Com uma quadra chuvosa abaixo do normal, boa parte dos açudes
cearenses terminaram o ano de 2025 com um volume de água armazenada
menor que o de 2024. Entre esses estão o Castanhão, Banabuiú, Araras e
Figueiredo, quatro dos cinco maiores reservatórios do Estado.
A maior perda de água dentre esses foi no açude Araras, com 10,27%
menos água que o armazenado ao final de 2024. Logo em seguida vêm o
Figueiredo, quinto maior do Estado com queda de 7,28%, o Banabuiú,
terceiro em capacidade com 7,23%, e por fim o Castanhão, maior
reservatório de águas da América Latina, com decréscimo de 6,71%.
O único dos cinco grandes açudes do Ceará a
registrar crescimento no número de água estocada foi o Orós, segundo
maior da lista. Após sangrar entre os meses de abril e julho, o
reservatório encerrou 2025 com 72,95%, 14% a mais que o ano anterior.
Nível dos cinco maiores açudes do Ceará ao início de cada ano
Ao
todo, a rede hidrográfica do Ceará recebeu 6,13 bilhões de metros
cúbicos (m³) de água durante os meses de fevereiro a maio do ano
passado, cerca de 35% a menos que em 2024, quando os açudes tiveram
aporte de 9,45 bilhões de m³ no mesmo período.
Mesmo com a
redução, o Ceará ainda iniciou o ano com cerca de 39,9% da capacidade
hídrica armazenada, cenário é avaliado como estável pela Companhia de
Gestão dos Recursos Hídricos do Ceará (Cogerh), devido ao histórico
recente do Estado.
"Se a for ver pela média geral, 40% seria uma acumulação boa para o
período, já que a nossa acumulação média gira em torno dos 30%. Porém
nós temos uma variação espacial muito grande dessa água. Enquanto temos
bacias com mais de 70%, temos na região central bacias em torno de 10%",
pontua o diretor presidente da Cogerh, Yuri Castro.
Essa
"variação espacial" citada por Castro nada mais é que chuvas em uma
porção do Estado e estiagem em outras. Em 2025, por exemplo, a região
onde ficam os açudes da bacia Metropolitana acumulou 736.8 milímetros
(mm) de precipitações, enquanto na Serra da Ibiapaba, por exemplo,
choveram apenas 307.5 mm, 47% a menos que o normal.
O tema tem
causado preocupação entre os membros da Companhia, tendo em vista que um
inverno abaixo da média histórica poderia resultar em problemas para as
regiões da Ibiapaba, Banabuiú e Sertões de Crateús.
"Bacia do Banabuiú com 27% e a própria bacia do Médio Jaguaribe, onde
fica o Castanhão, está com 21%. Nessa faixa central é onde se
concentram as maiores preocupações caso não tenhamos uma quadra chuvosa
satisfatória em termos de aporte aos resevatórios", afirma o presidente
da Cogerh.
Comparativo bacias hidrográficas do Ceará ao início de cada ano
Estado aponta obras hídricas como segurança o abastecimento
Apesar
do cenário de preocupação caso não haja um bom inverno, a Cogerh já
sabe com quais armas seria enfrentado um eventual período de estiagem.
Conforme a pasta, as obras hídricas que têm sido tocadas pelo Governo do
Estado devem garantir o abastecimento em todas as regiões, mesmo diante
de uma falta de chuvas.
O Malha D'água, por exemplo, sistema que
capta água diretamente dos grandes mananciais e leva para adutoras nas
regiões mais secas do Estado, atuaria em socorro a 38 distritos em nove municípios cearenses Banabuiú
Jaguaretama
Solonópole
Milhã
Deputado Irapuan Pinheiro
Senador Pompeu
Piquet Carneiro
Mombaça
Pedra Branca .
