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A advogada está presa desde janeiro deste ano em uma sala do Comando-Maior
da Polícia Militar do Rio Grande do Norte - onde ela já estava quando
foi cumprido um novo mandado de prisão preventiva contra ela, em
decorrência da denúncia de extorsão. Em 22 de maio deste ano, a Justiça
negou um pedido de liberdade da advogada.
A investigação policial mostrou como Paloma procurou o deputado e
assessores por várias vezes, via WhatsApp, cobrando os valores por meio
de ameaças. “Não sei se pra vocês vale um fuzil ou 9 milímetro e
.40 basta”, pergunta a advogado, em um trecho da conversa, referindo-se a
calibres de armas de fogo.
A investigação começou após o deputado Simão Pedro e um assessor dele, Sebastião Vieira de Negreiros Neto, registrarem um boletim de ocorrência,
em novembro de 2025, contra uma mulher chamada Bárbara Pinheiro,
alegando que ela havia o ameaçado após um encontro no gabinete dele, na
Assembleia Legislativa do Ceará (Alece), em 23 de outubro de 2025.
Simão disse que só tinha visto Bárbara uma vez, no gabinete, e a
conhecia apenas “de vista” devido a questões políticas no município de
Milhã, no interior do Ceará. Simão alegou que Bárbara tentou corrompê-lo.
Posteriormente, Bárbara acionou Paloma para cobrar o suposto valor que o
político devia a ela, o que levou às ameaças da advogada.
Bárbara foi presa no mesmo dia que Paloma, em 23 de janeiro, mas, diferente da advogada, ela foi solta no fim do mês de março. A defesa de Bárbara nega as acusações
e aponta que, na verdade, ela e o deputado já se conheciam há mais
tempo, já tinham tido outros encontros e que, na última visita à
Assembleia, eles trataram de emendas parlamentares.
Por meio de nota, o advogado de defesa de Paloma, José Hélio Arruda Barroso, defendeu a soltura da mulher, que tem um filho de 8 meses com Síndrome de Down, que "necessita de cuidados permanentes e especializados".
O advogado também afirmou que ela jamais "praticou qualquer crime de
extorsão contra o deputado estadual Simão Pedro e que todo contato com
Bárbara ocorreu "profissionalmente na cobrança de valores que esta
alegava possuir a receber do parlamentar"
No processo, ao qual o g1 teve
acesso, há imagens de outros encontros do deputado com Bárbara, em
datas anteriores ao encontro que ele afirmou ter sido o único. A
reportagem também verificou que houve o pagamento de recursos, na mesma quantia referida por Bárbara, ao município de Orós - base política do deputado.
O g1 procurou
Pedro Simão para comentar o caso e questionou se o dinheiro enviado ao
município era o mesmo citado pela mulher. Até o momento, não houve
resposta.
Mensagens de advogada para assessores de deputado cobrando supostos valores devidos — Foto: Reprodução
Em fevereiro de 2026, o Ministério Público do Ceará (MPCE) denunciou Paloma Gurgel e Bárbara Pinheiro pelos crimes de extorsão e organização criminosa.
O processo, porém, voltou para a Polícia Civil, que está realizando
novas diligências para obter mais informações, a pedido do MP.
Por meio de nota, a defesa de Paloma afirmou que ela jamais "praticou
qualquer crime de extorsão contra o deputado estadual Simão Pedro e que
todo contato com Bárbara ocorreu "profissionalmente na cobrança de
valores que esta alegava possuir a receber do parlamentar".
Em novembro de 2025, o deputado Simão Pedro registrou um boletim de
ocorrência contra Bárbara e o companheiro dela, que é advogado. O
político afirmava que o casal o chantageava "mediante mentiras, fazendo falsas acusações e realizando pressão psicológica” para forçá-lo a pagar a quantia de R$ 121 mil.
Simão disse que as ameaças começaram em novembro, por parte da advogada
Paloma Gurgel, mas que em outubro encontrou Bárbara Pinheiro em seu
gabinete na Assembleia Legislativa, ocasião na qual ela teria tentado
lhe “corromper”. Ele garantiu ter se recusado a continuar a conversa e
expulsado a mulher.
