O cenário expõe a fragmentação da família e levanta uma das
principais incógnitas que o pleito eleitoral de outubro promete
responder: os Ferreira Gomes ainda têm força para serem decisivos politicamente no Ceará?
Após mais de duas décadas décadas em que o sobrenome funcionou como
um dos eixos centrais da política cearense, os irmãos hoje ocupam campos
distintos e conflitantes. A divisão interna, que se aprofundou a partir
de 2022, colocou em xeque o peso político que o grupo acumulou em
eleições anteriores.
Essa fragmentação se expressa de forma clara nos dois ex-governadores
que compõem a família. De um lado, o senador Cid Gomes, articulador da
base governista e responsável pela expansão do PSB nas eleições
municipais de 2024. De outro, Ciro Gomes, que rompeu com o grupo
governista cearense em 2022, passou a se aproximar da oposição ao
governador Elmano de Freitas (PT) e é cotado como pré-candidato ao Palácio da Abolição em uma frente ampla oposicionista que inclui até setores bolsonaristas.
“Temos muitas especulações sobre as ações deles agora, em 2026,
inclusive sobre qual vai ser o posicionamento da Lia (Gomes), se o Cid
vai apoiar mesmo o Elmano. Se apoiar, qual tipo de apoio vai ser? Será
um apoio mais ativo ou mais contido? Eu ainda vejo esses dois aspectos
muito fortes: um cenário de indefinição e uma perspectiva de divisão
desse grupo”
Um terremoto político e familiar em 2022
Na prática, as movimentações atuais são consequência direta do
rompimento entre Ciro e Cid nas eleições de 2022. Para Cleyton Monte,
aquele episódio marcou o encerramento do ciclo político dos Ferreira Gomes como grupo coeso.
“O início desse grupo é quando o Cid chega ao Governo do Estado,
porque até então eles eram muito ligados ao Tasso (Jereissati). E o fim
desse grupo acontece em 2022, quando as figuras centrais vão para lados
diferentes”, analisa.
Desde então, os irmãos deixaram de operar como um bloco. Cid passou a
se dedicar ao fortalecimento do PSB, hoje uma das principais forças
municipais do Ceará, enquanto Ciro se aproximou da oposição ao governo
Elmano, inclusive dialogando com setores antes classificados por ele
próprio como extremados.
Nesse rearranjo, o PT se consolidou como força hegemônica governista,
sob a liderança do ministro Camilo Santana, enquanto o PSB emergiu como
principal aliado do governo estadual.
Segundo Cleyton Monte, a separação também evidenciou diferenças
históricas na forma de atuação política dos irmãos. Enquanto Cid sempre
exerceu o papel de articulador e fiador de alianças, Ciro construiu sua
trajetória como liderança de projeto e discurso, com forte apelo
simbólico, mas menor inclinação para o varejo da política.
“O Cid Gomes é a figura política mais forte desse grupo. Em termos de
credibilidade, atração de prefeitos e acordos, sempre atribuí a ele a
sustentação do grupo político dos Ferreira Gomes”, afirma.
Peças da engrenagem
A cientista política e professora da Universidade Estadual do Ceará (Uece), Monalisa Torres, reforça que essa divisão de funções foi decisiva tanto para o sucesso passado quanto para as dificuldades atuais da família.
“Embora seja senador, o mandato do Cid é majoritário, tem cargo,
recurso, emendas, então ele ainda atua como articulador, tem esse know-how.
Vemos essa força dele na própria mudança de partido, do PDT para o PSB,
dá para observar o movimento de esvaziamento de um enquanto o outro
infla. Isso demonstra a força e o peso local desse ator como um
importante articulador, que o Ciro não é”, analisa Monalisa Torres.
