Nos bastidores, a expectativa é de que o evento sirva também como
palco político para o veto presidencial ao texto. Mesmo durante o
recesso parlamentar, o líder do PT na Câmara, Lindbergh Farias (PT-RJ),
convocou uma coletiva para tratar do assunto, na quarta-feira (7), e
afirmou que o presidente deve aproveitar a cerimônia para decidir sobre a
sanção do projeto.
Ele declarou ainda que o governo deve optar pelo veto total ao texto.
Segundo Lindbergh, a base governista pretende intensificar a
mobilização política para manter a decisão presidencial e atuar na
reversão de votos no Congresso, calculando que será necessário reverter
ao menos 34 votos.
O chefe do Executivo já havia avisado que vetaria o texto, defendendo
que a redução de penas incentivaria novas aventuras golpistas. Se
confirmado, o veto deve marcar simbolicamente o 8 de Janeiro de 2026.
Ainda assim, o tema promete seguir no centro do debate político, com a
possibilidade de o Congresso analisar a derrubada do veto nas próximas
semanas.
Da anistia à dosimetria
O ano legislativo de 2025 foi marcado pelo avanço do debate sobre
punições aos envolvidos no 8 de Janeiro, especialmente após o avanço do
julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), atualmente preso em uma
cela na Superintendência da Polícia Federal, em Brasília, onde cumpre
pena de 27 anos por golpe de Estado e outros crimes.
Aliados passaram a defender uma anistia “geral, ampla e irrestrita”, mas a proposta não encontrou respaldo formal no Congresso.
O que avançou foi um projeto que tratava da redução de penas, posteriormente batizado de PL da dosimetria.
Ainda assim, durante a tramitação, o texto passou a ser visto por
parlamentares e especialistas como um “contrabando legislativo”, por
incorporar emendas sem pertinência temática com o objetivo original.
Nos bastidores do Congresso Nacional, a proposta acabou unindo
críticas da esquerda e também da direita. A leitura predominante era de
que o texto poderia abrir brechas para reduzir penas de crimes comuns e
até beneficiar integrantes do crime organizado, num momento em que o
próprio Congresso cobra rigor no combate à criminalidade.
A madrugada da Câmara
Antes de ir ao plenário, o projeto passou por uma intensa rodada de
negociações. O relator na Câmara, Paulinho da Força (Solidariedade-SP),
se reuniu com bancadas de diferentes partidos para tentar construir um
texto de consenso.
A votação ocorreu na madrugada de 10 de dezembro, movimento
classificado por aliados do governo como uma decisão “na calada da
noite”. A sessão terminou por volta das 4h, com participação de 441
deputados. O placar final foi de 291 votos favoráveis, 148 contrários e
uma abstenção.
Entre os deputados cearenses, a maioria votou contra.
Foram 11 votos contrários, 5 favoráveis e 6 ausências. O líder do
governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE), foi um dos que rejeitaram o
texto. Durante a votação, publicou nas redes sociais: “É uma vergonha
nacional que tenta normalizar o inaceitável, fortalecer a impunidade e
enfraquecer as instituições que protegem o Estado Democrático de
Direito”.
Na oposição, o clima foi de comemoração. O deputado André Fernandes
(PL-CE) compartilhou vídeo no plenário e classificou o resultado como
“vitória”.
Desgaste e reação política
Nos bastidores de Brasília, a aprovação na Câmara trouxe a percepção
de que o Congresso estaria disposto a aliviar punições para crimes
graves, o que gerou reação de senadores e acendeu o alerta no Senado.
No Senado, a proposta, da forma como saiu da Câmara, ampliava
benefícios para além dos condenados pelos atos golpistas, o que
inviabilizaria a tramitação sem ajustes.
Essa reação também é analisada por especialistas em direito penal.
Para o professor Tédney Moreira, do Ibmec Brasília, a aprovação do PL da
dosimetria expõe um problema de representação política e um
distanciamento entre o Parlamento e a posição manifestada por parte da
sociedade.
Segundo o especialista, o projeto também é indicativo de um problema
estrutural na atuação dos partidos. “Nós estamos falando de um projeto
de lei que é bastante sintomático de como é necessário repensar a
representação política dos nossos partidários, tendo em vista que há uma
ampla maioria na sociedade brasileira contrária à proposta de redução e
mesmo de perdão das penas aos condenados pelo 8 de janeiro”.
O professor avalia ainda que o avanço do projeto expõe uma tensão
entre os Poderes. Para ele, trata-se de “a demonstração de uma
instabilidade nas relações entre Judiciário e Legislativo e a indicação
de divergências políticas quanto aos fatos do 8 de janeiro”, embora
reconheça que “o Congresso tem, contudo, autonomia para avaliar a
necessidade de sua aprovação, se assim compreender”.
Sobre os efeitos institucionais, Tédney Moreira alerta para o
precedente que pode ser criado. “Seria a mensagem política de que crimes
contra a ordem democrática são tolerados, a depender do grupo político
que os conduza”, afirma, acrescentando que “a aprovação do PL
representaria um aceno favorável para rupturas democráticas futuras”.
Ao tratar do argumento de que houve “excessos penais” nas decisões do
Supremo Tribunal Federal, o especialista é direto. “Assim como seria um
absurdo pretender que o Judiciário, sozinho, legisle, não cabe ao
Legislativo julgar, nem corrigir decisões judiciais, em respeito à
independência dos Poderes”. Para ele, “a fundamentação do PL da Anistia é
política, não técnica”.
O freio no Senado
No Senado, o relator Esperidião Amin (PP-SC) reconheceu publicamente
os riscos do texto vindo da Câmara e também passou a tratar o projeto
como um “contrabando”. Segundo ele, qualquer dispositivo que
beneficiasse crimes não diretamente ligados aos atos golpistas tornaria a
proposta inviável.
A matéria foi debatida intensamente na Comissão de Constituição e
Justiça (CCJ) e chegou ao plenário no dia 17 de dezembro. Para evitar
que o projeto retornasse à Câmara, Amin acatou uma emenda do senador
Sergio Moro (União-PR) que limitou a redução de penas exclusivamente aos
envolvidos nos atos de 8 de Janeiro. A mudança foi classificada como
emenda de redação, e não de mérito.
O texto foi aprovado no plenário por 48 votos a favor, 25 contrários e uma abstenção, e seguiu para sanção presidencial.
O voto dos senadores do Ceará
Na CCJ, o senador Cid Gomes (PSB-CE) não registrou voto. No plenário,
ele votou a favor da proposta, assim como o senador Eduardo Girão
(Novo-CE). A única senadora cearense a votar contra a proposta foi
Augusta Brito (PT-CE).
Após a votação, Eduardo Girão afirmou que essa “não é uma questão de
direita, de esquerda, de quem é contra governo ou a favor de governo, é
uma questão de humanidade”.
(Diário do Nordeste)