O júri do 'Caso Kaianne' chegou à fase de debates na tarde desta
terça-feira (2). Os promotores representantes do Ministério Público do
Ceará (MPCE) iniciaram suas falas destacando que a morte da contadora se
tratou de um "feminicídio planejado, revisitado e maquinado".
Durante a fala da acusação, os promotores exibiram vídeos do encontro
dos acusados e fotos do corpo da vítima, momento no qual a família de
Kaianne Bezerra Lima Chaves optou por se retirar da sala onde acontecia a
sessão.
A tia da vítima chegou a 'passar mal' e foi socorrida por bombeiros, sendo levada em uma ambulância às pressas. O Diário do Nordeste segue acompanhando o julgamento, previsto para finalizar nesta quarta-feira (3).
Os advogados Jader Aldrin e Fernanda Cavalcante de Melo integram a
assistência de acusação e expuseram durante a sessão detalhes de como o
crime foi supostamente premeditado.
'ELA NÃO VAI VOLTAR'
São acusados pelo homicídio de Kaianne o marido da vítima e professor, Leonardo Nascimento Chaves e Adriano Andrade (apontado como executor da ação criminosa, a mando de Leonardo)
Os promotores de Justiça Luís Bezerra Neto, Adriely Nascimento e
Geraldo Laprovitera defendem que os réus pelo crime sejam condenados de
'forma integral'.
"Kaianne foi assassinada pelo Adriano a mando de Leonardo, o que
torna tudo mais brutal. O crime que vitimou Kaianne não vai ser reduzido
a uma estatística do crime de feminicídio", disse Adriely.
Luís Bezerra sustentou em plenário diante dos jurados que "há provas suficientes para condenar" e disse que o crime se tratou de um episódio "sádico e maquiavélico".
Luciana Moura Bezerra, mãe da contadora, pontuou ao Diário do
Nordeste que vem revivendo "tudo novamente, um pesadelo. Ela não vai
voltar, só vai restar vídeo, foto, memória" e pede "que o silêncio não
vença".
Após encerrada a fala da acusação e da assistência de acusação, é a
vez da defesa apresentar sua versão na fase de debate. Ainda não se sabe
se haverá réplica e tréplica, momentos que antecedem a leitura de
quesitos e votação.
SOBRE O JÚRI
Por volta das 10h30 desta terça-feira (2) Leonardo começou a
responder às perguntas dos advogados de defesa. Na versão do denunciado,
ele "jamais tramaria a morte da pessoa que mais amava".
Conforme a denúncia apresentada pelo MPCE, Leonardo pretendia obter
vantagem financeira com a morte da esposa, por meio de seguros de vida
dos quais era beneficiário.
O crime teria sido encomendado por ele a Adriano Andrade Ribeiro, que contou com a ajuda de um adolescente para forjar o latrocínio.
Quando questionado sobre a situação econômica do casal, o réu disse:
"nos tínhamos nossos gastos mensais e nossa renda era sempre colocada
junta. Às vezes faltava, mas não era uma coisa muito normal. Sempre
resolvíamos".
O acusado disse ainda que havia pedido dinheiro à agiotas devido à
dívidas adquiridas após a reforma da casa, e que Adriano era
“financiador dele no empréstimo”.
Ao todo, foram ouvidas quatro testemunhas de acusação e três de defesa. As demais que estavam previstas foram dispensadas.
'O INIMIGO DORMIA AO LADO'
No fim de 2025, o Diário do Nordeste lançou a terceira temporada do Podcast Sigilo Quebrado com detalhes sobre a trama que resultou na morte da contadora.
Nas primeiras horas após a morte de Kaianne, o crime era 'tratado'
como um latrocínio. No entanto, a atitude do marido sobrevivente,
Leonardo Nascimento Chaves, professor concursado do Estado, levantou
suspeitas imediatas, tanto de um membro da família quanto na Polícia
Civil. O tio de Katiane, Luciano Moura, foi uma das primeiras pessoas a confrontá-lo diretamente.
A versão de Leonardo começou a apresentar falhas.
De acordo com a acusação, Leonardo e Kaianne eram casados, "sendo ele o responsável por arquitetar o crime de feminicídio, visando a obtenção de vantagem patrimonial, haja vista ser um dos herdeiros necessários de seguros contratados pela vítima".
Leonardo teria decidido que executaria a esposa "visando angariar
fundos para arcar com suas dívidas pessoais, planejando o crime" e
contratando Adriano Ribeiro para a ação criminosa. Após o assassinato,
os envolvidos subtraíram bens da casa para simular que o crime se
tratava de um latrocínio.
De início, a versão contada pelo marido da contadora ficou como principal linha investigativa da Polícia. O caso teve a primeira reviravolta duas semanas após o assassinato, quando Leonardo foi preso.
Kaianne morreu aos 35 anos, no dia 26 de agosto de 2023.
SEQUÊNCIA DE AGRESSÕES
As primeiras investigações apontavam que a contadora foi morta com
uma paulada na cabeça. No entanto, o laudo pericial elaborado pela
Perícia Forense do Ceará (Pefoce) atestou que ela foi morta por "asfixia
mecânica em decorrência de esganadura".
A Polícia Civil teve acesso ao conteúdo de câmeras de um
estacionamento de um shopping, em Aquiraz. As imagens mostraram Leonardo
Nascimento Chaves conversando com o motorista de veículos por aplicativos
Adriano Andrade Ribeiro e um adolescente, por volta de 20h35 da noite
de 26 de agosto, poucos minutos antes da morte de Kaianne Bezerra.
Conforme as investigações policiais, Leonardo foi para casa e simulou
o assalto, junto da dupla contratada. O marido de Kaianne teria
decidido ‘aguar plantas’ de fora da residência, com o intuito de ser
abordado pelos supostos assaltantes.
Leonardo teria ainda deixado separados uma corda - para os "assaltantes" o amarrarem
- e um pedaço de pau - para matarem a própria esposa. E ainda teria
pedido para os comparsas o agredirem, para fortalecer a versão do
latrocínio.
Após matarem Kaianne, os criminosos roubaram objetos da casa, como
TVs, aparelhos celulares, outros aparelhos eletrônicos, bebidas
alcoólicas e as alianças do casal. O próprio Leonardo Chaves teria
ajudado a colocar os pertences no carro dos comparsas.
O serviço dos criminosos teria custado R$ 1,2 mil, pagos por
Leonardo, com a promessa de um novo pagamento após o recebimento do
seguro de vida da esposa.
(Diário do Nordeste)