No dia 13 de novembro, antes da denúncia do deputado, a própria Bárbara
registrou um boletim de ocorrência contra o parlamentar. No documento,
ela informou que estava no gabinete do parlamentar para cobrá-lo por um
serviço realizado.
No seu boletim de ocorrência, Simão Pedro cita o BO registrado por Bárbara, afirmando que ele tinha como objetivo aumentar a pressão contra ele e forçá-lo a pagar a quantia exigida.
O político, na ocasião, afirmou que o contato com ela foi “meramente
profissional, de vista, em alguns eventos políticos” ligados ao grupo
oposicionista do município de Milhã.
A defesa de Bárbara anexou, no processo, imagens de um encontro dela
com o deputado, na Assembleia, em abril de 2025, meses antes da reunião
denunciada por ele. Confira na imagem abaixo:
Defesa de acusada afirma que teve outros encontros com deputado — Foto: Reprodução
Bárbara retornou à Assembleia em outra data, na companhia do marido
advogado, mas foi barrada pela segurança do órgão. O deputado afirmou
que, nessa nova visita, eles teriam “confessado” diretamente aos policiais militares que estavam ali para exigir dinheiro de emendas.
Em depoimento, porém, um dos PMs chamados à recepção quando Bárbara foi
barrada narrou que “o casal não falou nada sobre vantagem indevida” e
"não chegou a escutar o casal falar nada sobre facção criminosa ou
emendas parlamentares diretamente”, mas que ela havia informado que a
advogada dela, Paloma Gurgel, havia ligado para o deputado - e ele não
havia gostado.
No boletim de ocorrência, o deputado narrou ainda que, após a visita de
Bárbara à Assembleia em outubro, os assessores dele passaram a receber
mensagens, com ameaças, da advogada Paloma Gurgel. Prints de conversas, entregues à Polícia Civil em um pen-drive por Pedro Simão e por seu principal assessor, mostram as ameaças.
Nas
conversas, Paloma exige o pagamento de dois valores que supostamente o
deputado deveria a Bárbara: uma quantia de R$ 70 mil e outra de R$
51.600. Ela ainda envia uma chave Pix no nome de Bárbara como endereço
de pagamento – o trecho, inclusive, foi usado pelo Ministério Público do
Ceará para acusar Bárbara de extorsão.
Advogada fez referência a morte de ex-prefeito durante cobrança a deputado estadual do Ceará — Foto: Reprodução
Ao não obter resposta, Paloma passou a fazer referências a grupos
criminosos e até mesmo a enviar ao assessor de Simão Pedro reportagens
sobre assassinatos de outros políticos que ocorreram no Brasil. Ela
também diz já ter descoberto onde estuda o filho do deputado e onde vive
a família dele.
“Se
possível dê uma resposta do Pix ou vamos a guerra. To pronta, preparada
e querendo”, disse Paloma em uma mensagem. “Esse valor não deixa o
deputado mais pobre e evita uma dor de cabeça que ele não tem noção. E é
devido né? Combinado não sai caro”, disse em outra mensagem.
O Ministério Público considerou que Paloma “exercia o papel de braço coercitivo e intimidatório da facção” Comando Vermelho. Ela foi presa em uma operação da Polícia Civil no dia 23 de janeiro de 2026, em decorrências das investigações por extorsão. Ela está detida desde então.
A defesa de Bárbara Pinheiro anexou ao processo uma série de provas
relatando que, diferente do que afirmou o deputado em depoimento, os
dois tiveram outros encontros, em outras datas além das explicitadas, e
que trataram de questões relacionadas a emendas.
Primeiro, a defesa afirmou que Bárbara atuou como intermediária de um projeto de formação entre a Escola Superior do Parlamento Cearense (Unipace), da qual Simão Pedro é presidente, e Câmaras municipais no interior do Ceará.
Já em relação à visita de outubro de 2025, que deu origem à toda
acusação, a defesa aponta que, em setembro, uma empresa chamada Aliz Consultoria & Captação, localizada em Fortaleza, teria contratado Bárbara para viabilizar a captação de um recurso financeiro da União, de R$ 500 mil, que estava disponível para ser enviado a um município.