“O Ciro tem experiência em diferentes funções políticas, mas ele não
tem essa capacidade de articular, não é a praia dele. Por isso que, no
grupo que o Ciro está tentando montar agora, é o Tasso que cumpre esse
papel. Então, temos o Ciro e o Cid, que, a preço de hoje, têm
características diferentes, cumprindo funções diferentes, cada um em um
grupo diferente. Hoje, estão apartados e, em alguma medida, se
antagonizando”
Além de Cid e Ciro, um terceiro integrante da família passou a atuar
como novo fator de instabilidade no início deste ano. Em uma maratona de
entrevistas concedidas a radialistas de Sobral, o ex-prefeito Ivo Gomes (PSB), irmão caçula, rompeu publicamente com a possibilidade de engajamento na campanha à reeleição do governador Elmano de Freitas.
Embora tenha ficado ao lado de Cid no rompimento familiar de 2022,
Ivo criticou duramente a aproximação do PT com o prefeito de Sobral,
Oscar Rodrigues (União), e com o deputado federal Moses Rodrigues
(União), adversários históricos dos Ferreira Gomes na cidade. O
ex-prefeito também deixou explícita sua disposição de atuar em favor de
Ciro, caso ele seja candidato ao Governo do Estado.
Ivo ainda fez ataques diretos ao governador Elmano, ao ministro
Camilo Santana (PT) e ao secretário-chefe da Casa Civil, Chagas Vieira.
"Por que eu vou estar com uma pessoa que não tem por mim a menor
consideração? Que se alia a pessoas que só querem o meu mal?", indagou
Ivo. "Essa decisão (de se aproximar dos Rodrigues) representa um
descompromisso meu com essa candidatura (de Elmano de Freitas). Para
mim, hoje, eu não tenho mais compromisso com ela", afirmou Ivo.
Para o professor de Ciência Política da Universidade Estadual do Vale
do Acaraú (UVA), Rodrigo Chaves de Mello, Ivo ocupa um lugar
estratégico ao apresentar a possibilidade da reunificação do grupo como
uma ameaça latente. Ao citar o descontentamento, o ex-prefeito amplia o
custo político do alinhamento automático do PSB ao governo estadual e recoloca a família como ator imprevisível, segundo o professor.
“Por isso eu não acredito, em hipótese alguma, no fim do grupo. No
limite, algum processo de readequação, readaptação etc., mas no fim do
grupo eu não acredito”, pontua.
“Este ano, completa quatro anos desde o início da briga, eles iniciam
o ano eleitoral já brigados e eu acho que isso faz toda a diferença.
Eles já perderam bastante coisa e o Ivo, com aquelas falas todas, me
parece que está colocando a possibilidade de reaproximação com o Ciro no
horizonte. Ele também diz que o Cid tem disponibilidade para essa
reaproximação, diz que ele não fará apoio automático ao Elmano, ainda
que possa votar nele, e se distancia completamente do Camilo”,
acrescenta Rodrigo Chaves de Mello.
Cid, o fiel da balança
Apesar das falas ruidosas de Ivo e da projeção de Ciro como nome
forte da oposição, os analistas convergem ao apontar Cid Gomes como o
principal detentor de poder de barganha da família para 2026. Com forte
capilaridade entre prefeitos e controle de uma bancada expressiva, o
senador é visto como peça-chave para o próximo pleito.
“O apoio do Cid é decisivo. Se ele vai para a campanha do Elmano, ele
é decisivo para o Elmano. Se se abstém, já é um ganho enorme para o
Ciro”, resume Rodrigo Chaves.
O movimento de Cid de rejeitar uma candidatura ao Senado e insistir no nome do deputado federal Júnior Mano (PSB) também é lido como estratégico.
