A vida só é boa pra quem sabe viver”: o lema de seu José Benigno não é à toa. Aos 101 anos, esse cearense natural de Caririaçu – distante 503 quilômetros de Fortaleza – mas residente em Tauá desde a adolescência, não apenas conhece a arte do bem existir como é testemunha viva de alguns dos maiores acontecimentos esportivos mundiais. Ele acompanha a Copa do Mundo de futebol desde a primeira edição do evento, em 1930.
O entusiasmo, a julgar pela alegria na voz sobrecarregada pelo tempo, é o mesmo de quando, aos cinco anos de idade, via os jogadores em campo nos estádios uruguaios, onde ocorreu a estreia do torneio global. Dessa época, lembra de quase nada, confessa. No avançar das edições, porém, as memórias vêm um pouco mais claras, de ter presenciado títulos memoráveis, apogeu e queda de ídolos e até a evolução da própria família, cidade, estado e país.
“Gostei de todos os jogos do Brasil, principalmente de um contra a Suécia. Não lembro bem do dia que aconteceu, mas gostei”, gargalha. O jogador preferido de todas as Copas, por outro lado, é afirmação certeira: Pelé segue no coração como um dos ídolos mais adorados. Apesar da falta que o rei do futebol faz, o centenário continua o mesmo ritual de acompanhamento dos jogos. Registro feito por um dos netos dá conta de ilustrar o modus operandi do torcedor.
Na fotografia, seu José Benigno está sentado em cadeira de balanço com um balde de pipoca na mão e um copo de refrigerante na outra. Quando não está assim, gosta de movimentar turmas. A família, claro, é a principal personagem das reuniões a favor da seleção brasileira. Foi acompanhado de três netos, por exemplo, que o patriarca assistiu a um dos jogos do Brasil num estádio de Brasília, quando a Copa foi realizada no país, em 2014.
Neste ano, a aposta dele é de que a seleção canarinha traz o hexacampeonato para casa. “É pra ganhar”, sentencia, já pronto para mais uma partida nesta quarta-feira (24), contra a Escócia, encerrando a fase de grupos. “Toda a minha família gosta e torce. Nunca fui de jogar futebol, mas de assistir, sim”.
As Copas de antes e de agora
Quando questionado sobre o segredo para chegar tão bem na 24ª Copa do Mundo, a resposta do histórico admirador futebolístico – nascido José Gonçalves Macedo, mas com sobrenome Benigno devido ao tio – vem fácil: disposição, coragem e real interesse de prestigiar os jogos. “Principalmente quando o Brasil está ganhando”, enfatiza, aos risos.
![]() |
| Foto: Arquivo pessoal. |
Por sua vez, ao traçar um paralelo entre o presente e o passado do evento, o antigo funcionário do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs) gosta de trazer nomes e hábitos que o marcaram. Uma das personalidades ilustres é a do locutor Galvão Bueno. “Gostava muito de assistir às partidas transmitidas com ele… Não tem melhor, não”.
Na seara dos hábitos, rememora o período em que, sobretudo nas cidades do interior, a maior parte das transmissões dos primeiros jogos era realizada via rádio, com toda a emoção que o dispositivo reservava ao público. “Era muito diferente, não tinha muita televisão como hoje. Mas as pessoas sempre se reuniam, mesmo assim”.
![]() |
| Foto: Arquivo pessoal. |
Não sem motivo, a energia inveterada que ainda carrega ao lado dos 10 filhos, 18 netos e 17 bisnetos – todos muito orgulhosos do histórico torcedor, responsáveis inclusive pela produção de uma arte, na qual destacam: “Mais que torcedor, um apaixonado por futebol. Uma lenda. Uma inspiração”. Força capaz de levá-lo a crer que ainda haverá muitas Copas pela frente.
Enquanto eu estiver vivo, terei disposição de assistir à Copa do Mundo, especialmente aos jogos do Brasil. Quero deixar a vida me levar
A emoção de acompanhar todas as Copas
No fim das contas, o que seu José Benigno mais gosta é mesmo de demonstrar o quanto ama todo esse clima de divertimento e paixão coletiva. Talvez seja um dos motivos para que chegue tão longe não somente na idade, mas na sabedoria dos anos.
![]() |
| Foto: Arquivo pessoal. |
“Torcer pelo Brasil, comemorar cada gol, ver nossos ídolos em campo… Isso é bom demais, não tem coisa melhor, não. Teve o tempo do Pelé, o tempo do Maradona, do Romário, do Ronaldinho. É uma felicidade muito grande ver tudo isso de perto”.

.webp?q=0.8&$p$q=d5ca986)
.webp?q=0.8&$p$q=fedce28)



