O gerente bancário de 38 anos preso no dia 22 de abril em Ipaumirim, no interior do Ceará, por sacar dinheiro e fazer empréstimos no nome de clientes idosos e já falecidos, está envolvido em um esquema de fraudes que roubou pelo menos R$ 200,9 mil de contas bancárias. A
denúncia foi feita pelo Banco Bradesco e investigada pela Polícia Civil
do Ceará (PCCE), que indiciou, na última terça-feira (28), o
funcionário identificado como Francisco Emanuel Lourenço pelo crime de
furto qualificado mediante fraude e abuso de confiança.
O esquema ilícito já durava pelo menos três meses,
segundo relatórios da instituição bancária, que pediu uma instauração de
inquérito policial à Delegacia Municipal de Ipaumirim, conforme
documentos aos quais o Diário do Nordeste obteve acesso.
De acordo com o indiciamento, há um "número ainda maior de vítimas", que estão sendo compiladas pelo banco.
O caso foi investigado a partir de informações colhidas pelo
Departamento de Inteligência da Polícia (DIP) e confirmadas pelo
Departamento de Segurança Corporativa do Banco Bradesco.
"De acordo com as informações levantadas no curso das investigações, o
suspeito valia-se de sua função em uma instituição financeira para
fraudar operações bancárias, reativando contas de pessoas idosas e
outras já falecidas. Em seguida, efetuava empréstimos em nome das
vítimas e sacava os valores, obtendo, assim, vantagens financeiras
indevidas", informou a PCCE no dia da prisão.
A captura do suspeito ocorreu no mesmo dia em que mais uma suposta
fraude financeira se deu na agência bancária do Bradesco em Ipaumirim.
Segundo relatório da instituição, no dia 22 de abril, Francisco Emanuel fez dois saques na conta de um idoso de 94 anos já falecido, totalizando R$ 3 mil.
O fato motivou sua prisão em flagrante,
convertida em preventiva no dia seguinte após audiência de custódia,
pela gravidade da sequência de delitos. Ele foi recolhido na Unidade
Prisional de Icó.
No dia da captura, ainda foram apreendidos R$ 7.751 e 21 cartões, com a titularidade em diversos nomes.
O Diário do Nordeste solicitou um posicionamento à defesa do bancário, mas não obteve retorno até a publicação desta matéria.
Bancário desligava câmeras para fazer saques
Segundo a investigação, as câmeras de segurança de onde ficam os caixas de saque eletrônico da agência eram desligadas, para que os saques fraudulentos não fossem flagrados pelas imagens.
"[...] As gravações foram interrompidas e retomadas durante
intervalos de 40 (quarenta) e 45 (quarenta e cinco) minutos antes ou
após as operações, o que indica a possibilidade de desligamento manual
das câmeras de segurança do local", informou a defesa do Banco
Bradesco.
Com suas credenciais de bancário, Emanuel é suspeito de ter roubado ao menos R$ 84.400.
Entre fevereiro e março, ele recebeu 50 depósitos em sua conta pessoal,
totalizando R$ 72,4 mil, valor incompatível com seu salário de
bancário, conforme a Polícia Civil.
Outro ponto levantou suspeitas foi o fato de Francisco Emanuel ter acessado um total de 993 contas bancárias, e, destas, ter bloqueado 13 poupanças.
Já entre os dias 6 e 10 de abril, foram identificados seis saques da
conta poupança de uma idosa, resultando em prejuízo de R$ 9 mil. Ele
teria cadastrado falsamente a biometria da cliente no dia 2 de abril.
Uma sequência de 49 saques da conta de uma vítima deixou um prejuízo de R$ 116,5 mil.
As operações foram feitas após as credenciais de um outro gerente da
mesma agência terem pedido a entrega de um cartão de débito. A
participação desse funcionário não é descrita no inquérito.
Entretanto, foi essa suspeita que fez o Bradesco tentar consultar o
videomonitoramento da agência e perceber que havia inconsistências na
gravações. "Em razão da similaridade das movimentações financeiras
suspeitas, o Requerente tentou consultar as imagens de câmeras de
segurança do interior da agência bancária onde ocorreram os saques
mencionados", disse a instituição bancária.
Fraude e abuso de confiança
No documento que indiciou o bancário por furto qualificado, a
Delegacia de Ipaumirim destacou que ele abusou da confiança dos clientes
e pontuou que a ele usou a fraude como "meio ardiloso para consumar a
subtração dos valores".
Segundo o indiciamento, o "investigado não era um mero funcionário;
ele exercia o cargo de gerente da agência, posição que lhe conferia não
apenas a confiança da instituição financeira, mas também acesso
privilegiado a informações sigilosas dos clientes, senhas de serviço e
sistemas operacionais".
Ao reativar contas de pessoas falecidas ou de idosos sem o
conhecimento ou consentimento destes, Francisco Emanuel induziu o
sistema bancário a erro, fazendo-o acreditar na legitimidade das
operações. A contratação de empréstimos e os saques subsequentes só
foram possíveis porque o agente manipulou os registros e procedimentos
internos, utilizando um artifício para enganar os mecanismos de controle
da instituição e, assim, subtrair o dinheiro
A Polícia Civil pediu à Justiça a decretação do bloqueio cautelar de todos os bens e valores de Francisco Emanuel,
além da decretação da quebra do sigilo bancário referente aos últimos
12 meses. As medidas se fazem necessárias para que os valores roubados
sejam rastreados, "para garantir o futuro ressarcimento das vítimas".
(Diário do Nordeste)