O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse
nesta sexta-feira (23) que a política mundial atravessa um momento
crítico, “com o multilateralismo sendo jogado fora pelo unilateralismo”.
Durante o encerramento do 14º Encontro Nacional do Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), em Salvador, Lula disse
que a carta da Organização das Nações Unidas (ONU) está sendo rasgada e
criticou a proposta do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de
criação de um Conselho de Paz. Para o presidente brasileiro, Trump quer
criar uma nova ONU para ser o dono.

“Está prevalecendo a lei do mais forte, a carta da ONU está sendo
rasgada e, em vez de a gente corrigir a ONU, que a gente reivindica
desde que fui presidente em 2003, reforma da ONU com entrada de novos
países [como membros permanentes no Conselho de Segurança], com a
entrada de México, do Brasil, de países africanos… E o que está
acontecendo: o presidente Trump está fazendo uma proposta de criar uma
nova ONU, em que ele sozinho é o dono da ONU”, afirmou Lula.
O presidente dos Estados Unidos convidou Lula
para compor conselho da Paz, que será criado para supervisionar o
trabalho de um Comitê Nacional para a Administração de Gaza (NCAG, na
sigla em inglês).
Lula disse ainda que está telefonando para vários líderes mundiais para discutir o tema, entre eles o presidente da China, Xi Jinping; da Rússia, Vladimir Putin; o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi; e a presidenta do México, Claudia Sheinbaum.
“Estou conversando para fazer com que seja possível a gente encontrar
uma forma de se reunir e não permitir que o multilateralismo seja
jogado para o chão e que predomine a força da arma, da intolerância de
qualquer país do mundo”, pontuou.
O presidente voltou a criticar a ação dos Estados Unidos na
Venezuela, que resultou no sequestro do presidente Nicolás Maduro e da
deputada e primeira-dama, deputada Cilia Flores.
“Eu fico toda a noite indignado com o que aconteceu na Venezuela. Não
consigo acreditar. O Maduro sabia que tinha 15 mil soldados americanos
no mar do Caribe, ele sabia que todo dia tinha ameaça. Os caras entraram
na Venezuela, entraram no forte e levaram o Maduro embora e ninguém
soube que o Maduro foi embora. Como é possível a falta de respeito à
integridade territorial de um país? Não existe isso na América no Sul. A
América do sul é um território de paz, a gente não tem bomba atômica”,
disse.
Citando os Estados Unidos, Cuba, a Rússia e a China, como exemplos, Lula
disse ainda que o Brasil não tem preferência de relação com qualquer
país, mas que não vai aceitar “voltar a ser colônia para alguém mandar
na gente”.
O presidente também criticou a postura de Trump, que, segundo ele,
toda vez que aparece na televisão se gaba de ter o exército e as armas
mais poderosas do mundo. Lula disse querer fazer política na paz, no diálogo e não aceitando imposição de qualquer país.
“Eu não quero fazer guerra armada com os Estados Unidos, não quero
fazer guerra armada com a Rússia, nem com o Uruguai, nem com a Bolívia.
Quero fazer guerra com o poder do convencimento, com argumento, com
narrativas, mostrando que a democracia é imbatível; que a gente não quer
se impor aos outros, mas compartilhar aquilo que a gente tem de bom”,
defendeu. “Não queremos mais Guerra Fria, não queremos mais Gaza”,
completou.
Encontro do MST
O 14º Encontro Nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem
Terra (MST) terminou com um ato marcando os 42 anos do MST, celebrados
no dia 22 de janeiro e que contou com a presença de autoridades,
parlamentares, representantes de movimentos sociais e sindicais, além de
apoiadores do movimento.
O encontro, que começou na segunda-feira (19), reuniu
delegações de todo o Brasil, com mais de 3 mil trabalhadores e
trabalhadoras sem terra. Durante os cinco dias, membros do MST
debateram reforma agrária, produção de alimentos saudáveis,
agroecologia, agricultura familiar, a conjuntura política atual, seus
desafios e o papel do movimento neste contexto.
Ao final, uma carta do movimento foi entregue ao presidente.
No texto, o MST também critica a tentativa de impedir o avanço do
multilateralismo e do imperialismo no continente, citando a invasão da
Venezuela e o ataque à soberania dos povos. No documento, o
movimento alerta que ações como essa têm como pano de fundo o “saque” de
bens comuns da natureza como petróleo, minérios, terras raras, águas e
florestas.
O texto reafirma ainda os princípios do movimento: a luta pela
reforma agrária e pelo socialismo; a crítica ao modelo do agronegócio,
da exploração mineral e energética; a luta anti-imperialista e o
internacionalismo; além da solidariedade, em especial com a Venezuela,
Palestina, Haiti e Cuba.
“Assim convocamos toda a sociedade brasileira para: - lutar por
melhores condições de vida e trabalho e em defesa da paz e da soberania
contra as guerras e as bases militares; avançar na luta em defesa da
natureza e contra os agrotóxicos. Contamos com a participação de todos e
todas que nos apoiam e à classe trabalhadora a se somarem na luta pela
Reforma Agrária Popular, rumo à construção de outro projeto de país”,
finaliza o documento.
(Agência Brasil)