O adolescente de 15 anos que foi internado depois de tomar uma mistura nociva de bebida alcoólica e medicamentos
segue se recuperando na UTI de um hospital, na capital cearense. O
incidente foi registrado em uma escola particular do bairro Papicu, em
Fortaleza, na quinta-feira (21), quando um colega de sala do menino
ofereceu o preparado.
A mãe da vítima contou ao Diário do Nordeste que o líquido foi ofertado por outro estudante com uma promessa de “desestressar” o filho, que estava passando por um processo de exclusão e bullying na escola.
Após quase 48 horas desacordado no hospital, o menino pôde contar a
própria versão para a família. A mãe e o adolescente não serão
identificados para preservar a identidade do menor de idade.
“Ele disse que o garoto estava dando para ele uma coisa para fazer
ele se sentir bem, que ia fazer ele esquecer os problemas. Foi uma coisa
direcionada para que ele tomasse, no intuito de, entre aspas, ajudá-lo nesse processo de bullying”, conta a mãe.
Segundo ela, o filho começou a reclamar das interações com colegas de
sala há algumas semanas. O menino foi apontado por colegas como
“dedo-duro” injustamente, conforme a mãe, após a informação de que um
grupo estaria usando vape na escola ter chegado à coordenação.
“Ele dizia: ‘mãe, tá muito ruim no colégio. Os meninos deixaram de
falar comigo, tá todo mundo me excluindo. Só as meninas que falam
comigo, mas os meninos não falam, me muda de colégio, ninguém quer mais
ser meu amigo’”, narra.
Na última semana, um dos garotos teria se aproximado da vítima e oferecido um remédio, afirmando que a substância ia ajudá-lo a lidar com o estresse e fazer com esquecesse que estava sendo ignorado pelos colegas.
“Quando fui buscar ele no colégio, ele estava com uma fala estranha,
arrastada. Eu perguntei o que ele tinha, mas ele disse que era sono”,
disse. O filho só teria admitido que aceitou o remédio dias depois,
quando já estava na UTI.
Na quinta-feira, o adolescente levou a mistura num frasco de vidro, prometendo que os efeitos seriam ainda melhores.
“Ele disse que o menino ficou insistindo, até que ele resolveu tomar.
‘Mas tu tem que tomar tudo, tem que ser a dose toda porque senão não
vai fazer efeito’. Ele não conseguiu tomar tudo, graças a Jesus ele não
conseguiu tomar”, relata.
Aluno ficou desorientado e não reconheceu a mãe
Quando foi chamada na escola para buscar o filho porque ele estava com sinais de embriaguez, a mãe ficou surpresa.
“Como assim? 8h15 da manhã? Eu não bebo, meu marido não bebe, a
tolerância é zero para bebida lá em casa. Quando eu ia deixar ele nas
festinhas dizia que não podia bebida, para não aceitar nada de ninguém.
Como é que eu ia dizer um negócio desse na porta do colégio?”, conta.
“Quando eu chego no colégio para buscar ele, não é uma coisa de
bebida apenas. Ele estava com aquele olhar distante. Quando você chamava
ele respondia, mas desorientado, não me reconheceu, não conseguia andar
sozinho. Eu falei pro meu marido pra ir pro hospital, não tava normal”,
relata.
No hospital, os médicos informaram que provavelmente o adolescente tinha ingerido outras substâncias além do álcool.
O pai do menino voltou ao colégio para tentar descobrir o que
ocorreu. Foi quando colegas de sala entregaram um papel que teriam
encontrado no lixo com uma lista de todos os remédios misturados.
Caso é investigado pela polícia
O caso está sendo apurado pela Delegacia da Criança e do Adolescente (DCA),
conforme a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS). Em
nota, a pasta informou que a unidade especializada realiza a escuta de
partes envolvidas para tentar elucidar o caso.
“Se ele fez com a intenção de matar... , não sei. O fato está sendo
tratado na delegacia como homicídio culposo (quando não há intenção de
matar). Não é uma acusação pessoal minha”, disse a mãe da vítima.
A reportagem procurou a SSPDS para saber qual tipo de ato infracional
está sendo investigado, mas a Pasta informou que não podia repassar
mais informações para não prejudicar a investigação.
Recuperação física e psicológica
Após o choque inicial, a família está focada na recuperação do
menino. A mãe afirma que o adolescente já está saindo da cama, comendo e
caminhando no corredor do hospital.
Ele deve ficar internado até realizar uma ressonância e voltar a uma
frequência cardíaca “aceitável” para interromper as medicações.
“O que eu preciso fazer agora é dar o suporte psicológico para ele.
Já chamei uma psicóloga que veio aqui no hospital, para fortalecer
qualquer que seja essa questão que ele esteja passando”, disse.
(Diário do Nordeste)