O fenômeno El Niño, caracterizado pelo aumento anormal de temperatura do oceano Pacífico e com repercussões nas condições climáticas do planeta, foi confirmado em junho de 2026. Caso ocorra em sua versão mais intensa, o evento pode prejudicar as chuvas no Ceará, influenciar a temperatura e a umidade relativa do ar.
Projeções de intensidade geram alerta em especialistas e governos. Segundo a Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA, na sigla em inglês), há 81% de chance de o El Niño atingir a categoria muito forte até o fim do ano.
A última vez que o fenômeno atingiu essa intensidade foi no fim de 2015, se estendendo ao início de 2016. A temperatura das águas do oceano Pacífico chegou a ficar até 2,4° C mais quente que o normal.
À época, o evento encontrou o Ceará já castigado por uma seca que durava quatro anos, piorou os prognósticos de chuva e a produção de agricultores. A reserva de água nos açudes chegou a apenas 7,05% no fim de 2016, segundo o Portal Hidrológico da Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos (Cogerh).
A intensidade do El Niño é classificada pelo Índice Oceânico Niño (ONI), que mede o percentual de aquecimento anormal do oceano em relação à temperatura usual das águas superficiais do Pacífico:
- Acima de 0,5° C: fraco
- Entre 1° C e 1,5° C: moderado
- Entre 1,5°C e 2°C: forte
- Acima disso: muito forte
Com quase todo o território inserido no semiárido e sem nenhum rio perene, o Estado é naturalmente suscetível a secas cíclicas e médias pluviométricas baixas. Contudo, a existência de um El Niño de intensidade muito forte não quer dizer necessariamente que haverá uma nova seca no Ceará.
Apesar disso, com o agravamento das mudanças climáticas, especialistas afirmam que o evento está cada vez mais frequente. Desde 2016, outros dois episódios de El Niño foram registrados, em 2018-2019 e em 2023-2024, mas nenhum superou a intensidade daquele observado há uma década.
Depois de dez anos do último “Super El Niño”, o Diário do Nordeste lembra uma das piores secas já registradas no Ceará, as ações emergenciais de convivência com a seca, as soluções de longo prazo adotadas pelo Estado e as políticas públicas para lidar com eventos climáticos extremos na área da saúde.
Volume morto: como ficaram os açudes durante a seca de 2016
O anúncio de um El Niño forte em 2015, quando o evento foi confirmado, tinha outro peso para o Ceará da época. Em 6 de outubro daquele ano, o Diário do Nordeste imprimia a manchete do caderno Regional: “El Niño será intenso e efeito da seca pode ser devastador”.
A matéria trazia a informação de que os reservatórios hídricos do Ceará só tinham 15,5% da capacidade preenchida. Sem recarga suficiente nos anos anteriores, que já haviam sido de estiagem, o medo era de o fenômeno prolongar o período sem chuvas e aumentar a evaporação da pouca reserva que o Estado ainda tinha.
As previsões se confirmaram e as chuvas de fevereiro a maio de 2016 foram 47,8% menores do que o normal (609,2 mm), chegando apenas a 318,2 mm, conforme dados da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme). Ao fim daquele ano, estava consolidada uma das piores estiagens que o Ceará viveu desde 1910.
Segundo o diretor técnico da Funceme, Francisco Vasconcelos Júnior, a seca multianual de 2012 a 2017 teve diferentes causas.
“Destacam-se os padrões de temperatura da superfície do mar, como o resfriamento mais centralizado e o aquecimento na porção mais leste do Pacífico em alguns anos, como em 2012, além das condições associadas ao El Niño em 2015 e 2016. Sobretudo, o período foi marcado por repetidos cenários desfavoráveis no Atlântico Tropical, que contribuíram para a redução das chuvas no Ceará”, explica.
A edição de 30 de agosto do Diário do Nordeste dimensionou a gravidade da situação: era o menor volume de água armazenado nos açudes em 22 anos, com 9,6%. Em dezembro, eram apenas 7,05%.
Com tão pouca água, todo o recurso existente de 1,25 bilhão de metros cúbicos (m³) do Ceará poderia ser armazenado dentro de um único açude — como o Banabuiú, que tem 1,5 bilhão de m³ de capacidade — e ainda não seria suficiente para atingir a sangria.
Na época, os grandes reservatórios estavam secos ou secando. Desde a inauguração em 2003, o Castanhão não havia passado por uma escassez como a registrada em 2016. O maior reservatório de água doce da América Latina ficou com apenas 5,1% de armazenamento.
O Orós, segundo maior reservatório, tinha 14,31% de água. Já o Banabuiú, terceiro maior, quase secou por completo, registrando só 0,59% da capacidade. O quarto maior, Araras, chegou ao fim do ano só 3,54% preenchido.
Perdas na subsistência do sertanejo
A seca prolongada afetou os cearenses de diversas maneiras, mas os agricultores familiares foram os que mais sentiram as consequências da estiagem. As safras de cereais, leguminosas e oleaginosas, principalmente de milho e feijão, sofreram baixas recorde.
Em um ano considerado bom, conforme dados do Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (Ipece), a produção de milho — uma das mais sensíveis à seca — gira em torno das 550 mil toneladas. Em 2015 e 2016, o Estado teve uma safra um pouco acima de 100 mil toneladas.
Enquanto no primeiro ano de seca o Ceará conseguiu produzir 1.100 toneladas de frutas, em 2016 o valor caiu para 776 toneladas em decorrência da escassez de água. Além disso, o rebanho de bovinos diminuiu 10,6% de 2012 a 2016.
