Em média cerca de 26 pessoas foram vítimas de crime ou preconceito de raça ou de cor por mês no Ceará entre janeiro e abril deste ano de 2026. De acordo com a Superintendência de Pesquisa e Estratégia de Segurança Pública (Supesp), 103 casos do porte ocorreram no Estado durante o quadrimestre.
Índice considera apenas o monitoramento realizado pela pasta,
que é uma vinculada da Secretaria da Segurança Pública e Defesa
Social (SSPDS), e engloba delitos como injúria racial, racismo e intolerância religiosa, usando como base estatísticas do Sistema de Informações Policiais (SIP/SIP3W).
Conforme balanço, janeiro registrou 24 pessoas que foram alvos de ocorrências do porte, sendo seguido por fevereiro (22), março (32) e abril (25). No geral, das 103 vítimas contabilizadas a maioria 48,25% é do sexo feminino, 40,36% do sexo masculino e em 11,39% dos casos o sexo não foi identificado.
Das 103 ocorrências de crime ou preconceito de raça ou de cor, 46 foram registradas em Fortaleza. A segunda maior parcela das vítimas está centrada no Interior Norte do Estado (23). O Interior Sul concentra 21 dos casos e a Região Metropolitana da Capital (RMF) aparece acumulando 13 dos episódios.
Já quando comparado ao quadrimestre de 2025, contudo, é possivel perceber que houve uma redução do índice. Isso porque, entre janeiro e abril do ano passado, o monitoramento da superintendência contabilizou 126 vítimas do porte, o que mostra queda de 18.25% das ocorrências entre períodos.
No Brasil, crimes de preconceito ou discriminação de raça ou cor são tipificados pela Lei nº 7.716/1989, conhecida como Lei do Racismo, e que determina pena de 2 a 5 anos de prisão, além de multas.
De acordo com Ingrid Lorena, professora do Curso de Serviço Social da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), a norma representa uma conquista histórica sobretudo, para os movimentos negros. Contudo, ela destaca que o racismo não é só um problema jurídico.
"O racismo é uma questão cultural, histórica e estrutural que precisa sim de um conjunto de leis, mas [precisamos] fazer um trabalho que envolva as instituições, o mercado de trabalho, a escola, a mídia [...] Espaços importantes para a gente trabalhar, para inclusive construir formas de enfrentamento ao racismo. Então muitas vezes a punição legal só vai ocorrer depois que a violência já aconteceu", frisa.
Docente, que é umbadista e tem pesquisa em maternidades negras, também destaca que o racismo no Brasil "opera em grande medida de forma estruturada e cotidiana, sobretudo, nas micro agressões que pessoas negras vivenciam", se manifestando nas relações sociais e nas instituições, entre outros.
"Casos de racismo, de preconceito racial, infelizmente acontecem
muito cotidianamente, sobretudo nas instituições. E é interessante
perceber que não são apenas casos ou episódios, situações explícitas de
violência verbal ou física [...] A gente vai ter desde as abordagens
policiais, seletivas, a desconfiança em espaços comerciais [...] A
exclusão de pessoas negras de espaços acadêmicos ou profissionais [...]
comentários sobre o cabelo, a aparência [...] A gente vai ter inclusive a
hipersexualização de mulheres negras. Uma dificuldade muito grande
também de acesso a direitos e oportunidades", pontua.
Intolerância religiosa
Episódios de crime ou preconceito de raça ou de cor também estão no cotidiano de quem pertence a religiões de matriz africana. De acordo com Mãe Tecla do Caboclo Tupinamba, atual presidente da União Espírita de Asserência de Umbanda (UECUM), violências do tipo chegam no dia a dia.
"Sentimos essa intolerância religiosa todos os dias, quando nós vestimos as nossas roupas, quando nós saimos com as nossas roupas, com as nossas guias", relata a gestora da instituição, que foi uma das primeiras criadas no Estado com a ideia de proteger o direito de culto para os umbandistas.
Representante da unidade conta que sua mãe, Susana Sá de Oliveira, passou mais de três decádas a frente da instituição lutando contra a intolerância religiosa. Hoje ela ocupa o cargo que já foi da genitora, levando a frente o legado de luta junto a todos os demais membros da instituição.
(O Povo)



