Farol novo do Mucuripe está apagado há três meses e afeta pelo menos 2 mil pescadores


 



Não é exagero dizer que o Vicente Pinzón tinha luz própria. A iluminação do farol novo do Mucuripe – como é chamado o equipamento localizado nesse bairro de Fortaleza – atendia a pescadores e outros trabalhadores do mar desde que foi instalado, em setembro de 2017. Após a queda de um raio na madrugada do último 27 de abril, durante forte chuva, a situação mudou: o sinal náutico foi atingido e apagado.

O impacto, conforme moradores do próprio lugar, é grande. Afeta, pelo menos, dois mil pescadores associados à Colônia de Pescadores Z-8, do próprio bairro. “O farol é ponto de referência pra gente”, situa Damião Costa Silva, 57, diretor da associação. “Se o sistema de energia dele não funcionar, a gente fica perdido”.

Desde que há escuridão, a saída, segundo ele, tem sido utilizar o sistema de GPS para traçar o plano de rota no oceano e, assim, seguir com trabalhos em alto-mar.

A tarefa, embora possível, continua desafiadora, tendo em vista a possibilidade de complicações inesperadas. “Se o GPS não funcionar ou se não houver bateria nem nada, o barco pode ficar à deriva. Para ele não ficar à deriva, teríamos que ter como base a referência da luz do farol”, ilustra.

A falta da luz também faz diferença no bairro porque aqui à noite é escuro. Com a claridade, há mais pontos de visibilidade para o comércio, as famílias, a brincadeira das crianças… Se ele estiver claro, é uma visão; se estiver apagado, abre espaço para outras coisas. O bairro sempre foi bom, mas a escuridão provoca uma sensação estranha”.

A fala de Damião ressoa na percepção da artesã Mônica Ferreira. Foi a filha dela quem notou quando o sinal náutico apagou – o funcionamento dele acontece do anoitecer ao alvorecer do novo dia, ou seja, ao longo da noite e da madrugada.

“Desde que a gente soube, tentei ligar para a Marinha, mas não consegui. É uma coisa que a gente sente falta, a luz do farol”, conta.

Para se ter ideia, de acordo com Damião Costa, o raio de alcance do sinal abrange da praia do Caça e Pesca à Barra do Ceará. Não à toa, o desejo coletivo de resolução.

“O que a gente espera é que eles consigam consertar o mais rápido possível. Porque não é só o conserto, isso impacta na comunidade também. Fica aquele negócio parado, todo mundo quer saber. A linha de comércio necessita da energia que vem dele”, ressalta o diretor.

O que diz a Marinha do Brasil

Em nota, a Marinha do Brasil (MB) confirma que o Farol do Mucuripe, com aproximadamente 71 metros de altura, foi atingido diretamente por descargas atmosféricas durante forte chuva em Fortaleza na madrugada de 27 de abril. 

Damião Costa Silva, diretor da Colônia de Pescadores Z-8, no Vicente Pinzón.
Foto: Fabiane de Paula.

Conforme o texto, “apesar da atuação do Sistema de Proteção contra Descargas Atmosféricas, foram registrados curto-circuito e danos em equipamentos elétricos e eletrônicos, ocasionando o apagamento do sinal náutico”. Não há previsão de retomada do ponto de luz.

A alteração, sublinha, está sendo divulgada em avisos aos navegantes, conforme previsto na Norma de Auxílios à Navegação (Normam-601), e “equipes técnicas estão atuando para o restabelecimento do facho luminoso, sendo realizados todos os esforços para que o Farol do Mucuripe retorne à operação normal no menor prazo possível”.

Por fim, o órgão destaca que mantém escuta permanente do canal 16 (VHF), destinado ao Serviço Móvel Marítimo. O canal permite a comunicação entre embarcações e estações costeiras por meio de radiocomunicações, assim como dos telefones 185 e (85) 3133-5100, para a comunicação de emergências marítimas e fluviais.

História do Farol Novo do Mucuripe

Considerado o maior farol tradicional das Américas e o sexto maior do mundo, o Farol do Mucuripe – conhecido popularmente como Farol Novo do Mucuripe, nome amplamente utilizado no comércio do bairro, por sinal – foi inaugurado em 2017 e está localizado no bairro Vicente Pinzón. Foi construído em parceria público-privada entre a Marinha do Brasil e uma empresa particular.

Ele substituiu o antigo farol, que funcionava desde 1958, e tem como objetivo oferecer maior segurança para a navegação na costa cearense. Também favorece a ampliação da altura na construção de prédios no entorno. O investimento na edificação dele foi de R$ 5 milhões.

Sediado em um terreno da Marinha, possui sistema informatizado e elevador interno. Os prédios na área de alcance do facho de luz poderão ter limite de altura, no mínimo, 30% maior que o atual.

Isso ocorre porque a altura do farol limita a altura das construções na região. O equipamento difere de outro famoso farol da Capital, também no Grande Mucuripe.

À esquerda, o Farol Novo do Mucuripe; à esquerda, o farol originalmente construído em 1958.
Foto: Fabiane de Paula/Ismael Soares.


Este encontra-se estampado na bandeira do Estado do Ceará e é tombado como patrimônio histórico e artístico do povo cearense. Fica no bairro Cais do Porto, e iluminava aproximadamente 24 km da costa litorânea, na zona portuária de Fortaleza, por onde diariamente as embarcações chegavam e partiam.

No século XIX, a edificação reinava absoluta, com possibilidade de ser avistada de vários pontos da cidade. Desde 1958, quando foi inutilizado como instrumento de navegação, o monumento passou por períodos de reformas e abandonos

Quando, na última década, quase teve fim, uma atuação do Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE) deu novo contorno ao espaço e garantiu a permanência dele na paisagem da Capital.

A luta foi travada por moradores da comunidade do Serviluz e espelhou a resistência para a preservação de um símbolo tão forte para a cidade e o Estado como um todo.




(Diário do Nordeste)

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