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| Foto: Alex Pimentel. |
O baixo armazenamento dos açudes causou ainda uma queda de mais da metade da produção de tilápia, caindo de 36,3 milhões de quilos em 2014 para 17 milhões em 2016. Essa cultura costuma ocorrer em tanques instalados diretamente em reservatórios, como no Castanhão.
A fala do então prefeito de Jaguaribara, Joacy Júnior, nas páginas da reportagem “O gigante agoniza”, publicada pelo Diário do Nordeste no início de dezembro de 2017, resumia o desalento de quem dependia das águas do Castanhão para sobreviver:
“Pela primeira vez em muitos anos, a fome voltou a surgir entre as pessoas mais carentes. A produção de tilápia, que representava 70% da economia do Município, ruiu. Nossa situação é desesperadora”, disse.
A situação da fome entre os sertanejos só não foi tão ruim quanto em outros episódios de seca devido ao programa de transferência de renda Bolsa Família, de acordo com Neyara Araújo Lage, técnica da Coordenadoria do Desenvolvimento da Agricultura Familiar, órgão da Secretaria do Desenvolvimento Agrário (SDA).
Ela afirma que a política ajudou a manter os agricultores nas áreas rurais, evitando maior migração para as grandes cidades. “A gente não observava tanto a saída das pessoas, o êxodo rural em função da fome, porque as pessoas tinham uma renda garantida”, relembrou.
Além disso, havia repasses do Bolsa Estiagem, um programa temporário que pagava R$ 80 mensais a agricultores de cidades com situação de emergência ou calamidade pública reconhecida pelo Governo Federal.
No Ceará, 179 dos 184 municípios pediram reconhecimento de situação de emergência por seca ou estiagem de 2012 a 2016. Os dados são do Sistema Integrado de Informações sobre Desastres, ligado ao Sistema Nacional de Proteção e Defesa Civil. A partir desse reconhecimento oficial era possível garantir recursos federais e o abastecimento por meio de caminhões-pipa.
Abastecimento de água precisou de “técnicas de guerra” para ser mantido
O volume morto do Castanhão, que chegou a menos de 3% em 2017, ainda foi importante para abastecer a Região Metropolitana de Fortaleza (RMF). Graças à infraestrutura de transferência de água do Vale do Jaguaribe para a Capital, como o Canal do Trabalhador e o Eixão das Águas, Fortaleza não precisou lidar com o racionamento do recurso.
No entanto, uma tarifa de contingência foi aplicada à conta de água dos residentes da RMF a partir de 2014. A vazão liberada à região também precisou ser diminuída. Economia de água era a premissa mais importante, com reforço em campanhas de comunicação, nas escolas e jornais.
Helder Cortez, assessor da presidência da Companhia de Água e Esgoto do Estado do Ceará (Cagece), relembra como eram as reuniões do Grupo de Contingência de Seca, formado em 2012 com diversos órgãos da gestão de recursos hídricos do Ceará para pensar maneiras de lidar com a estiagem e garantir o abastecimento.
“Essa tarifa deu dinheiro, mas o dinheiro não era da Cagece. Essa multa ia para uma conta especial. A gente só podia usar para perfurar poços, para fazer DMC (Distritos de Medição e Controle), para trocar os hidrômetros”
“Esse grupo era um comando de guerra. Nós tínhamos uma guerra com a seca e não íamos morrer, não. [...] Era o tempo todo pensando, ninguém nem dormia”, explica.
A tarifa de contingência foi incluída na conta de água da população atendida pela Cagece. O cliente que superasse 90% da vazão liberada para aquela residência era obrigado a pagar 120% a mais na conta. Com isso, a média de consumo dos clientes da Grande Fortaleza reduziu, resultando em uma economia de água.
A tarifa só foi revogada em 2022, quando a situação hídrica saiu do estado crítico.
Os municípios do Interior foram alvo de outras ações emergenciais, como a perfuração de poços, a construção de Adutoras de Montagem Rápida (AMR), o aproveitamento de açudes urbanos, a instalação de cisternas entre outras técnicas para usar toda a água disponível. “Nós íamos captando todas as gotas, até de canudinho”, disse.
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| Legenda: Perfuração de poços foi intensificada durante a seca. / Foto: Honório Barbosa. |
O Grupo de Contingência continua se encontrando todas as sextas-feiras, mesmo com o período de seca superado e quadras chuvosas que proporcionaram um bom aporte aos açudes cearenses. Atualmente com 52% da capacidade preenchida, a situação é “confortável”. Apesar disso, um estado como o Ceará não pode baixar a guarda.
“Nós moramos no Ceará, a seca é cíclica. Não basta só a competência do Estado de se organizar, de encontrar dinheiro para fazer as obras. O Ceará tem mais água armazenada pelo homem do que a Bahia. Por sorte, a Bahia tem rio perene, por isso que não sofre muito. A gente não tem nenhum. Eu tenho açude que só encho se tiver chuva. E ainda vai evaporando 25% de tudo que você guardou naquele ano”, relembra Helder.
Créditos
Alexia Vieira, Repórter | Dahiana Araújo e Nícolas Paulino, Editores de DN Ceará | Louise Dutra, Arte/Animação | Karine Zaranza, Coordenadora de Jornalismo | G. André Melo, Gerente Audiovisual | Ívila Bessa, Gerente de Jornalismo | Gustavo Bortoli, Diretor de Jornalismo
(Diário do Nordeste)