Defesa de acusada anexou prints que mostram contato da ré com deputado e
assessor, informando de valores combinados — Foto: Reprodução
Pedro Simão tem como base política o município de Orós, no interior do
Ceará, no qual ele foi prefeito entre 2013 e 2020. Em 2022, ele
concorreu a deputado estadual e ficou na suplência. Em 2024, ele
concorreu a um terceiro mandato a prefeito de Orós e foi eleito, mas não
chegou a tomar posse.
A deputada estadual Gabriella Aguiar – prima de Simão - foi eleita
vice-prefeita de Fortaleza, e deixou o mandato de deputada. Com isso,
Simão poderia assumir como deputado estadual. Assim, ele renunciou ao
terceiro mandato de prefeito de Orós para ocupar um assento na
Assembleia. No lugar dele, assumiu a vice-prefeita eleita, Tereza Cristina, mãe dele.
Segundo a defesa, quando Bárbara contatou a equipe do deputado para
informar do recurso de R$ 500 mil, ele demonstrou interesse e os
trâmites foram realizados. A reportagem consultou o Portal da
Transparência e constatou que Orós, governado pela mãe de Simão, recebeu
o valor prometido.
Transferência no mesmo valor e no mesmo dia que teriam sido combinados
com deputado consta no Portal da Transparência — Foto: Reprodução
A defesa de Bárbara anexou ao processo um print da conversa de Bárbara
com Sebastião Vieira de Negreiros Neto, um dos principais assessores de
Simão, no qual ela aponta que, no dia 2 de outubro (mesmo mês da visita
dela à Assembleia), os R$ 500 mil tinham sido transferidos pela União para a cidade, com a finalidade de “Piso de Atenção Primária à Saúde”.
A
mensagem de Bárbara, então, foi respondida por um áudio de Sebastião,
que disse: “Oi Barbara, bom dia! Tudo bem, minha amiga? Oh coisa boa
viu? Show de bola. Já avisou o deputado?”
Em outra mensagem, do dia 13 de outubro, Bárbara envia uma mensagem
diretamente ao telefone do deputado Simão Pedro, informando que os R$
500 mil tinham sido depositados e tentando esclarecê-lo acerca de alguma
confusão que ocorreu no processo do recurso. Ele então responde: “Pode ir pessoalmente que falo com você”.
Relação das duas investigadas
Em depoimento à Polícia Civil, o companheiro de Bárbara Pinheiro
afirmou que, ao aceitar os serviços de captação de recursos da empresa
Aliz, o deputado Pedro Simão teria aceitado pagar R$ 50 mil. E
justamente esse valor não teria sido pago, no que a empresa Aliz teria
passado a cobrar Bárbara.
O homem contou que Bárbara procurou a advogada Paloma Gurgel em 12 de
novembro de 2025, após o deputado se recusar a pagar os supostos valores
devidos. No mesmo dia, Bárbara fez um pagamento, via Pix, de R$ 500 a
Paloma.
Inicialmente, Bárbara teria pedido a Paloma que a ajudasse a redigir a
queixa-crime contra Simão após a expulsão dela da Assembleia – e o BO foi feito por Bárbara no dia 13 de novembro.
Já a queixa-crime foi apresentada pelo escritório de advocacia de
Paloma no dia 14 de janeiro de 2026 – nove dias antes da prisão das
duas.
Ao iniciar os contatos os assessores de Simão, porém, Paloma Gurgel
afirma que era “amiga pessoal” do companheiro de Bárbara, por isso iria
“dar essa mãozinha”. Ainda no depoimento, o companheiro de Bárbara disse
que ela pediu que Paloma a ajudasse na cobrança dos valores que teriam
sido combinados.
Não há nos prints anexados ao processo mensagens que indiquem que
Bárbara pediu a Paloma que usasse de ameaça ou de sua influência junto
ao Comando Vermelho – boa parte do contato delas ocorreu por ligação. No
entanto, o Ministério Público destacou que Paloma já era conhecida por
se utilizar “pretexto de ser advogada de membros da facção CV para ameaçar outras pessoas”.
g1