"Realmente vem em hora certa. Se não tivermos uma quadra chuvosa boa
ali na região central, a gente pode jogar água a partir do Banabuiú que
está numa situação razoavelmente boa, com 30%. Poderá suprir todas essas
sedes municipais e todos esses distritos. Ele foi priorizado por causa
da seca passada [2012 a 2018], já que os municípios que sofreram mais
foram os ali da região central", explica Castro.
Além do Malha
D'água, a Cogerh aponta também a duplicação do Eixão das Águas, complexo
hídrico que transporta água Castanhão para a Região Metropolitana de
Fortaleza (RMF) e o Complexo Industrial do Pecém, como solução para
eventuais problemas na faixa da Capital.
Atualmente, a região demanda a liberação de 11 metros cúbicos por
segundo (m³/s) para abastecimento humano e atividades industriais. Com a
duplicação, a capacidade de liberação seria de até 20 m³/s.
Por
fim há também o Cinturão das Águas do Ceará (CAC), sistema que liga as
águas do rio São Francisco para o Cariri e deve ser concluído até junho
deste ano. Esse, no entanto, seria utilizado apenas em último caso, já
que de acordo com estudos recentes da Cogerh, ainda há uma perca de água
muito grande no trajeto.
Saindo do riacho Seco e correndo pelo
Batateiras, Salgado e só depois chegar ao rio Jaguaribe, o percurso tem
mais 70% de perda da água devido a infiltração e evaporação.
"Testes
que fizemos apontam uma perda de mais de 70% dessa água se for liberada
de julho a dezembro, então é muito ineficiente para a gente poder
contar com essa água, a não ser em uma extrema necessidade onde vai ser o
jeito. Ele terá um papel importantíssimo chegando no final, onde a
gente joga a água no rio Cariús e ele cai no Orós, porém o Orós está em
uma ótima situação", finaliza Yuri Castro.
Último mês de pré-estação deve ter chuvas abaixo da média
Se
há a esperança de que as chuvas deste ano possam causar grande aporte
nos açudes, assim como foi em 2024, o sinal deixado pelo último mês da
pré-estação chuvosa (dezembro-janeiro) não é dos mais animadores.
De
acordo com a Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos
(Funceme) a primeira quinzena de janeiro deve ser de clima seco em todo o
Estado, com as primeiras chuvas a partir do dia 15, ainda sim fracas se
comparadas com outros anos, na RMF.
Ao todo, a previsão é de que
o acumulado final de janeiro seja abaixo da média histórica para o mês,
que vai de 66,37 mm até 133,24 mm.
Esse menor índice de chuvas é
causado pela ausência de Vórtices Ciclônicos de Altos Níveis (Vcan),
sistemas comuns ao Ceará nesse período do ano, mas que até o momento, em
2026, seguem afastados, mais próximos a estados como Pernambuco e
Alagoas.
"Hoje temos um vórtice atuando porém ele está muito
localizado a leste, o que não favorece precipitação para a gente. [...]
Temos um Atlântico Norte muito mais quente que a média, o que acaba
desfavorecendo qualquer tipo de convecção mais intensa no Nordeste de
maneira geral", explica o diretor da Funceme, Francisco Júnior.
As
maiores temperaturas no Atlântico Norte citadas por Júnior podem
refletir também na quadra chuvosa, já que o aquecimento das águas
superficiais acima do Equador tem mantido a Zona de Convergência
Intertropical (Zcit), principal vetor de chuvas do Ceará, afastada do
Estado.
"Ela está mais ao norte do que a média para o período. O
Atlântico Norte, pelo fato dele estar muito mais quente ao norte do que
ao sul, isso desfavorece qualquer incursão da Zcit de descer mais ao sul
e chegar ao continente sulamericano, chegar à costa nordestina",
explica o doutor em meteorologia.
Apesar da preocupação, a
movimentação da Zona segue sendo acompanhada pela Funceme e uma previsão
mais exata da influência dela este ano na quadra chuvosa cearense só
poderá ser emitida nos prognósticos de chuvas, divulgados pela Fundação
entre os meses de janeiro e abril.
(O Povo)