“Ao se colocar como um político aposentado, que não vai disputar
nada, ele ganha um grau de independência muito grande. O Cid não
disputando cargo é um fio desencapado, porque ele tem prestígio, tem
capilaridade, mas não precisa se fidelizar. Ele pode ser esse elemento
que pode ir para um lado ou para o outro até o último momento, ele ganha
um grau de liberdade muito grande para negociar”
Ciro: aposta de alto risco
Já Ciro Gomes, cotado para disputar o Governo do Estado, surge como o
nome mais competitivo da oposição, mas também como uma aposta
arriscada, na avaliação dos analistas. Eles convergem ao apontar que o
ex-governador mantém alto grau de conhecimento e capacidade de pautar o
debate público, mas enfrenta dificuldades para formar e manter alianças
duradouras.
Cleyton Monte aponta que o político saiu enfraquecido das últimas
eleições nacionais que disputou, também acumulou derrotas de aliados que
indicou para disputar o Governo do Ceará e a Prefeitura de Fortaleza,
além de ter feito uma guinada política para se aproximar de nomes da
direita.
“Ele é explosivo no discurso, talvez até utilizem essa força para
explorar a questão da segurança pública, mas não vejo o Ciro com essa
penetração no Interior e chegando junto nos grandes centros urbanos”,
conclui.
Monalisa Torres destaca que o principal elo da oposição hoje é o
antipetismo, o que considera insuficiente para sustentar um projeto
eleitoral sólido.
“Isso não é projeto político, não é algo que, do ponto de vista de
estratégia política, seja suficientemente forte. É insuficiente,
inclusive para manter uma aliança coesa, fiel até o fim em uma eleição
que não vai ser fácil, em que se está disputando com a máquina estadual
alinhada à máquina federal”, avalia.
Mas, afinal, qual a força dos Ferreira Gomes?
Os especialistas concordam que o ciclo hegemônico dos Ferreira Gomes chegou ao fim.
A fragmentação interna, a derrota em Sobral em 2024 e a ascensão de um
novo eixo de poder liderado por Camilo Santana são marcos desse
encerramento.
Isso, no entanto, não equivale ao desaparecimento completo da família
do cenário político. Como observa Rodrigo Chaves, os Ferreira Gomes
sobreviveram à ruptura, ainda que de forma dispersa e com influência
reduzida.
“O Ivo joga justamente com a possibilidade de alguma reconstrução.
Ainda é virtual, é mais uma potência que um fato, mas ele usa esse
espectro com a mística, o simbolismo. Por hora, materialmente, o ciclo
acabou e tem outras referências na política. Mas é interessante que
(...) depois de três eleições quase incontestes, o governo Elmano esteja
tendo a sua reeleição ameaçada, a preço de agora, justamente por um
Ferreira Gomes, que se apresenta ainda brigado com os irmãos”,
acrescenta.
Para o professor, ainda que a reunificação plena pareça improvável no
curto prazo, existem cenários intermediários, como uma “paz armada”,
uma neutralidade estratégica de Cid ou mesmo apoios cruzados, que, para
ele, seriam suficientes para alterar o equilíbrio da disputa.
Para Cleyton Monte, seja separados, seja juntos, essa força dos integrantes da família já não é a mesma de outros momentos.
“A meu ver, o Cid é a figura mais forte desse grupo familiar, mas ele
também perdeu força, se comparado aos anos em que foi governador e,
principalmente, aos primeiros anos do governo Camilo. Ele tinha um
destaque maior, tinha uma força mais acentuada e tinha uma voz mais
forte na Assembleia. Ele foi sendo minado e não sei até que ponto
consegue reverter isso”, pondera.
Monalisa Torres também é cautelosa sobre o futuro do grupo. Ela
ressalta que acredita que todos os cenários são possíveis. “Se eles
conseguem renovar os quadros, reconstruir o discurso e reposicionar a
imagem, é possível (se fortalecerem), eu não duvidaria. Ainda vai
depender de muitos fatores, de como essa negociação para os cargos vai
se dar, de como os irmãos vão se aproximar ou não daqui para lá, de como
vai estar a avaliação do governador, sobretudo do ponto de vista da
segurança pública”, conclui Torres.
(Ponto Poder / Diário do Nordeste)