/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/a/Q/l0YOb5QZedZhp6rhtoCg/lixo-contaminado-por-oleo.png)
De acordo com o estudo, o óleo que apareceu no litoral do Brasil
conseguiu atravessar toda a distância pelo Mar do Caribe até os Estados
Unidos, em uma viagem de mais de 200 dias, após aderir ao lixo marítimo, sobretudo garrafas de plástico ou de vidro.
O estudo foi uma colaboração de pesquisadores do Instituto de Ciências
do Mar (Labomar) da UFC e pesquisadores de diversas instituições de
ensino superior dos Estados Unidos. O resultado foi publicado em janeiro
deste ano na revista científica Environmental Science & Technology.
A investigação começou após uma organização voluntária de proteção
ambiental identificar a chegada constante, ao longo de meses, do lixo
marítimo coberto pelo óleo escuro. Mais tarde, o óleo foi comparado com
aquele encontrado no Nordeste em 2019, e verificou-se que era o mesmo.
A descoberta dos cientistas chama atenção para a resistência do óleo:
geralmente, devido a fatores naturais, esse tipo de substância não viaja
mais de 300 quilômetros no mar após o vazamento da sua fonte original.
Desta vez, no entanto, ela foi encontrada a cerca de 8.500 quilômetros
de distância da origem.
Garrafas encontradas no litoral dos EUA estavam contaminadas com óleo
encontrado no Nordeste do Brasil.
Para a equipe de pesquisa, a
descoberta lança um novo alerta para a importância de colaboração entre
países para combater o descarte de lixo nos oceanos, uma vez que um
problema que parece local pode chegar ao outro lado do mundo.
Vazamento de óleo e movimentação
As manchas de óleo que contaminam o litoral brasileiro começaram a
aparecer em agosto de 2019 e foram avistadas mais frequentemente até
novembro daquele ano, embora pequenas quantidades tenham sido
encontradas até março de 2020. Mais de 720 localidades foram atingidas, do Maranhão do Ri de Janeiro, conforme dados do Ibama.
Para além de causar danos ao mar e à faixa de praia brasileiros, após
ser derramado na costa do Nordeste, o óleo aderiu a garrafas e outros
itens despejados nas águas e acabou sendo arrastado pelas correntes
marítimas que levam do sul para o norte.
Em um período de cerca
de 240 dias - entre os primeiros avistamentos no Brasil e os primeiros
avistamentos nos EUA - o material percorreu aproximadamente 8.500
quilômetros e chegou à costa da Flórida, o estado mais ao sul dos Estados Unidos.
De acordo com o artigo científico, o lixo coberto de óleo foi
encontrado primariamente na costa de Palm Beach, a cerca de 120
quilômetros de Miami, entre os meses de maio e setembro de 2020. Em sua
maioria, garrafas de vidro e plástico com tampa, parcialmente ou
totalmente cobertas pelo óleo.
Exemplares das garrafas contaminadas com óleo encontradas em Palm Beach, na Flórida (EUA).
A presença foi detectada pela organização voluntária Friends of Palm
Beach (FOPB), dedicada à limpeza do litoral da cidade. O grupo procurou
universidades locais para relatar o achado, e os americanos, que mantêm
projetos de cooperação com professores do Instituto de Ciências do Mar
(Labomar) da UFC, buscaram os brasileiros para testar a hipótese de se
tratar do mesmo óleo encontrado no Nordeste do Brasil.
“Nós
temos o perfil químico de todos os óleos que chegaram desde 2019 até
2025 na costa do Ceará. Então, o óleo [do Ceará] batia, tinha o mesmo
perfil químico, a mesma impressão digital, o termo correto é esse, a
fingerprint, do óleo com o óleo que estava nas garrafas [na Flórida]”, explicou o professor Rivelino Cavalcante, do Labomar, um dos brasileiros que assinam o artigo.
Modelos matemáticos de pesquisa apontam que, para perfazer o trajeto, o
material passou pelo litoral das Guianas e da Venezuela, foi levado
pelo mar do Caribe e pelo Golfo do México e, por fim, aportou na cidade
de Palm Beach, uma trajetória que, segundos os pesquisadores, confirma a
recorrência de correntes marítimas do sul do continente para o norte.
