Começa de maneira intensa e avassaladora, até que, rapidamente, se transforma em convívio diário, inclusive, dentro do ambiente de trabalho. Pela compatibilidade profissional, para além da amorosa, surgem propostas de parceria de negócios e pedidos reiterados de empréstimos maquiados de desenvolvimento pessoal e planejamento para o futuro do casal. Os pedidos escalonam e se tornam insustentáveis para as vítimas. O relacionamento, antes afetuoso, se torna abusivo. Até que acaba abruptamente, tão rápido quanto começou.
O padrão do "estelionato sentimental" foi descrito por duas mulheres que denunciaram o ex-namorado à Polícia Civil do Ceará (PC-CE), na última terça-feira (28). Os Boletins de Ocorrência foram abertos na 2ª Delegacia de Defesa da Mulher (DDM), no Papicu, em Fortaleza, onde, também, foram solicitadas medidas protetivas de urgência em favor delas.
Nenhuma das vítimas terá sua identidade revelada nesta reportagem, a fim de preservá-las. Já o suspeito não será identificado porque ainda não foi indiciado ou denunciado formalmente.
Em nota, a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) indicou que "as investigações estão em andamento" e que "demais detalhes serão repassados em momento oportuno para não comprometer o andamento das investigações".
Pedidos reiterados de empréstimos
Uma das denunciantes, que será chamada aqui de Fabíola (nome fictício), contou ao Diário do Nordeste que conheceu o suspeito durante um trabalho. Ela, profissional do marketing, ele, fotógrafo, com mais de 50 mil seguidores em uma rede social.
Os dois teriam se envolvido rapidamente, mas teriam tido um rompimento abrupto logo no início porque ele teria pedido um empréstimo, e ela negou. "Ele me pediu R$ 600 para ir para a casa dele", relatou a vítima. Diante da negativa da transferência, o companheiro teria verbalizado que "se cansou" do relacionamento e rompido. "Ali, ele me descartou", disse ela.
Meses depois, a mãe do rapaz, que até então não tinha proximidade com Fabíola, teria entrado em contato com ela para pedir mais um empréstimo, o que também foi negado. "Ela pediu dinheiro emprestado, só que era para puxar assunto" e fazê-la retomar o contato com o filho, disse.
Depois disso, os dois voltaram a se falar, engataram em um namoro e planejaram morar juntos. De acordo com ela, ele contou que morava na Aldeota, mas que teve seu padrão de vida "diminuído" pela falta de oportunidades de trabalho, e foi morar na Messejana. Sonhava, porém, em retornar para a área nobre da Cidade.
"Eu moro em Maracanaú [na região metropolitana de Fortaleza], mas todos os meus clientes são na Aldeota. Ele colocou na minha cabeça que ficaria melhor para mim, também, quando eu fosse para a casa dele. [...] Ele sempre falava para mim que a condição para ele casar com uma mulher seria a condição financeira dela", contou.
Quando a gente estava vivendo uma relação normal, meu pai faleceu e me deixou um terreno. Esse terreno foi vendido e o dinheiro veio para mim. Ele sabia de toda essa história, de todo esse movimento, e queria que eu desse o dinheiro do terreno todo para ele. Ele me sentou em uma cadeira de frente para o computador e me mostrou o projeto de uma empresa que ele queria abrir. Eu falei que não ia dar dinheiro e ele fez joguinho de vítima. Uma semana depois, inventou que ia embora do País, me mandou de volta para a minha casa e foi morar com a mãe dele. Nessa mesma semana, me descartou".
Com o término do relacionamento, Fabíola descobriu que o ex-namorado, que ela havia empregado como gestor de tráfego pago em sua empresa de marketing recém-aberta, teria dado um calote em um dos seus clientes, um salão de beleza. Os donos do estabelecimento notaram uma queda abrupta no desempenho dos anúncios e relataram que o suposto estelionatário estava retendo parte da verba que deveria ser empregada no tráfego pago. Os valores tiveram de ser descontados dos recursos de Fabíola e ela sofreu prejuízo.
