Leonardo e sua equipe conseguiram que um paciente terminal de
insuficiência renal voltasse a ter uma vida normal por nove meses. Antes
do procedimento, ele dependia de sessões frequentes de diálise, andava
de cadeira de rodas e enfrentava diversas restrições no dia a dia.
Há décadas, médicos e pesquisadores tentam fazer funcionar o
transplante de animais em humanos. A técnica é vista como uma possível
solução à escassez de doadores, que deixa milhares de pessoas à espera e
submetidas a uma realidade que rouba a qualidade de vida.
- Para
se ter uma dimensão do problema, o transplante renal é um dos mais
realizados no país. Isso porque de um doador falecido, por exemplo, é
possível atender dois pacientes. Além da possibilidade entre pacientes
vivos. Ainda assim, hoje, 45 mil pessoas estão na fila, segundo dados do
Ministério da Saúde.
Tim comemora após xenotransplante
Para especialistas, a pesquisa marca um dos passos mais revolucionários
já dados nessa direção. O avanço se deve, em grande parte, à edição
genética do porco doador: modificações que eliminam os principais alvos
de rejeição do corpo humano e reduzem drasticamente a chance de o
organismo atacar o órgão transplantado. (Entenda mais abaixo)
De acordo com Riella, a expectativa é de que o xenotransplante seja uma realidade para pacientes nos próximos cinco anos,
como ponte para o transplante humano. A ideia do médico e pesquisador é
que seja um processo por etapas, com a ambição, a longo prazo, de que o
paciente não precise mais de um transplante humano.
Um feito inédito na medicina
Tim Andrews, 66 anos, gostava de acampar antes de descobrir a doença
renal. Em um ano e meio de diálise, o quadro debilitou tanto o paciente
que ele passou a se locomover de cadeira de rodas — uma realidade
completamente oposta à vida ativa que tinha antes da doença.
Com esse quadro, ele se tornou candidato ao xenotransplante e recebeu o órgão de porco em janeiro de 2025.
"Pouco tempo depois da cirurgia, ele já tinha uma vida normal. Ele
voltou ao acampamento, cortava madeira, carregava peso, comia o que
queria, não precisava de diálise. Era uma outra vida", conta o médico.
Homem era paciente terminal e viveu 271 dias com rim de porco.
Antes dele, um paciente da equipe de Riella também havia passado pelo
xenotransplante, em 2024, mas sobreviveu apenas 52 dias — morreu por
condições cardíacas sem relação com o procedimento. Até então, nenhum
paciente havia sobrevivido mais de dois meses com um rim de origem
animal no corpo.
Tim
rompeu essa barreira: foram 271 dias com o rim de porco, que precisou
ser retirado depois de uma reação do sistema imunológico, um dos maiores
desafios dos transplantes.
Riella explica que o paciente teve uma infecção bacteriana, o que levou
à necessidade de reduzir os medicamentos imunossupressores —
responsáveis por impedir que o corpo rejeite o órgão transplantado. Com a
imunossupressão mais baixa, o organismo passou a atacar o rim suíno,
até que ele precisou ser removido.
Oitenta e dois dias depois, Tim recebeu um transplante de rim humano, que segue funcionando sem sinais de rejeição.
"A gente conseguiu ver o quanto esse tempo de sobrevida com o
xenotransplante foi impactante na vida dele. Aprendemos muito com esse
caso e esse feito inédito é um avanço para a medicina e para os
pacientes. Esse é o primeiro passo, evitar que os pacientes fiquem na
diálise. A ambição depois é que possa substituir o transplante humano",
explica Riella.
Paciente era terminal e conseguiu sobrevida para, depois, receber um
transplante
Como um rim de porco pode ser usado por um ser humano?
O rim usado no caso de Tim não é de um porco comum, mas de um animal
feito especificamente para esses casos e geneticamente modificado.
A primeira mudança mira no maior obstáculo do xenotransplante: a
rejeição hiperaguda, reação imediata e violenta do corpo humano contra o
tecido do porco. Ela acontece porque as células suínas têm, na
superfície, moléculas de açúcar que funcionam como uma espécie de
identidade estranha — um sinal que o sistema imunológico humano
reconhece na hora e ataca
Em laboratório, antes que os animais nasçam, os cientistas eliminaram
os genes responsáveis por essas moléculas. Assim, eles nascem com esse
defeito, o que reduz drasticamente a chance desse ataque acontecer.
