Mais capivaras em Fortaleza e no Ceará acendem alerta para manejo da espécie q

 



As capivaras, que chegaram a ser consideradas praticamente extintas no Ceará, voltaram a aparecer com frequência em diferentes municípios e também em áreas urbanas de Fortaleza. O aumento da população desses animais tem levado especialistas e autoridades a discutir a criação de um plano de manejo para acompanhar a expansão da espécie, preservar os animais e reduzir possíveis riscos para a população.

O tema ganhou ainda mais atenção após o resgate de uma capivara realizado na semana passada no bairro Joaquim Távora, em Fortaleza. O animal silvestre entrou em um estabelecimento comercial e mobilizou equipes do Batalhão de Polícia do Meio Ambiente. O caso evidenciou a presença cada vez mais comum da espécie em áreas urbanizadas.

A recomendação dos especialistas é que as pessoas mantenham distância e evitem qualquer tentativa de contato com o animal. Apesar de serem conhecidas pelo comportamento pacífico, as capivaras podem reagir quando se sentem ameaçadas.

Capivaras voltam a aparecer em diferentes regiões do Ceará

A capivara é uma espécie silvestre nativa do Ceará e é considerada o maior roedor do Brasil. Os animais vivem, normalmente, em grupos que podem reunir entre 10 e 40 indivíduos e costumam ocupar áreas verdes próximas a rios, lagoas e outros cursos d'água.

No estado, a caça foi um dos principais fatores que levaram a espécie a praticamente desaparecer do ecossistema cearense. Nos últimos anos, porém, exemplares passaram a ser encontrados novamente em municípios como Redenção, Baturité, Eusébio e Aquiraz, além de bairros de Fortaleza, como Cocó e Sabiaguaba, locais que oferecem características favoráveis para a sobrevivência desses animais.

A presença das capivaras também passou a fazer parte da rotina de alguns moradores.

O empresário José Evanildo relata que já encontrou um desses animais durante uma visita ao município de Aquiraz.

"Já vi capivara no Aquiraz. Eu vi ela de longe, né?"

A estudante Emilly Nau, de 14 anos, também afirma já ter observado a espécie e cita um dos locais onde elas costumam aparecer na capital.

"Eu já vi num zoológico que abriu e eu achei ela muito fofinha, ela bem quietinha, pelo que eu vi. Eu realmente nunca vejo, elas não são agitadas, mas eu acho que eu já deve ter visto assim, às vezes na rua. Lá no Lago Jacarey eu sei que tem muitas, às vezes que elas aparecem bastante."

Resgate em Fortaleza reforça necessidade de cuidados

O caso registrado no bairro Joaquim Távora chamou a atenção porque a capivara buscou abrigo dentro de um comércio antes de ser resgatada pelo Batalhão de Polícia do Meio Ambiente.

Segundo o biólogo e professor da Universidade Federal do Ceará (UFC), Fernando Heberson Menezes, a decisão dos moradores de não se aproximarem do animal foi a mais adequada.

Ele explica que existem dois riscos principais no contato direto com as capivaras.

"A gente tem dois riscos principais. O primeiro risco é de acidente com mordida. Não é comum, mas pode acontecer. As capivaras, em geral, são animais pacíficos, mas se alguém mexer com os filhotinhos ou atentar demais, o macho e as fêmeas podem morder. E uma mordida desses bichos vai machucar bastante."

Além das mordidas, o pesquisador destaca que ainda é necessário compreender melhor a situação sanitária da população de capivaras existente no estado.

"O segundo risco é com zoonoses. Só que a gente não sabe ainda como é que está o estado de zoonoses desses animais. A principal e mais conhecida é a febre maculosa, que é transmitida pelo carrapato-estrela. A gente não sabe como está a situação de carrapato-estrela e da bactéria que gera a febre maculosa."

Especialista aponta hipóteses para aumento da população

Embora o crescimento do número de capivaras seja evidente em diferentes localidades do Ceará, ainda não existe uma explicação definitiva para o fenômeno.

Fernando Heberson Menezes afirma que duas hipóteses são consideradas para explicar o reaparecimento da espécie.

"A primeira hipótese é de que houve uma soltura acidental. Então o animal fugiu de um cativeiro, animais fugiram de cativeiro e passaram a se reproduzir. A outra hipótese é que houve uma soltura intencional. A gente não sabe ainda qual dessas duas hipóteses realmente aconteceu, lá pelo começo dos anos 2000."

Plano de manejo deve orientar preservação da espécie

Com a expansão da população de capivaras, especialistas defendem a elaboração de um plano de manejo específico para o Ceará. A proposta é conhecer melhor as características dos animais que vivem atualmente no estado e definir estratégias que permitam preservar a espécie e, ao mesmo tempo, reduzir situações de risco em áreas urbanas.

O Batalhão de Polícia Ambiental já atua para manter os animais reunidos em grupos e em ambientes mais adequados do que regiões urbanizadas, onde podem ser atropelados ou acabar entrando em contato direto com pessoas.

Segundo Fernando Heberson Menezes, a primeira etapa desse processo deve ser o levantamento de informações sobre a população atual de capivaras. Somente a partir desse diagnóstico será possível definir quais medidas serão mais adequadas.

"A primeira etapa é uma etapa prospectiva. Saber como estão as capivaras. Depois a gente consegue pensar em como maneja, se vai ter um manejo de deslocamento, de retirada, de inclusão de indivíduos. Outra coisa que eu acho importante no manejo é ser um manejo multidisciplinar e interinstitucional. Utilizar várias instituições, a gente vai ter que ter a Universidade como apoio, tem outras instituições de pesquisa que servem de apoio também para colaborar nesse processo prospectivo."

Para o especialista, a participação de universidades e instituições de pesquisa será fundamental para produzir informações que orientem futuras decisões sobre a convivência entre a população e a espécie, cuja presença voltou a crescer no Ceará após décadas de declínio.



(GC+)

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