Tradição que observa a natureza há gerações chega aos 30 anos em Quixadá, com previsões cautelosas, homenagem à profetisa Lurdinha e expectativa de chuvas mais fortes a partir de março
O céu, o canto dos animais, o comportamento das plantas e até o trabalho das formigas voltaram a ser observados com atenção neste sábado, 10, durante o 30º Encontro dos Profetas da Chuva, realizado no Instituto Federal do Ceará (IFCE), campus Quixadá — a cerca de 148 quilômetros de Fortaleza.
A edição histórica reuniu profetas, agricultores, estudiosos e visitantes de diferentes regiões do Nordeste para compartilhar previsões sobre a quadra chuvosa de 2026 e celebrar uma tradição que atravessa gerações no Sertão.
A avaliação predominante entre os profetas aponta para um "inverno de fraco a intermediário", com tendência maior para o intermediário. Mesmo entre os mais pessimistas, há um consenso: as chuvas mais significativas devem se concentrar nos meses de março, abril e maio.
Leituras da natureza indicam cautela para 2026
Idealizador do encontro, Helder Cortez explica que as previsões ainda são apresentadas com cuidado. Segundo ele, apenas uma pequena parcela dos profetas aposta em um inverno considerado bom, enquanto a maioria fala em regularidade, sem grandes excessos.
Aurélio Leal, de 78 anos, profeta há 15 anos e morador de Quixeramobim, está entre os mais cautelosos. “Não é bom, porque todas as previsões estão dando negativamente”, disse. Ainda assim, reforça que o período mais chuvoso deve ocorrer a partir do fim de fevereiro. “Inverno pesado mesmo, o mês que chove mais é março. Aí pega março, abril”, explicou, com base na observação da fauna e da flora.
Já Jocerlan Guedes, 56, radialista e profeta da chuva de Bom Jesus, no Alto Sertão da Paraíba, apresentou uma leitura um pouco mais otimista.
“Nós temos uma previsão esse ano de um inverno que
começa mesmo para valer em março. Março, abril, maio, vamos ter muita
chuva. Mas é um inverno regular, é um inverno que vai ter colheita”,
afirmou. Para ele, os sinais indicam recuperação dos mananciais,
diferente do cenário atípico vivido no ano passado em parte da Paraíba.
Destaque para cultura e segurança hídrica
Presente no encontro, a vice-governadora Jade Romero (MDB) destacou o valor simbólico e cultural do evento. “Esse encontro faz parte da história da nossa cultura nordestina”, afirmou. Ela desejou que as previsões apontem para um bom inverno, garantindo segurança hídrica para a população do semiárido.
O secretário dos Recursos Hídricos do Ceará, Fernando Santana (PT), ressaltou que, independentemente do resultado das chuvas, o Estado tem investido para reduzir a dependência das precipitações.
“O que a gente tem feito é buscar garantir
infraestrutura hídrica para que a gente dependa menos da chuva”, disse,
citando obras como o Malha d’Água e o Cinturão das Águas, que levam água
da transposição do Rio São Francisco para diversas regiões.
Tradição que atravessa gerações no Sertão
Mais do que prever o tempo, o encontro reafirma a importância cultural dos profetas da chuva. Cada um se especializa em uma metodologia, aprendida dentro da própria família. “Cada profeta estuda uma metodologia e se especializa. Ele recebeu do bisavô, do avô dele. Esta é a cultura”, destacou Helder Cortez. “Eu diria que todo cearense é profeta quando vê uma rãzinha cantando ou quando o calor excessivo anuncia chuva.”
Jocerlan
Guedes reforça essa transmissão de saberes. “Isso vem dos ancestrais,
dos nossos bisavós, dos avós. A tecnologia existe, mas esse empirismo é
você ver, sentir. A gente vive aquele momento e sente aquela reação”,
afirmou, citando sinais como a tanajura levantando voo, a lagartixa
caindo da telha e o comportamento do gado antes da chuva.
Homenagem à profetisa Lurdinha marca edição histórica
Um dos momentos mais marcantes do encontro foi a homenagem à profetisa Lurdinha, considerada até o ano passado a profeta mais velha em atividade. Ela morreu em 2025, aos 97 anos, após quase três décadas participando do evento. Em sua memória, foi plantada uma árvore no Jardim dos Profetas, espaço localizado na entrada do IFCE, onde cada profeta homenageado tem seu nome e história registrados.
Filho de Lurdinha, o servidor público Jorge Luiz acompanhou o plantio e falou sobre o legado deixado pela mãe. “Ela acompanhou essa trajetória todinha de Profeta da Chuva. Sempre vinha para esses encontros, e eu estava ao lado dela ouvindo as histórias”, contou. “Ela deixou um grande legado para a família e para essa cultura. A gente tenta levar essa história à frente.”
Feira, sementes e troca de saberes
Além das previsões, o encontro também movimentou a feira de artesanato e produtos da agricultura familiar. A aposentada Nenê de Oliveira, 69, elogiou o ambiente. “É bom, né? A gente sabe sobre o inverno, sobre as chuvas, e ainda prova os produtos. Tem muita coisa boa”, disse.
Entre os expositores estava o agricultor e apicultor Francisco Tadeu Barro Silveira, de 58 anos, que levou sementes crioulas e mel para o evento. “Eu trabalho com semente crioula pela cultura, pela resistência da semente, que aguenta seca”, explicou.
Segundo ele, preservar esse tipo de semente é preservar a própria identidade do campo. “São sementes que meu avô plantava, que não passaram por laboratório. Quando eu planto, estou guardando a nossa raiz.”
O Povo








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