Com o fenômeno da ressaca, que seguiu impactando a região na primeira
semana do ano, empresários e gestores implementam medidas paliativas
enquanto continuam a debater soluções mais duradouras para os desafios
do avanço do mar.
As intervenções emergenciais
incluem avisos aos banhistas e clientes sobre horários de frequentar a
praia, isolamento de trechos da orla e a instalação de pedras e sacos de
areia para tentar conter a força das ondas.
O problema da ressaca trouxe impactos para o turismo e para as
estruturas das barracas na faixa de areia neste início de ano. No
entanto, estudos técnicos estão em andamento para projetos de engenharia
de longo prazo, conforme a Prefeitura de Paraipaba.
Praia da Lagoinha, no Ceará, registra ressaca do mar no início deste ano
O mar tem se mostrado mais agitado e com ondas mais altas e fortes
desde o início de dezembro, conforme relatam os trabalhadores da Praia
da Lagoinha. A partir do dia 18 de dezembro, as ondas começaram a
encostar nas estruturas das barracas.
Nos primeiros dias de 2026, as ondas invadiram áreas onde as barracas
de praia costumam colocar mesas e cadeiras para os clientes. A força das
águas também danificou estruturas físicas das barracas, além de
derrubar coqueiros centenários da orla.
Como conta Francisco Dudé, proprietário de uma das barracas da região
há 33 anos, os efeitos da ressaca do mar ainda foram sentidos durante a
última semana. Ele explica que as ressacas do mar geralmente atingem a
região no fim do ano.
“Como
eu já estou aqui há muito tempo, eu já enfrentei bem umas três
[ressacas] dessas. Mas como essa, só vem de 20 em 20 anos”, relatou.
Em dias de atividade normal, são 40 trabalhadores para atender os
clientes, com cadeiras, mesas e guarda-sóis espalhados pela areia da
praia. Atualmente, o estabelecimento só funciona nos horários em que a
maré está baixa. Quando a maré está subindo, os clientes já começam a
pagar as contas para deixar o local.
Com a diminuição da clientela, Francisco explica que precisou reduzir também o número de funcionários.
Os cuidados também são para limpar bem o local depois que as ondas vão
embora. Como explica, os resíduos deixados podem dar impressão de que a
barraca não está sendo bem cuidada.
As alterações nos horários também são realizadas na barraca da mãe de
Emanuelle Morais. O estabelecimento, que funcionava até 18h em condições
normais, tem precisado fechar mais cedo porque a maré alta invade os
espaços das mesas e cadeiras para clientes.
Maré avança e causa prejuízo a barracas na Praia de Lagoinha, na Grande Fortaleza. — Foto: Reprodução
Ao g1, ela explicou que a mãe precisou fazer um empréstimo de R$ 15 mil para consertar parte da estrutura danificada pela maré.
Como detalha Leo Morais, proprietário de outra barraca na orla, os
horários da maré alta variam a cada dia: o ápice foi por volta das 15h
no dia do Réveillon, enquanto a maré ficou cheia por volta das 17h30 na
última segunda-feira (5).
“A
gente tá orientando o cliente. Por exemplo, se de manhã ela [maré] tá
seca, a gente monta o guarda-sol, mas orienta que a partir de algum
horário, a gente vai ter que retirar. E que, se eles quiserem consumir
um almoço ou alguma coisa com antecedência, isso seria mais viável”,
exemplifica Leo.
Diferente de outras barracas mais próximas à faixa de areia, o
estabelecimento de Leo tem uma estrutura mais recuada, com um pavimento
no nível do calçadão da avenida Beira-Mar.
Ele explica que as ondas têm se aproximado da estrutura mais recuada da
barraca. E que, mesmo com este pavimento superior, boa parte do
movimento dos clientes acontece nas mesas colocadas na faixa de areia.
Efeitos da ressaca do mar em barracas de praia em Lagoinha, no Ceará — Foto: Reprodução
O município de Paraipaba tem 11 km de extensão de litoral. Segundo a
Prefeitura, todas as praias sofrem com os impactos da erosão costeira,
com efeitos mais percebidos na Praia de Lagoinha, que corresponde a 1 km
da orla e tem ocupação mais intensa da faixa de areia.
De acordo com a gestão, a situação enfrentada atualmente na Praia da
Lagoinha pode se estender até o fim de fevereiro, antes da mudança da
dinâmica dos ventos com o fim do verão.
A Prefeitura informa que o fenômeno natural das ressacas do mar é
acentuado entre o fim de dezembro e o início de fevereiro, na época em
que as marés de sizígia (marés mais altas nos períodos de Lua Nova e Lua
Cheia) causam maiores danos estruturais.
Com a estrutura das barracas de praia comprometidas, instabilidade e
aspecto de degradação na orla, a ameaça é de declínio no turismo,
complementa a gestão.
As ações de contingência e medidas emergenciais adotadas foram:
- Instalação de pedras e sacos de areia para conter o avanço das ondas no período de ressacas
- Isolamento de áreas críticas
pelo alto risco de desabamento da encosta e de estruturas atingidas,
entre os trechos onde ficam as “bicas” (fontes naturais na beira da
praia) e as barracas.
- Alerta de perigo aos banhistas pela exposição às pedras e entulhos na área de banho por conta dos restos de muros e de pavimentação destruídos pelas ondas
Conforme trabalhadores da região, a Prefeitura tem auxiliado com a
disponibilização de caçambas, tratores e sacos de areia para as medidas
emergenciais, também mantendo contato com os estabelecimentos afetados
pelas marés altas.
De acordo com a Secretaria do Meio Ambiente de Paraipaba, uma comissão
de enfrentamento à ressaca do mar foi criada pela prefeita Ariana Aquino
(Republicanos), envolvendo também a Secretaria do Turismo. A comissão
busca dar suporte às famílias afetadas e levantar estudos para amenizar
impactos de episódios futuros.