A segunda modificação lida com um risco diferente:
o DNA dos porcos carrega, naturalmente, fragmentos de vírus. Eles
normalmente ficam inativos, mas existia a preocupação de que pudessem se
reativar dentro do corpo humano e causar infecção. Por isso, esses
vírus também foram desativados.
Por fim, os cientistas inseriram sete genes humanos no material
genético do porco. A lógica é parecida com trocar peças específicas de
uma engrenagem para que ela se encaixe melhor em outro mecanismo: esses
genes fazem com que o órgão produza proteínas mais parecidas com as
humanas, o que ajuda o corpo do paciente a reconhecer o rim como menos
estranho.
Médico brasileiro lidera primeiro transplante de rim suíno geneticamente modificado — Foto: Arte/g1
Ao todo, foram cinco anos de pesquisas com edições até encontrar a
fórmula que pudesse ter a melhor resposta no corpo humano. O processo
foi aprovado pelo FDA, a agência reguladora americana.
O que os especialistas apontam é que a edição genética parece ter
encontrado a chave para aproximar o xenotransplante da realidade. A
inativação de marcadores animais conseguiu aumentar a sobrevida do órgão
no corpo humano.
USP avança nos estudos sobre xenotransplante
Como isso pode mudar o futuro do transplante?
Há décadas, a medicina busca alternativas para reduzir a dependência de
doadores humanos, hoje insuficientes para atender à fila de pacientes
que precisam de um rim.
Diferentes caminhos vêm sendo estudados para resolver esse gargalo,
entre eles o desenvolvimento de órgãos artificiais e o próprio
xenotransplante. Para Riella e outros especialistas ouvidos pelo g1, é o segundo que está mais perto de se tornar realidade.
Segundo o médico, o xenotransplante avança na frente porque faz parte
de uma biologia que já existe e funciona. Recriar um órgão inteiramente
artificial e eficiente, segundo ele, ainda exigiria cerca de 20 anos de
pesquisa.
“A
gente viu que um órgão animal funciona plenamente em um ser humano. Ele
teve a capacidade de regular os minerais e a água exatamente como os
rins humanos. Superamos muitos obstáculos”, explica Riella.
A expectativa do pesquisador é que, em cinco anos, o procedimento se
torne uma alternativa real para pacientes com insuficiência renal, ainda
que não para todos: a indicação seria restrita a quem já seria
candidato a um transplante humano convencional.
O maior obstáculo hoje é o ajuste da imunossupressão, medicação que evita que o corpo rejeite o órgão transplantado.
Segundo Riella, a resposta imunológica é mais intensa logo após a
cirurgia e tende a diminuir com o tempo, mas a equipe médica ainda está
testando quais doses podem ser reduzidas com segurança ao longo do
tratamento.
“O tempo mais longo dessa vez nos mostrou mais respostas sobre esse
manejo, mas a gente precisa de mais testes clínicos observando pacientes
para entender melhor essas dosagens”, explica.
A longo prazo, a ambição é que esse aprendizado permita ao rim suíno
alcançar durabilidade suficiente para competir com o transplante humano —
e, no limite, funcionar de forma praticamente invisível ao corpo do
paciente, sem depender de imunossupressores.
Para o médico especialista em transplante, Rafael Pinheiro, a pesquisa traz uma nova perspectiva para médicos e pacientes.
“Essas
pesquisas nos dão uma perspectiva de que, no futuro, a gente consiga
não depender mais de doadores falecidos para o transplante. Isso é uma
nova chance para esses pacientes”, explica.
O médico explica, porém, que os estudos estão em andamento e, ainda que
sejam concluídos nesse prazo, existe uma diferença entre o tempo
necessário para a tecnologia se tornar realidade e o tempo para ela ser
aplicada a milhares de pacientes no país.
Mas o Brasil também vem dando passos nessa direção. Em abril,
pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) anunciaram o nascimento
do primeiro porco clonado no país, em um laboratório em Piracicaba, no
interior paulista. O projeto integra o Centro de Ciência para o
Desenvolvimento em Xenotransplante da USP.
A equipe segue uma lógica semelhante à usada nos Estados Unidos:
identificou três genes suínos ligados à rejeição e aprendeu a
desativá-los, além de inserir sete genes humanos nos óvulos dos porcos
para aumentar a compatibilidade dos órgãos. A etapa de edição genética
foi dominada em 2022. Faltava reproduzir esses animais em escala — daí a
importância da clonagem.
g1