A construção de uma estátua de 11 metros de altura em homenagem ao diabo, inaugurada no dia 25 de julho, repercutiu nas redes sociais na última semana, levantando debates sobre os limites entre a discordância de uma crença e a prática de intolerância religiosa.
A imagem foi erguida em um templo religioso de quimbanda, batizado de Palácio Estrela Negra, localizado na Taíba, no município de São Gonçalo do Amarante, na Região Metropolitana de Fortaleza (RMF).
![]() |
| A estátua foi construída em um terreno de propriedade privada, seguindo todas as normas vigentes exigidas. Crédito: FÁBIO LIMA |
Após a polêmica envolvendo o monumento, o Governo Municipal de São Gonçalo do Amarante informou, em nota, que a emissão da Licença Ambiental e do Alvará de Construção ocorreu em estrita observância à legislação, uma vez que a obra cumpriu a legislação ambiental e urbanística, além de todas as normas vigentes aplicáveis.
“O Governo Municipal reafirma seu compromisso com a legalidade, a transparência dos atos administrativos e, de forma enfática, com a proteção da liberdade religiosa, da liberdade de crença e do livre exercício dos cultos religiosos, direito e garantias fundamentais assegurados pelo artigo 5º, inciso VI, da Constituição da República Federativa do Brasil”, finaliza a nota.
Em entrevista ao O POVO, Mãe Rainha das Trevas, responsável pela idealização do monumento, afirmou que a construção da estátua contou com um investimento de mais de R$118 mil. “O recurso foi todo próprio”, enfatiza.
Quem é a Mãe Rainha das Trevas?
Com uma trajetória de 29 anos à frente de sua casa religiosa na Taíba, Mãe Rainha das Trevas conta que sua jornada espiritual começou aos sete anos, ainda quando morava em Fortaleza.
Ela relata que, nessa época, enfrentava o processo de separação dos pais e passou a ter visões de uma mulher de vermelho, que mais tarde descobriu se tratar de uma Pombagira. “Eu fui levada para os psicólogos, para psiquiatras. Eles queriam dizer que era um amigo imaginário”, conta.
Aos 10 anos, recorda que uma pombagira As pombagiras são descritas por ela como entidades que simbolizam o amor, o vigor feminino e a luta constante da mulher. Descrita também como um símbolo fundamental da liberdade do feminino, representando a resistência contra a opressão e o aprisionamento histórico imposto pelo masculino. a buscou dentro de uma congregação cristã e a levou até o um terreiro, onde reconheceu o seu caminho religioso. Quatro anos depois, foi expulsa de casa por escolher sua fé.
Atualmente, ela explica que possui quatro sacerdócios. “Comecei na umbanda; da umbanda eu tomei obrigação e sacerdócio na quimbanda, traçada umbanda; depois no culto da Jurema e depois no culto da alta magia negra (...) todos dentro de uma ramificação chamada alta magia negra e bruxanismo”, detalha.
Na visão da sacerdotisa, o aspecto negativo atribuído a figura do diabo é fruto da incapacidade humana de assumir seus próprios erros.
![]() |
| Mãe Rainha das Trevas. FÁBIO LIMA |
A construção da estátua, de acordo com a Mãe Rainha das Trevas, é uma forma de agradecer pelas bênçãos recebidas já que, em sua fé, a entidade representa "bondade, prosperidade e luz" .
Ela defende que a construção da obra cumpre todas as legalidades possíveis e tem direito de existir, assim como outras religiões constroem seus templos e monumentos.
No templo onde foi construída a imagem, são realizadas atividades religiosas de uma a duas vezes por mês. O local conta com um espaço dedicado exclusivamente à ajuda espiritual e cura, além de funcionar como um ponto de apoio para a comunidade local, por meio de trabalhos sociais e de caridade.
Sobre a polêmica após a repercussão da estátua, ela denuncia ataques de racismo e intolerância religiosa. “As pessoas estão usando do nome da minha fé, do nome daquilo que é sagrado para mim, para poderem fazer campanhas políticas, ou seja, para fazerem engajamento para as campanhas políticas. E isso é muito triste”, lamenta.