Possível trajetória do lixo marinho contaminado por óleo que chegou à
costa dos EUA a partir do Brasil
Gerenciamento de resíduos
Uma das surpresas dos pesquisadores com a descoberta foi justamente a
distância que o óleo alcançou sem se degradar. Geralmente, manchas de
óleo não vão mais longe que 300 quilômetros do local de origem - de onde
vazou - devido aos efeitos combinados das intempéries do mar, da
dispersão pelas ondas e, por fim, da própria degradação.
O diferencial deste caso está no lixo marítimo. Em algum momento, o
óleo vazado na costa brasileira acabou por encontrar o lixo do
continente despejado no mar. Após encontrar a substância, o óleo aderiu
às superfícies plásticas ou de vidro, que também são conhecidas pela
capacidade de flutuar.
A união deu uma sobrevida ao óleo, que conseguiu fazer toda a viagem do
Nordeste, atravessando o Caribe e chegando aos Estados Unidos.
"Quando ele [óleo] fica aderido a alguma superfície, ele cria uma certa
resistência, o processo de degradação vai ser mais lento", afirma Rivelino.
Um dos fatores que levou os americanos a contatar os colegas
brasileiras foi justamente que muitas das garrafas encontradas na costa
da Flórida possuíam rótulos em português, no que se verificou que não
vinham de países próximo.
Além das garrafas de lixo cobertas com óleo, a FOPB também encontrou diversos fardos de borracha na região. Os fardos são os mesmos que apareceram no litoral nordestino em 2018.
A suspeita é que o material seja de um navio afundado na Segunda Guerra
Mundial que transportava borracha e que, em 2018, foi saqueado em
alto-mar, o que levou ao vazamento da carga presa até então.
Fardo de borracha encontrado na Flórida era da mesma carga de fardos
encontrados no Nordeste em 2018. — Foto: Divulgação/Labomar
Para o professor Rivelino Cavalcante, a combinação dos dois casos, do
óleo e dos fardos de borracha, são um alerta sobre o problema de
gerenciamento de resíduos sólidos - e como isso tanto um problema local
quanto global.
“Nós
temos uma dificuldade muito grande de gerenciar o nosso resíduo sólido.
Então, no começo das chuvas, normalmente, você vê muito lixo saindo
pelos rios, pelo Cocó, pelo [rio Ceará, pelo rio Jaguaribe lá na frente.
E o que foi que aconteceu? Provavelmente, essas garrafas se juntaram a
esse óleo. O óleo também flutua, ou vem quase na superfície [...]. E aí
as garrafas, na forma de lixo flutuante, seguiram as correntes. E aí foi
para lá na Flórida”, detalha o pesquisador.
Para o cientista, o problema do lixo dos oceanos só pode ser resolvido
por meio de uma solução que envolva a cooperação entre países. "O
cenário é que não adianta você mesmo sendo um país muito desenvolvido,
sendo um país que tem todos os cuidados com o gerenciamento de resíduos
sólidos, você não vai estar protegido [...]. Então, o problema do lixo
nos oceanos, ele não é peculiar de cada país costeiro, ele é um problema
do mundo todo", afirma.
Lixo encontrado no Ceará veio da África
Tampinhas e garrafas de plástico encontradas em praias do Ceará têm
logos de empresas que não funcionam no Brasil. — Foto: Leonardo Igor/g1
De acordo com o projeto, esse lixo plástico encontrado nas areias vem
de países como Costa do Marfim, África do Sul, Camarões, Angola, Nigéria
e Gana. Há também registro de lixo de países como Alemanha e China.
O estudo apontou que a maior parte vem da República Democrática do
Congo por meio Rio Congo, um dos dez maiores do mundo. No caminho até
sua foz, na fronteira da RDC com a Angola, o rio acaba sendo destino de
boa parte dos despejos de lixo plástico do país.
O destino final das águas do rio Congo - e o lixo trazido com elas - é
justamente o Oceano Atlântico. Conforme a pesquisa revelou, o lixo
chegou até a costa cearense trazido pelas correntes marítimas do oceano
Atlântico. O trajeto dos plásticos do continente africano até o litoral
do estado leva entre 6 e 11 meses.
g1