O El Niño de 2026 está se fortalecendo rapidamente e pode ter seu
maior impacto sobre a temperatura global em 2027. O fenômeno natural,
marcado pelo aquecimento anormal das águas do Pacífico Equatorial,
ocorre sobre um planeta que já registra temperaturas muito acima das
médias históricas, aumentando a possibilidade de um novo recorde global
de calor.
A
NOAA, agência meteorológica dos Estados Unidos, informou em agosto que o
El Niño estava em processo de intensificação e apontou mais de 90% de
probabilidade de que o evento chegasse à categoria de muito forte
durante o outono e o inverno do Hemisfério Norte. Em julho, a
temperatura da região Niño 3.4, uma das principais áreas utilizadas para
monitorar o fenômeno, estava 1,4°C acima da média.
O cenário
também chama atenção no Reino Unido. O Met Office classificou o evento
em desenvolvimento como potencialmente o maior El Niño observado na
memória meteorológica recente e afirmou que 2027 tem grande
probabilidade de substituir 2024 como o ano mais quente já registrado.
A
razão para o alerta está na combinação entre dois fenômenos diferentes:
o aquecimento provocado pelas emissões de gases de efeito estufa e a
variação natural associada ao El Niño.
Em outras palavras, o El
Niño não causa sozinho a tendência de aquecimento do planeta. Ele
funciona como um impulso temporário sobre uma temperatura global que já
subiu por causa das mudanças climáticas.
Por que 2027 pode superar o recorde de 2024?
Um
dos pontos mais importantes para entender o cenário é que o efeito do
El Niño sobre a temperatura global não aparece necessariamente de forma
imediata.
O aquecimento do Pacífico libera uma quantidade maior de
calor do oceano para a atmosfera. Esse processo influencia a
temperatura média do planeta com uma defasagem de alguns meses.
É
por isso que grandes eventos anteriores ajudam a explicar o que pode
acontecer agora. Os episódios de El Niño iniciados em 1997, 2015 e 2023
foram seguidos por anos que registraram recordes globais de temperatura
em 1998, 2016 e 2024, respectivamente.
O atual fenômeno segue uma
trajetória semelhante. O El Niño começou a ganhar forma em 2026, mas o
período de maior influência sobre a temperatura global tende a ocorrer
posteriormente.
Uma análise publicada pelo Carbon Brief estima que
2027 possa alcançar aproximadamente 1,71°C acima do período
pré-industrial, embora exista uma faixa considerável de incerteza nas
projeções. O mesmo estudo aponta 92% de probabilidade de que 2027
estabeleça um novo recorde de temperatura global.
O Met Office
também considera muito provável que 2027 ultrapasse 2024 como o ano mais
quente já registrado. Segundo a instituição, o pico do El Niño deve
contribuir para elevar temporariamente a temperatura média global acima
de 1,5°C em relação ao período pré-industrial.
Isso não significa,
porém, que um único ano acima de 1,5°C represente automaticamente o
descumprimento de uma meta climática de longo prazo. A comparação anual é
diferente das métricas usadas para avaliar o aquecimento global
sustentado ao longo de décadas.
El Niño 2026 pode afetar o clima do Brasil
O fenômeno também tem consequências importantes para o Brasil.
O
padrão mais conhecido associado ao El Niño é a tendência de chuvas
acima da média no Sul, enquanto áreas do Norte e do Nordeste podem
enfrentar maior risco de precipitações abaixo da média e agravamento de
condições de seca.
O CEMADEN já apontou esse cenário para o
segundo semestre de 2026. Segundo o órgão, a configuração do fenômeno
aumenta o risco de chuvas intensas, deslizamentos e enchentes no Sul,
enquanto Norte e Nordeste podem enfrentar agravamento da seca e maior
risco de incêndios.
Em boletim divulgado em julho, o órgão indicou
que os modelos apontavam alta probabilidade de permanência do El Niño
até pelo menos o início de 2027. Para o trimestre de agosto a outubro, a
previsão geral era de chuva acima da média em áreas do Sul e abaixo da
média no centro-norte do país.
Isso não significa que todas as
cidades de uma mesma região terão exatamente o mesmo comportamento. O El
Niño altera padrões de circulação atmosférica em escala continental,
mas as condições locais dependem de outros fatores meteorológicos e
oceânicos.
Ainda assim, a tendência é relevante para setores como
agricultura, abastecimento de água, geração de energia e prevenção de
incêndios.
Nordeste pode enfrentar maior pressão sobre chuva e seca
Para o Nordeste, o alerta merece atenção especial.
