Cooperativa de saúde alvo de operação da PF recebeu R$ 1 bilhão em recursos públicos




 

A Operação Coaptação, deflagrada pela Polícia Federal na última quinta-feira (8), resultou na prisão de cinco pessoas e na apreensão de carros e relógios de luxo, para aprofundar a suspeita de desvios milionários em contratos envolvendo uma cooperativa de saúde, prefeituras e recursos públicos federais destinados à área. Somente uma empresa teria recebido mais de R$ 1 bilhão em recursos públicos, entre 2007 e 2025. 

 O esquema envolvia desde a criação de empresas de fachada para fechar contratos com prefeituras até a lavagem de dinheiro por meio da compra de carros de luxo em uma revendedora de veículos em Fortaleza.

No centro do esquema estaria a Cooperativa de Atendimento Pré & Hospital (Coaph), cooperativa que possui vários contratos com prefeituras do Ceará. Conforme apuração do g1, todos os cinco presos na operação são pessoas relacionadas à Coaph, que tem sede em Fortaleza.

Por meio de nota, a Coaph destacou que a operação não se restringiu à cooperativa, "abrangendo também outras empresas do setor da saúde que mantêm contratos com o poder público". A Cooperativa disse ainda que é necessário investigar, mas que também é necessário "preservar uma instituição que presta serviços essenciais à saúde". (Veja o posicionamento completo abaixo)

Movimentação milionária

De McLaren a relógios de luxo: PF apreendeu bens de luxo em ação contra desvios de recursos milionários em cooperativa de saúde, no Ceará — Foto: Divulgação
De McLaren a relógios de luxo: PF apreendeu bens de luxo em ação contra desvios de recursos milionários em cooperativa de saúde, no Ceará — Foto: Divulgação


Conforme as investigações da PF, a Coaph recebeu mais de R$ 1 bilhão em recursos públicos de origem federal repassados, entre 2007 e 2025, tendo celebrado contratos com entes subnacionais (ligadas a estados ou municípios).

A Coaph, por seu estatuto de cooperativa, não poderia ter lucro. Por isso, os envolvidos forjavam empresas "notariais", isto é, que praticamente existiam apenas no papel. Estas empresas fechavam os contratos com os municípios, com possibilidade de lucro, e emitiam as notas fiscais, mesmo sem capacidade de prestar os serviços para as quais foram contratadas.

Segundo apuração do g1, as investigações começaram após a prisão de um contador da Coaph, nas eleições de 2024, com uma elevada quantia em dinheiro. A partir disso, foram identificadas movimentações financeiras suspeitas envolvendo saques de dinheiro em valores elevados.

A Coaph possui contratos de prestação de serviços para diversas unidades de saúde em várias prefeituras do Ceará, inclusive a de Fortaleza. A Polícia Federal, no entanto, não informou se os valores desviados provinham de uma prefeitura em específico.

Prisões

PF investiga esquema suspeito de desvios milionários em recursos da saúde no CE e PB

O g1 confirmou que entre os cinco presos na operação da Polícia Federal está o ex-presidente da cooperativa e atual tesoureiro, o médico José Newton Lacerda Carneiro. O atual presidente, o médico Montezuma Feitosa Alexandrino, foi alvo de um mandado de busca e apreensão.

O g1 não localizou as defesas de José Newton Lacerda Carneiro e Montezuma Feitosa Alexandrino até a publicação desta matéria.

A Justiça também autorizou 24 mandados de busca e apreensão, além do sequestro de 38 imóveis e 82 veículos que seriam vinculados às pessoas investigadas. Eles foram cumpridos em Fortaleza, Caucaia, Eusébio e Tauá, no Ceará, e Campina Grande (PB), tanto contra pessoas físicas quanto jurídicas, que também tiveram quebra do sigilo bancário e fiscal.

Os alvos são suspeitos de praticar crimes de lavagem de dinheiro, corrupção, organização criminosa e fraude documental. Eles integravam um esquema suspeito de usar empresas de fachada e documentos falsos para desviar recursos oriundos de contratos públicos celebrados por entidades do setor da saúde.

Segundo a PF, as medidas de apreensão buscam assegurar eventual ressarcimento do dinheiro aos cofres públicos, além de eliminar ativos que podem ter sido comprados com recursos de origem ilícita.

A decisão judicial também determinou o afastamento cautelar de cinco gestores de atividades gerenciais, financeiras ou de representação da principal entidade investigada, a Coaph, e demais entes.

Carros, relógios e pulseiras de luxo

Entre os alvos dos mandados de busca e apreensão está a revendedora de veículos Drive Car, de Fortaleza, que seria usada para lavagem de dinheiro do esquema. Lá, os agentes apreenderam veículos de luxo como uma McLaren Artura, cujo valor pode chegar a R$ 3 milhões; e um Chevrolet Corvette, que pode chegar a R$ 1 milhão.

A TV Verdes Mares procurou a Drive Car para comentar a operação, mas não recebeu resposta até a publicação desta matéria.

Vários outros veículos, com valores entre R$ 100 e R$ 600 mil, também foram apreendidos da empresa revendedora de veículos.

Na casa do atual presidente da cooperativa Coaph, Montezuma Feitosa, em um condomínio de luxo no município de Aquiraz, a polícia apreendeu vários relógios de luxo. Um deles, da marca Patek Philippe (na foto abaixo, no canto direito), é avaliado em cerca de R$ 3 milhões. A Polícia Federal ainda irá checar se o relógio é original da marca.

Com o investigado, ainda foram encontrados outros modelos de luxo como Tag Heuer Carrera, MontBlanc e Vacheron Constantin.

Ainda conforme apuração do g1, com outro alvo foram apreendidos mais relógios de luxo das marcas Rolex e Cartier. Os Rolex foram avaliados, cada um, em R$ 75 mil. Também foi apreendida uma pulsiera Cartier Love (na foto abaixo, no meio), avaliada em mais de R$ 50 mil


Confira a nota da Coaph na íntegra

"Diante das notícias divulgadas nesta quinta-feira (8), sobre a operação da Polícia Federal e da Controladoria-Geral da União (CGU), a COAPH vem a público prestar esclarecimentos.

A operação não se restringe à COAPH, abrangendo também outras empresas do setor da saúde que mantêm contratos com o poder público.

É importante lembrar que, em 2022, a cooperativa passou por fiscalização semelhante, posteriormente arquivada pelas autoridades competentes. Na ocasião, o procedimento foi encerrado sem que fossem identificados elementos que justificassem seu prosseguimento.

A COAPH respeita o trabalho das autoridades e defende a rigorosa apuração dos fatos, observando-se o devido processo legal e a presunção de inocência. Investigar é necessário. Preservar uma instituição que presta serviços essenciais à saúde também é uma questão de responsabilidade.

A prioridade da COAPH permanece sendo a segurança dos pacientes, a continuidade dos serviços de saúde e a responsabilidade com os colaboradores, cooperados e contratantes. Reforçamos que a instituição segue pautada pela legalidade, a transparência e a ética em todas as suas atividades.

Novas informações institucionais serão divulgadas pelos canais oficiais, evitando que fatos sejam confirmados e juridicamente passíveis de divulgação."



(G1/CE)

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