Ainda mais quando as projeções indicam uma votação acirrada, como é o
caso da disputa eleitoral pelo Governo do Ceará em 2026, que vem sendo
polarizada pelo governador Elmano de Freitas (PT), pré-candidato à reeleição, e o ex-ministro Ciro Gomes (PSDB), principal cotado para à pré-candidatura de oposição.
A capilaridade das lideranças vinculadas aos partidos menores em uma
eleição "muito municipalizada" como a estadual é o primeiro trunfo
destas siglas, aponta a cientista política Cleris Albuquerque. "Muitas
vezes aquele partido pequeno, ele tem uma liderança local daquele
município lá bem afastado, que pode ser importante e ajudar numa
coligação", afirma.
São ex-prefeitos, vereadores, presidentes de câmaras municipais,
entre outras figuras que "podem fazer a diferença naquela cidade". "A
gente tem que deixar sempre em mente que não é apenas a figura do
prefeito que é puxador de votos em cidades estado a fora. Existem muitas
lideranças locais que têm seu protagonismo nessas cidades", diz.
Além disso, muitos destes partidos considerados pequenos a nível
nacional, tem um tamanho bem maior a nível local. É o caso de legendas
que, apesar de bancadas enxutas na Câmara dos Deputados, conquistaram
mais cadeiras do que partidos maiores nas câmaras municipais de cidades
espalhadas pelo Ceará, incluindo Fortaleza, nas eleições de 2024.
E que, agora, correm para montar as chapas para concorrer aos cargos
de deputado estadual e de federal. "É o (candidato a) deputado que leva o
nome do governador, o nome do senador, mas quando o (candidato a)
deputado chega na região é com o prefeito que ele vai tratar, é com o
vereador que ele vai tratar e quem são esses nomes? Não necessariamente
de partidos mais robustos, mas por vezes de legendas menores", pontua a
professora de Teoria Política da Universidade Estadual do Ceará,
Monalisa Torres.
A importância destes partidos, portanto, passa pela "capacidade de
infiltração nesses lugares, de capilaridade dessa influência, inclusive
na capacidade de organizar e articular votação", acrescenta.
De olho nesse papel estratégico dos partidos menores, as
pré-candidaturas ao Governo do Ceará se mobilizam para atrair as
legendas, inclusive com mudanças no comando de diretórios estaduais para
ficarem alinhados com o lado escolhido.
Foi o caso do Democracia Cristã, que em janeiro passou por uma troca:
antes ocupada por Robson Leite, aliado do ex-prefeito do Eusébio,
Acilon Gonçalves (PSB), à presidência agora ficou a cargo de Sérgio
Onofre, ligado ao deputado federal Danilo Forte (União). Na sequência, o
partido anunciou apoio a Ciro Gomes para o Palácio da Abolição —
alinhamento já anunciado pelo pré-candidato à presidência da República, Aldo Rebelo (DC).
De qual lado os partidos menores vão ficar?
Faltando pouco mais de sete meses para a data da eleição de 2026,
muitos partidos pequenos ainda estão definindo quem irão apoiar nesta
campanha eleitoral no Ceará.
Entre aqueles que já anunciaram apoio está o próprio DC e o Cidadania
— este último, apesar de ter superado a cláusula de barreira em 2022,
conta hoje com apenas 5 deputados federais. Ambos devem ficar ao lado da
pré-candidatura da oposição, que ainda não teve o nome de Ciro Gomes
confirmado.
Em publicação no Instagram, o presidente do Cidadania no Ceará,
Alexandre Pereira, declarou apoio ao ex-ministro. "Declaro meu apoio à
pré-candidatura de Ciro Gomes ao Governo do Estado. O Ceará está pronto
para viver uma nova etapa da sua história: com coragem para mudar,
competência para governar e sensibilidade para cuidar das pessoas, Ciro é
sem dúvidas, a melhor opção", diz.
Ainda do lado opositor, o presidente do Agir Ceará, Carlos Kleber,
afirma que está com "a conversa mais adiantada" com Ciro Gomes, mas que o
partido "não está 100% definido ainda".