A
região já possui histórico de vulnerabilidade à irregularidade das
chuvas. Um El Niño forte pode aumentar o risco de períodos mais secos em
partes do Nordeste, embora a intensidade e a distribuição dos efeitos
variem ao longo da estação e entre os estados.
No Ceará, por
exemplo, o comportamento das chuvas depende de diversos sistemas
atmosféricos, principalmente durante a quadra chuvosa. Por isso, não é
possível afirmar neste momento que o El Niño determinará sozinho como
será a próxima estação chuvosa no Estado.
O fenômeno, entretanto, é um dos elementos que precisam ser acompanhados pelos órgãos de monitoramento climático.
A
combinação de calor acima da média, menor disponibilidade de chuva e
aumento da evaporação pode elevar a pressão sobre reservatórios e sobre
atividades que dependem diretamente das condições meteorológicas.
O
CEMADEN também chama atenção para o risco de incêndios florestais
associado ao cenário de temperaturas elevadas e condições mais secas em
determinadas áreas do país.
Agricultura e energia também podem sentir os efeitos
As consequências não ficam restritas aos termômetros.
No
campo, a distribuição irregular das chuvas pode interferir no
calendário de plantio e colheita. No Sul, o excesso de precipitação pode
dificultar atividades agrícolas, enquanto regiões com menor volume de
chuva podem enfrentar problemas de disponibilidade hídrica.
Na
geração de energia, o impacto depende do comportamento dos reservatórios
e da distribuição das chuvas. Períodos mais secos podem reduzir a
disponibilidade de água para hidrelétricas e aumentar a necessidade de
outras fontes de geração.
No caso do Nordeste, os reservatórios
também têm importância direta para o abastecimento humano. A região
historicamente convive com períodos prolongados de seca, o que torna o
monitoramento dos níveis dos açudes especialmente relevante.
O cenário também pode favorecer condições para queimadas em áreas que apresentem calor e baixa umidade.
2026 já está entre os anos mais quentes da história
O novo El Niño surge em um período de temperaturas globais excepcionalmente elevadas.
O
primeiro semestre de 2026 foi o terceiro mais quente já registrado,
segundo análise do Carbon Brief, atrás apenas dos primeiros semestres de
2024 e 2025. A publicação estima que o ano tenha 35% de chance de
terminar como o mais quente da história, embora a projeção central
aponte 2026 como o segundo ano mais quente.
Esse cenário ajuda a entender a ideia de uma “escada” de temperaturas.
O
aquecimento global aumenta progressivamente a temperatura de fundo do
planeta. Fenômenos naturais como El Niño e La Niña, por sua vez, fazem
os registros anuais subirem ou recuarem temporariamente em torno dessa
tendência.
O problema é que cada novo evento de aquecimento ocorre sobre uma base que já está mais elevada.
O
resultado é uma sequência de recordes que deixa de ser apenas uma
questão estatística e passa a produzir consequências concretas sobre
chuva, seca, calor extremo, agricultura, recursos hídricos e ocorrência
de incêndios.
O que pode acontecer nos próximos meses?
A
intensidade definitiva do El Niño ainda não está determinada. As
previsões serão atualizadas à medida que novas medições do Pacífico
forem incorporadas aos modelos meteorológicos.
O que já está
confirmado é que o fenômeno está estabelecido e se fortalecendo. A NOAA
indicou, em agosto, mais de 90% de chance de um evento muito forte
durante a temporada 2026-2027.
O impacto mais expressivo sobre a
temperatura global deve aparecer em 2027, justamente porque existe um
intervalo entre a evolução do aquecimento do Pacífico e sua resposta na
temperatura média do planeta.
Por isso, os próximos meses serão
importantes para acompanhar três pontos: a intensidade que o El Niño
atingirá, a distribuição das chuvas no Brasil e a evolução das
temperaturas globais.
Para o Ceará e outros estados do Nordeste, o
acompanhamento das previsões será especialmente importante durante a
preparação para a próxima estação chuvosa. O fenômeno aumenta o risco de
condições mais secas, mas não permite, sozinho, determinar o
comportamento das chuvas de um Estado inteiro.
O cenário
climático, portanto, não é de uma única ameaça, mas de uma combinação de
fatores. Um El Niño potencialmente excepcional está surgindo em um
planeta que já está muito mais quente do que no passado. E é justamente
essa combinação que coloca 2027 no radar dos meteorologistas como um
possível novo marco de temperatura global.
(GC+)