A crise pública entre Michelle Bolsonaro (PL) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) foi desencadeada em função da disputa por uma vaga ao Senado no Ceará. Na avaliação da ex-primeira-dama, Flávio se alinhou ao grupo liderado pelo deputado federal cearense André Fernandes (PL) na disputa interna sobre a composição da chapa ao Senado.
Embora a ex-primeira-dama tenha afirmado ter sido "maltratada" e "humilhada" pelo enteado durante uma conversa telefônica, os vídeos divulgados por ela nas redes sociais mostram que o ponto de partida do embate é a disputa por uma vaga ao Senado no Ceará.
O estopim do rompimento foi a resistência de Flávio à tentativa de Michelle de viabilizar a candidatura da deputada federal Priscila Costa (PL) ao Senado. A ex-primeira-dama apoia o nome da dirigente nacional do PL Mulher, enquanto o senador teria decidido respaldar a pré-candidatura do deputado estadual Alcides Fernandes (PL), pai de André Fernandes, presidente estadual da sigla.
Nos vídeos publicados no fim da tarde da quarta-feira, 24, Michelle dedicou grande parte da fala ao cenário político cearense. Ela afirmou que sempre atuou no Estado com o aval do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e relembrou a participação no lançamento da pré-candidatura do senador Eduardo Girão (Novo) ao Governo do Ceará, em 30 de novembro do ano passado.
Segundo Michelle, Bolsonaro concordava com o apoio à candidatura de Girão ao Governo e de Priscila Costa ao Senado.
Ela recordou que, no evento de novembro de 2025, discursou em defesa do apoio a Girão. A André e aos líderes locais do bolsonarismo, ela falou em relação ao apoio a Ciro Gomes (PSDB). "É sobre essa aliança que vocês se precipitaram em fazer".
O movimento gerou repercussão nacional e culminou em uma crise que levou à suspensão, por alguns meses, das negociações envolvendo o PL do Ceará e o ex-governador.
Papel de Priscila em 2024
A ex-primeira-dama também resgatou a campanha municipal de Fortaleza em 2024 para sustentar que Priscila teve papel decisivo na tentativa de reduzir a rejeição feminina enfrentada por André Fernandes durante a disputa pela Prefeitura.
"Era uma eleição apertada e havia uma rejeição significativa ao André por parte das mulheres. Foi nesse momento que entrou em campo a vereadora Priscila Costa", afirmou.
Michelle disse que, em vez de reconhecimento, a parlamentar passou a enfrentar resistência dentro do próprio grupo político.
"Decisão de Jair"
Um dos principais argumentos apresentados pela ex-primeira-dama é que a candidatura de Priscila não teria sido apenas uma reivindicação do PL Mulher.
Segundo ela, a definição teria sido tomada diretamente por Jair Bolsonaro, por ela própria e pelo presidente nacional do partido, Valdemar Costa Neto. Na sexta-feira, 26, Valdemar, que estava nos Estados Unidos, antecipou o retorno ao Brasil. Em entrevista à Rádio Gaúcha, ele elogiou Priscila, mas destacou as chances de eleição de Alcides Fernandes, pai de André. E defendeu o respeito à decisão do PL no Estado.
Michelle afirmou ainda que Bolsonaro defendia uma chapa com duas candidaturas ao Senado no Ceará: Priscila Costa e Alcides Fernandes.
"Não foi sugestão, não foi preferência, foi decisão. Uma decisão baseada no potencial da Priscila Costa. Jair definiu que o PL disputaria as duas vagas do Ceará, uma com Priscila e a outra com o pai do André", narrou no vídeo.
Segundo o relato dela, Bolsonaro chegou a indicar que o número 222 seria reservado para a campanha da ex-vereadora.
Ao defender Girão e Priscila, Michelle reforçou que a estratégia teria o aval de Jair Bolsonaro e contrastou esse projeto com as articulações envolvendo Ciro Gomes, alvo das críticas nos vídeos.
Acusação de favorecimento a Ciro
Uma das partes mais duras das críticas nos vídeos foi direcionada ao deputado André Fernandes e às negociações envolvendo uma possível aproximação entre setores do PL e o ex-ministro Ciro Gomes, pré-candidato a governador.
Michelle sustenta que a retirada de Priscila da disputa teria ocorrido para facilitar uma aproximação política entre setores do PL cearense e Ciro Gomes.
"Se o André queria agradar o Ciro Gomes, por que ele não ofereceu a vaga do seu próprio pai?", questionou.
"O que aconteceu depois foi que, aproveitando-se da prisão do Jair, começaram a trabalhar para eliminar a Priscila da disputa, cedendo a vaga dela para garantir uma aliança com Ciro Gomes. Isso mesmo, o Ciro Gomes”, prosseguiu.
