Apesar disso, somente após análise de um laboratório credenciado pela ANP será possível afirmar se a substância realmente é petróleo. A confirmação de que a substância é um hidrocarboneto não configura confirmação oficial de que há uma jazida de petróleo na propriedade nem que a exploração econômica é viável. Ou seja, não se sabe qual a quantidade, a qualidade e a viabilidade.
Após a descoberta de uma possível jazida de petróleo e a notificação da ANP, o órgão deve iniciar uma série de procedimentos para averiguar as condições da área, como o subsolo, o tamanho do poço e a composição química do líquido.
A descoberta de petróleo não significa necessariamente que a exploração da área seja possível ou financeiramente vantajosa. Após a confirmação e delimitação das jazidas, a ANP divide a região em blocos de exploração, que serão leiloados para empresas realizarem a exploração de petróleo.
Muitas vezes, uma área já mapeada e liberada para exploração pela ANP não atrai interesse de investidores devido ao tamanho da jazida, à dificuldade de extração, ao custo da instalação da operação ou mesmo à baixa qualidade do petróleo, o que exigiria mais gastos no processo de refino.
(g1)
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