"O cliente mandava o depósito para a conta dele, e ele não colocava no anúncio, pegava uma parte. Minha sorte foi que o cliente descobriu. O cliente tinha acesso às conversas com ele e olhava os depósitos na plataforma da Meta, no Facebook. Fez todo o cálculo e me passou. Fiquei sabendo dessa história depois do fim do relacionamento", contou ela.
Ex-namoradas eram mencionadas como 'loucas'
Além da descoberta do furto, o término chamou a atenção de Fabíola para as histórias que o fotógrafo compartilhava sobre suas ex-namoradas. Desde o início do namoro, segundo os relatos, ele as mencionava como "agressivas", "loucas" e "problemáticas", chegando a afirmar, inclusive, que as sustentava financeiramente.
Contudo, desconfiada da índole do ex-namorado, a comunicadora decidiu investigar o passado dele e conversar com as outras mulheres. Foi assim que ela descobriu que, na verdade, elas que teriam sustentado ele, comprando equipamentos de audiovisual novos, mobiliando apartamento e até montando um estúdio fotográfico na zona nobre da Capital.
"A vida que ele tinha era muito cara. [...] Eu não cedia tanto quanto as outras. Eu emprestava dinheiro, mas forçava ele a me devolver", comentou Fabíola. Mesmo assim, ela relatou à Polícia ter perdido R$ 2 mil que emprestou para a compra de uma impressora 3D. O equipamento teria sido vendido pelo fotógrafo uma semana depois, sem devolução do dinheiro.
Por fim, Fabíola revelou que também teria sido "dopada" pelo fotógrafo em um momento de vulnerabilidade emocional. "Eu estava bem frágil emocionalmente, mais para o fim do relacionamento. Tinha muitas crises de ansiedade. E, para ele não passar pelo processo de me acalmar, me deu remédio sem eu saber. Como a luz [do quarto] estava apagada, me deu remédio e eu tomei. [...] Outra vez, ligou para a minha família relatando que eu queria me matar, só que era mentira. Ele acaba com o psicológico das mulheres", denunciou.
Uma foto do suspeito tem sido compartilhada em grupos de WhatsApp com um alerta de golpe. Isso porque, exceto Fabíola, que ele conheceu no ambiente de trabalho, ao menos seis outras ex-namoradas também prejudicadas teriam conhecido o fotógrafo em aplicativos de relacionamento.
![]() |
| Legenda: Uma foto do suspeito circula em grupos de WhatsApp. /Foto: Reprodução. |
Nome 'sujo', ameaças e demissão
Vanessa (nome fictício) namorou com o investigado por cerca de um ano, logo antes de Fabíola, e também acumulou prejuízos financeiros e à própria saúde mental. À Polícia, ela relatou que, no início do namoro, o fotógrafo a teria induzido a pedir demissão do trabalho, em uma empresa de motos, com a promessa de abrirem um negócio juntos, e se apropriado dos valores da rescisão trabalhista dela, além de assumir o controle de todos os seus cartões de crédito.
Ela contou ainda que o suspeito teria utilizado seu CPF para atuar com dropshipping, que consiste na venda de produtos no comércio eletrônico sem ter estoque próprio. Contudo, ele não teria entregue os produtos dos clientes, o que teria gerado uma série de denúncias e reclamações no nome de Vanessa, como se ela tivesse sido a responsável pelos golpes virtuais.
Na delegacia, a vítima denunciou ainda ter sido constantemente submetida a humilhações, sendo chamada de "burra", "incapaz", "insuficiente", "encostada" e "interesseira", além de ter sofrido diversos "tratamentos de silêncio" e ameaças de expulsão da casa que dividia com o ex. "Depois de usar todos os meus cartões, ele não tinha mais o que usar", relatou ela.
A mulher só decidiu denunciar o ex-namorado e pedir medidas protetivas contra ele quando soube da história de Fabíola. Até então, era desaconselhada a formalizar a denúncia.
A reportagem entrou em contato com o investigado e questionou se ele pretendia se pronunciar sobre as acusações. Em nota, a defesa dele, representada pelo advogado Jonas Santos, negou "categoricamente" as acusações. "Ele reafirma total disposição para esclarecer os fatos perante as autoridades competentes, caso seja formalmente notificado, e confia na apuração isenta, caso os fatos venham a ser levados às vias adequadas", comunicou.
(Diário do Nordeste)