A ex-primeira-dama relembrou críticas feitas por Ciro ao ex-presidente Jair Bolsonaro e seus filhos ao longo dos últimos anos para justificar sua oposição a qualquer entendimento político com o ex-ministro.
Flávio como alvo
A situação cearense levou ao atrito familiar com Flávio. A ex-primeira-dama relatou que, após o evento de 30 de novembro do ano passado, em apoio a Girão, depois de o enteado tê-la criticado publicamente, os dois conversaram.
"Telefonei para ele, tentei algumas vezes, mas ele não atendeu. Algumas horas depois da postagem, ele retornou a ligação. Mas, sinceramente, para falar o que ele me falou, seria melhor se ele não tivesse ligado. Ele foi muito ríspido, me desrespeitou e me maltratou ao telefone. E eu não tinha feito nada contra ele".
Michelle acrescentou sobre o relato: "Ele disse que seria melhor eu ficar fora das decisões do partido. Disse que eu havia chegado ontem e não entendia nada de política".
E completou: "Diante dessa humilhação, eu disse a ele que estava tudo bem. Entendi que ele não queria o meu apoio ou que este era insignificante. E então eu me recolhi. Fiquei na minha e assim permaneço".
Efeito nacional
A repercussão do caso extrapolou o Ceará e mobilizou o entorno de Flávio Bolsonaro em Brasília. Segundo reportagem do jornal O Globo, a residência do senador em Brasília se transformou em uma espécie de comitê de crise na noite de quarta-feira, com aliados discutindo os impactos políticos da manifestação de Michelle e a melhor estratégia de resposta.
Flávio divulgou posteriormente uma nota negando ter desrespeitado a ex-primeira-dama, pediu desculpas caso ela tenha se sentido ofendida e afirmou estar disposto a reconstruir a relação.
Mais do que um conflito familiar, a crise expôs divergências dentro do bolsonarismo sobre alianças políticas, composição de chapas e o papel de Michelle Bolsonaro nas decisões partidárias.
No centro da disputa
está justamente o Ceará, onde o embate entre os grupos de Priscila
Costa e Alcides Fernandes se transformou em um problema de alcance
nacional.
Conflito também sobre Carlos Bolsonaro, em Santa Catarina
Michelle também demonstrou insatisfação com a escolha do PL de lançar Carlos Bolsonaro para concorrer uma vaga ao Senado por Santa Catarina. Em fevereiro, a ex-primeira-dama publicou mensagem de apoio à deputada federal Caroline de Toni (PL), que também almeja uma vaga no Senado pelo Estado catarinense.
Em abril, ela voltou a divulgar em suas redes sociais conteúdos do senador Esperidião Amin (Progressistas-SC), considerado o principal adversário de Carlos na disputa. Essas divergências ampliaram as tensões dentro do partido e fortaleceu a percepção de que existem grupos distintos disputando influência no campo bolsonarista.
O partido acabou decidindo lançar os dois e rifar Espiridião Amin (Progressistas), antigo aliado dos Bolsonaro, relator no Senbado do PL da Dosimetria, cujo objetivo é reduzir a pena de Jair.
Personagens da crise
Michelle Bolsonaro
Ex-primeira-dama, é cobrada a se engajar na campanha de Flávio Bolsonaro a presidente. Com o vídeo de quarta, expôs a tensão presente nos bastidores
Priscila Costa
Ex-vereadora recém-empossada deputada federal, tem o apoio de Michelle para concorrer a senadora
Flávio Bolsonaro
Pré-candidato do PL a presidente da República, defendeu a aliança do partido com Ciro Gomes (PSDB). Segundo Michelle, referenda a posição do PL cearense, de lançar Alcides Fernandes a senador, e não Priscila
André Fernandes
Deputado federal, presidente do PL no Ceará e principal líder estadual do partido, é filho de Alcides Fernandes e maior cabo eleitoral do pai como candidato a senador. É também a figura central na costura do PL com Ciro Gomes
Alcides Fernandes
Deputado estadual, pastor, pai de André Fernandes e pré-candidato a senador
Ciro Gomes
Pré-candidato a governador do Ceará, tem apoio do PL e defende uma das duas vagas de senador para o partido
Capitão Wagner
Presidente da federação União Brasil e Progressistas no Ceará, é pré-candidato a senador. No caso de o PL ter duas vagas de senador, ele poderia ficar sem espaço na chapa
Jair Bolsonaro
Ex-presidente da República, em prisão domiciliar, pai de Flávio e marido de Michelle. Segundo ela, ele está de acordo com todas as movimentações dela, inclusive o lançamento de Priscila Costa
Valdemar Costa Neto
Presidente do PL nacional. Referenda o apoio a Ciro Gomes. Foi citado por Michelle como alguém que participou da decisão de lançar Priscila. Ele estava no vídeo de lançamento da pré-candidatura da então vereadora, hoje deputado federal. Porém, em meio à crise, ele defendeu o respeito à instância local do PL.
(O Povo)
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