Idosa cearense de 90 anos passou a vida escrevendo cartas para conectar pessoas e até formar casais

 




A gente não compra cartões só por achá-los bonitos. Talvez eles expressem em palavras coisas que não conseguimos. A gente não pede para alguém escrever algo em nosso nome por qualquer motivo. Precisa ser intenção especial, e é importante que a pessoa assim o seja também. Dona Luzanir Cardoso sempre representou esse papel para amigos e familiares: dedicou a vida a preencher cartas com sentimentos capazes até de formar casais.

Moradora do bairro Jardim das Oliveiras, em Fortaleza, a idosa de 90 anos é um museu lúcido e vivo. A caligrafia caprichada e o apreço pela Língua Portuguesa cedo a fizeram ser eleita pelos pares como aquela capaz de traduzir emoções, amolecer almas. Foi assim, recorda, que ajudou a secretária de um antigo emprego a conhecer o amor da vida.

“Ela não tinha coragem de, ela mesma, escrever cartas para um rapaz que morava no Rio de Janeiro. Então eu escrevi. Acaba que, depois disso, ela saiu do Ceará, encontrou o rapaz, mas adoeceu, teve câncer, e esse homem foi extremamente bom, ficou ao lado sempre. Levava-a no braço para colocar na cama, na cadeira… Isso ficou na minha mente, o fato de esse relacionamento ter dado certo”, conta, voz firme ao telefone.

A senhora também preencheu o papel com casos de amizade. Não era rara a comunicação carinhosa dela com primas habitantes do Crato, município de origem; nem com parentes de Natal (RN). Em tudo havia um afago, uma beleza, um aconchego que perdura até hoje. Embora com caligrafia diferente e movimentos mais lentos, dona Luzanir escreve todos dias

Os pequenos bilhetes dão conta de registrar comentários acerca do tempo, de reportagens dos telejornais, do cotidiano como um todo. Atenta, não deixa passar nada. Realmente gosta de criar memória a partir do verbo. “Não tenho cartas guardadas porque eu escrevia uma carta para uma pessoa, a pedido dela, e essa carta ganhava o mundo”, diz.

Naquelas que escrevia para mim mesma, gostava de falar das cidades onde morei. Meu pai foi funcionário público, e estávamos sempre nos mudando. Foi uma época boa. No fim de semana, ele trazia coisas pra gente, e a gente fazia aquela festa. Éramos muitíssimo pobres. O Crato não era grande como é hoje. Até de cavalo meu pai chegava”. 

Essa é outra faceta preciosa dos escritos de dona Luzanir – nascida Benedita Cardoso do Nascimento: além de narrar o íntimo, crava no papel detalhes coletivos, de ambientes, lugares. Num livro no qual consta uma crônica dela, é possível ler: “Dentre árvores e roseiras, emergindo da soleira de sua casa, uma bela senhora vem ao nosso encontro. Flor vermelha nos cabelos, ela nos acolhe com largo sorriso e caloroso abraço”.

A senhora em questão é Nice Firmeza, uma das maiores artistas visuais do Ceará. O sítio descrito, por sua vez, é o Minimuseu Firmeza, localizado no Mondubim e ainda atuante na paisagem cultural da cidade. Muitos outros personagens e localidades ganharam a pena de dona Luzanir, mas, com o tempo, mediante descarte dela própria por achar que alguns não faziam mais sentido manter guardados, entraram num limbo. 

Na imagem, uma mulher idosa de cabelos brancos, sentada em uma cadeira de rodas, segura e lê atentamente uma folha de papel pautado com escrita manuscrita. Ela veste uma blusa verde com estampa de folhagens brancas. A cena acontece em uma sala iluminada; ao fundo, vê-se uma parede de tom pêssego e parte de uma cadeira de madeira. A mulher está de perfil parcial, concentrada na leitura do documento que segura com as duas mãos sobre uma mesa com toalha florida.
Foto: Fabiane de Paula.


Nada que diminua a relevância dessa documentação tão forte quanto delicada. “Eu realmente gostava de escrever. Achava minha letra bonita, e as pessoas também – traziam cartões para eu escrever alguma coisa no Natal ou em outra data. Eu era uma espécie de cupido”, ri. Cupido ou Dora, personagem de Fernanda Montenegro em “Central do Brasil” – uma “escrevedora de cartas”, como era chamada. Com dona Luzanir é o mesmo.

Até o grande sonho da mais amorosa das cearenses tem a ver com correspondências: viúva, alimenta esperança de encontrar um namorado que teve aos 24 anos, antes dos cinco filhos, nove netos e uma bisneta. Nuiquer, o nome dele. “Foi um amor por correspondência, mas muito forte. Ele morava em Santos (SP) e veio até Fortaleza para me conhecer, conhecer meus pais. Hoje ainda penso em escrever uma carta para ele”, suspira.

Na imagem, uma mulher idosa de cabelos brancos e blusa verde estampada sorri enquanto olha para algo fora do campo de visão. Ela está sentada à mesa com um livro aberto e papéis à sua frente. No primeiro plano, à direita, há um porta-retrato com uma fotografia antiga em preto e branco de uma mulher jovem. O fundo mostra o interior de uma casa com uma televisão e uma porta de madeira. A iluminação é suave e frontal.
Foto: Fabiane de Paula.


“Ele falava na possibilidade de mandar passagens para eu ir a São Paulo e ficar na casa de parentes dele, enquanto preparava os papéis pra gente casar. Mas acabou esse romance. Nuiquer morava na Rua Aurora, 905, em Santos. Era uma pessoa de posses, então acredito que, se ainda estiver vivo, posso falar com ele”.

A gente não pede para alguém escrever algo em nosso nome por qualquer motivo. Precisa ser intenção especial, e é importante que a pessoa assim o seja também. Dona Luzanir Cardoso, agora você sabe, é desse jeito. Ela pode abrir caminhos. “No fim, faço isso porque amo a vida, mesmo com todas as dificuldades”.

Esta é a história de dona Luzanir, ou Benedita Cardoso do Nascimento, e o amor dela por correspondências. Envie a sua também para diego.barbosa@svm.com.br. Qualquer que seja a história e o amor.




(Diário do Nordeste)

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