Ao lado de Elmano de Freitas (PT), estão confirmadas as duas siglas
que integram a federação "Brasil da Esperança": PV e PCdoB, ambas com
pequena representação na Câmara dos Deputados — são 9 e 4 deputados
federais, respectivamente. Ao PontoPoder, por nota, o Partido
Verde informou que está "plenamente alinhado ao Governador Elmano de
Freitas e apoiará, incondicionalmente, sua reeleição". O presidente
estadual do PCdoB, Luís Carlos Paes, também foi indagado sobre 2026, mas
não houve retorno.
Outros partidos que integram hoje a base aliada ao Governo Elmano de
Freitas dizem existir uma tendência a seguir junto ao governador para a
disputa eleitoral de 2026, mas reforçam que o apoio ainda está em
negociação. É o caso do PRD, presidido pelo vereador de Fortaleza Michel
Lins (PRD).
"Nós estamos na base do governador hoje, alinhados em estarmos na
base da reeleição do governador, obviamente que isso também passa por
esse fortalecimento desse projeto do PRD", disse Lins, em referência a
meta do partido em eleger, pelo menos, um deputado federal no Ceará. "É
importante que ele nos ajude a fortalecer isso, parceria é uma mão de
via dupla".
Presidente do Mobiliza no Ceará, Reginaldo Costa Moreira afirma que a
preocupação do partido agora é "montar as chapas de deputado estadual e
deputado federal". "Nós não sentamos com nenhum dos lados, nem com a
oposição, nem com o Governo", relata. Apesar disso, ele explica que
existe uma "tendência maior" em apoiar Elmano.
"Como o nosso deputado (estadual Tomaz Holanda) está na base do
governo e a maioria dos nossos pré-candidatos são muito ligados a tanto a
Prefeitura como o Governo do Estado, há uma tendência maior com relação
à questão da gente ir com o PT no próximo pleito", afirma.
Ricardo Valente Filho, que acaba de assumir a presidência estadual do
partido O Democrata (antigo Partido da Mulher Brasileira), explica que o
posicionamento do partido "não está fechado ainda". "Nós ainda estamos
em situação de negociação com as chapas e com os outros diretórios para
poder saber com quem que a gente vai caminhar nessa eleição de 2026",
disse.
Ele assumiu o partido no lugar de Liliane Araújo, secretária
Executiva das Mulheres no Governo do Ceará, que, ao renunciar ao cargo,
reafirmou "compromisso" de "trabalhar ativamente para a reeleição do
governador Elmano de Freitas e do presidente Lula".
Para Rodrigo Nogueira, presidente do Avante no Ceará, a indefinição
da chapa nos dois lados dificulta a escolha sobre quem apoiar. "A gente
não sabe nem quem são os candidatos ainda. Tá essa confusão do governo
do Camilo, do Elmano, quem é que vai, quem é que não vai. E do lado da
oposição, o Ciro está se pondo como candidato, mas ainda não afiançou",
afirma.
Por isso, a decisão do Avante deve ficar mais para frente. "Quando a
gente tiver com as chapas montadas e os candidatos definidos, a gente
vai decidir que lado se identifica mais com o partido e vamos apoiar.
Sem dúvida alguma, neutro não ficaremos", garante.
Critérios para escolha da pré-candidatura ao Governo
A definição sobre o apoio a uma das pré-candidaturas ao Governo do
Ceará parece passar, para os dirigentes partidários entrevistados pelo PontoPoder, por um mesmo ponto: o fortalecimento das chapas proporcionais, principalmente aquela que irá concorrer à Câmara dos Deputados.
Michel Lins explica, por exemplo, que essa é uma exigência da própria
Executiva nacional do PRD, que "quer que o partido tenha um deputado
federal no Ceará, porque é o que fortalece o partido em todo o Brasil".
"A gente colocou projetos que a gente pensa para o estado do Ceará, que o
governador acatou, mas é importante também que haja esse fortalecimento
dessa parceria para que a gente fortaleça a construção, em especial de
deputado federal, aqui no Ceará", pontua Lins.