Entenda mais sobre a quimbanda e suas entidades
Em entrevista ao O POVO, Bas'ilele Malomalo, docente da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), doutor em Sociologia e pró-reitor de Relações Institucionais e Internacionais, explica que a quimbanda é uma religião sincrética O sincretismo religioso é caracterizado fundamentalmente por uma intermistura de elementos culturais de difentes crenças ou doutrinas para formar uma nova prática ou expressão espiritual. , que nasceu no Brasil, sendo as vertentes mais antigas ligadas às tradições congo-angolanas.
De acordo com o especialista, existe uma linha da quimbanda ligada à dimensão da ancestralidade. Uma outra linha, especialmente brasileira, foca o culto em exus Entidades que manipulam as energias através de elementos da natureza para ajudar as pessoas a enfrentarem dificuldades e alcançarem seus objetivos. e pombagiras.
“Nesse sentido, exus são vistos como espíritos que tiveram a passagem humana e atuam no plano terreno, na magia da proteção; as pombagiras, seriam já esses espíritos mais movidos pela força feminina. O ponto em comum entre exus e pombagiras, no âmbito da quimbanda, é essa força de desobediência, rebeldia, especialmente em relação à uma sociedade que quer impor algumas coerções às pessoas”, detalha Bas'ilele Malomalo.
O professor pontua que, para as religiões de matrizes africanas, o termo “diabo” não costuma ser encontrado.
“O demônio vem do grego ‘aquele que divide’, que faz divisão. O diabo é visto, do ponto de vista grego, como aquela energia que tem a força de atirar, lançar, arremessar. Mas, ao longo da história, tanto a figura do diabo como do demônio vai começar a ter um sentido muito pejorativo dentro do cristianismo”, explica.
Egbomi Patrícia Adjokè, mãe de santo da umbanda, professora, escritora e pesquisadora das relações étnico-raciais reforça que o conceito de "diabo" é uma construção judaico-cristã que não existe originalmente nas religiões de matriz africana ou indígena.
Ela reconhece a dificuldade de explicar essas concepções sobre entidades que foram associadas na sociedade de forma pejorativa ao longo da história, identificando a construção da estátua na Taíba como tentativa de ocupação de espaço, memória e território.
“A
gente (religiões de matrizes africana) trabalha com a dualidade, que é
equilíbrio entre o negativo e o positivo, que os cristãos vão chamar de
bem e mal, céu e inferno. E, no nosso caso, de matriz africana, é o
equilíbrio; assim como os orientais têm o yin e o yang”, exemplifica.
Com 45 anos de iniciação na quimbanda, o bruxo feiticeiro Xobiy (que significa “aquele que foi criado e gerado pelos feiticeiros”), também conhecido como Pai Hélio, explica que a quimbanda trabalha com energias densas e fortes, representadas por pontos de força como Lúcifer e Satanás, sendo que essas entidades não possuem o mesmo significado quando comparadas ao contexto do cristianismo, por exemplo.
Ele define a religião como a busca pelo equilíbrio entre o negativo e o positivo para encontrar a paz e a harmonia, desmistificando a imagem bíblica do diabo.
Conforme explica o bruxo, Lúcifer é descrito como o anjo da luz, da prosperidade e da riqueza, que escolheu ficar na Terra por apreciar os prazeres humanos. Ele também defende que a maldade não vem das entidades, mas sim do próprio ser humano e de suas ações, como as guerras e a violência urbana.
Para o professor Bas'ilele Malomalo, reações negativas ao monumento podem ser encaradas com uma postura de intolerância e racismo religioso, crimes previstos na legislação nacional, passíveis de responsabilização civil, administrativa e penal.
“Cada ser humano tem direito à fé. A pessoa pode acreditar em qualquer coisa, em qualquer realidade, enquanto isso não fizer mal a si mesmo ou a outras pessoas. Então, as religiões, as expressões religiosas, a espiritualidade são formas diferentes, diversas, que nós temos para manifestar a nossa existência”, argumenta.