Carlos Kleber pontua que, "evidentemente" irá pesar "quem apresenta o
melhor projeto" para o Ceará, "mas um dos pontos principais também é a
ajuda que (o pré-candidato ao Governo) dá a nossa montagem de chapa.
(...) Essa ajuda na montagem da chapa é que vai definir", ressalta.
Ricardo Valente Filho, do partido O Democrata, pontuou que também
deve pesar o "espaço" dado para pautas prioritárias do partido. Entre as
bandeiras citadas por ele, estão questões como acessibilidade e a pauta
das pessoas com Transtorno do Espectro Autista.
"São pautas como essas que a gente precisa ter o espaço para poder
trabalhar e poder defender junto ao governo ou junto a oposição. Aquele
que trouxer mais flexibilidade para gente no cumprimento dessas pautas, a
gente vai se abraçar e vai caminhar junto com eles", afirma.
A cientista política Cleris Albuquerque pontua a importância para os
partidos menores em fazer parte das coligações majoritárias. "Primeiro,
porque eles são partidos com bastante limitação estrutural, se a gente
pensar bem. E segundo, eles dependem dessas alianças políticas com
partidos maiores para que eles possam sobreviver politicamente",
defende.
Ela reforça que isso reverte também para futuro apoio em eleições
municipais, tanto para prefeito como para câmaras municipais, além da
possibilidade de conquistar cargos na gestão pública — no caso de
vitória do pré-candidato apoiado.
Capilaridade no estado e potencial de votos
Os partidos chegam para a mesa de negociação com o que oferecer às
candidaturas majoritárias. A principal delas sendo "a capacidade de
mobilização eleitoral que algumas lideranças exercem em algumas
regiões", resume Monalisa Torres. "Em algumas regiões, têm lideranças
que conseguem ter uma influência que abrange e que conecta com outras
lideranças menores"
O que, claro, se converte em votos para os pré-candidatos ao Governo
do Ceará. "Esses partidos menores, considerando que têm o seu potencial
de articulação, de posicionamento e até mesmo de lideranças locais que
estão posicionadas nesses municípios menores, eles podem ser
diferenciais e até, porque não, decisivos na disputa política de 2026",
acrescenta Cleris Albuquerque.
Os dirigentes partidários também reforçam esse potencial de votos das
legendas, com capilaridade nas cidades cearenses. "Por exemplo, se a
eleição fosse hoje, eu teria um time para colocar na rua. E eu acredito
que hoje 70% dos partidos não têm esse time para colocar na rua",
garante Reginaldo Costa Moreira, do Mobiliza.
Ele reforça ainda os votos do partido para as eleições proporcionais —
e que poderiam ser convertidos para a pré-candidatura majoritária.
"Como vai ser uma eleição muito polarizada, o Mobiliza pode ser um fator
decisivo com relação a essa questão, porque nós vamos levar voto para
chapa", diz.
Michel Lins faz uma referência às últimas eleições em Fortaleza, quando o PRD conquistou três cadeiras na Câmara de Vereadores.
"O PRD teve mais votos do que o União Brasil na eleição passada, teve
mais votos do que o PSDB na eleição passada, teve mais votos do que o
MDB na eleição passada. Então, qual é o partido pequeno, de fato? (...)
Vamos para os resultados: são 109 mil votos de Fortaleza. Nós só
perdemos para o PDT, que era o maior partido, o PL e o PSD", detalha.
Rodrigo Nogueira, do Avante, faz comparação semelhante: partido
também fez uma bancada de três vereadores em Fortaleza e conquistou
pouco mais de 85,5 mil votos na capital. O resultado positivo para a
câmara municipal em 2024 se estendeu a outros municípios.
"A gente tem hoje a presidência da Câmara do Iguatu, com o Diego
(Felipe). Temos lá três vereadores no Iguatu, temos vereadores em
Paracuru, Limoeiro, enfim. É um partido que não é gigante, mas também tá
longe de ser pequeno", afirma.
"E a votação no final das contas é o que vai mais importar. A
capacidade que que essas lideranças têm de organizar isso. (...) Se a
gente olha na filigrana, lá na no fim da linha, na ponta, quem é que
articula essa votação, quem é que vai conversar, quem é que monta
palanque, quem é que media a aplicação de um recurso e mostra 'olha,
população, vocês aqui cidadãos de tal região, de tal bairro, de tal
município, isso aqui foi conseguido junto com o deputado fulano de tal,
com a liderança fulano de tal'. Tem esse papel que eu acho muito
importante".
Autonomia nos partidos pequenos
Monalisa Torres pontua que os partidos pequenos são espaços
importantes para lideranças políticas em ascensão saírem da "sombra" de
nomes já consolidados no cenário. Ela relembra a saída do senador Cid
Gomes do PSDB — no período em que os irmãos Ferreira Gomes se afastavam
de Tasso Jereissati (PSDB) — e a ida para o PPS, partido no qual Cid se reelegeria prefeito de Sobral no ano 2000.
"Qual o objetivo da mudança? Agora eu estou num território que eu
tenho mais autonomia e condições de me tornar líder, eu não estou mais
na sombra de uma outra figura que eu nunca conseguirei superar nessa
legenda", explica.
Ela cita exemplos mais recentes, como o do ex-prefeito de Eusébio,
Acilon Gonçalves (PSB), no período em que presidiu o PL no Ceará,
principalmente antes do partido 'inflar' com a ida do ex-presidente Jair
Bolsonaro (PL) para a legenda em 2021.
"Era uma legenda menor, não muito expressiva do ponto de vista do
Congresso Nacional, mas era um espaço onde ele conseguiu montar uma
rede, montar um grupo político e ali ser o líder da região do litoral
próximo a Fortaleza", lembra a professora.
Nesses espaços, essas lideranças que podem ainda não ter uma
relevância estadual, constroem "um peso, uma força e uma importância" em
determinada região do Estado e tendo "mais espaço e liberdade para elas
exercerem esse papel de liderança".
"Algumas lideranças que pretendem uma certa autonomia, uma certa
independência, uma certa capacidade de ampliar sua influência, de muitas
vezes saírem de partidos maiores e migram para outros menores, mas
pensando nisso, nessa maior autonomia", pontua.
Pré-candidaturas próprias ao Governo
Apesar da maior parte das legendas — não só pequenas, mas também as
maiores — orbitarem as pré-candidaturas de Elmano de Freitas e Ciro
Gomes, alguns partidos decidem lançar as próprias pré-candidaturas ao
Governo do Ceará.
É o caso do Novo, que tem o senador Eduardo Girão (Novo) como pré-candidato ao Palácio da Abolição.
Com apenas 5 deputados federais, a legenda fica fora dos critérios para
receber o Fundo Partidário e recebe apenas a divisão de 2% do Fundo
Eleitoral, repassado a todos os partidos em situação regular com a
Justiça Eleitoral.
A federação formada por Psol e Rede também tem pré-candidatura ao Governo do Ceará. O professor Jarir Pereira (Psol) foi lançado pré-candidato
em dezembro e, por enquanto, é o único nome apresentado. Porta-voz da
Rede Sustentabilidade no Ceará, Wesley Diógenes explica que o partido
não deve apresentar uma pré-candidatura própria e deve compor a chapa
com uma pré-candidatura a vice ou ao Senado.
"Tenho defendido também nessa eleição de 2026, que a federação
apresente uma candidatura ao Governo no primeiro turno para que possa
colocar em pauta realmente o programa da nossa federação, as ideias que
tanto a Rede quanto o Psol defendem para o governo do Estado do pro
Senado. (...) A gente quer apresentar um programa realmente que tem a
ver com as nossas bandeiras, com as bandeiras da Rede, com as bandeiras
do PSOL para a população cearense no primeiro turno", explica.
Em 2022, partidos sem representação no Congresso Nacional também
lançaram candidaturas ao Governo do Ceará. É o caso de Chico Malta, do
PCB; de Serley Leal, da UP; e de Zé Batista, do PSTU
(Diário do Nordeste)