Encíclica. A carta de Francisco ao mundo

Batizada de "encíclica verde", a mensagem do papa Francisco contida na carta "Louvado seja" estabelece relação entre esgotamento de recursos naturais e pobreza


Mais que preocupação com a mudança climática e o impacto nas vidas de cada um, a encíclica papal “Louvado seja”, divulgada na última quinta-feira, volta-se à desigualdade global como subproduto do esgotamento do meio ambiente.

Textualmente, o papa Francisco não deixa margem a qualquer dúvida: ocupar-se do homem é ocupar-se da morada de todos.
A mensagem é radical, terna e revolucionária como os
evangelhos.

“O ambiente humano e o ambiente natural degradam-se em conjunto; e não podemos enfrentar adequadamente a degradação ambiental se não prestarmos atenção às causas que têm a ver com a degradação humana e social”, afirma a circular do Vaticano.

Coligindo dados sobre aquecimento global e distribuição de renda, a encíclica estabelece relação direta entre pobreza e esgotamento dos recursos naturais. É, talvez, o aceno mais significativo da Santa Sé à teologia da libertação, doutrina segundo a qual não se apartam a Terra e o vivente.

Eis aí a súmula das 160 páginas da mensagem de José Bergoglio, o argentino que se tornou Francisco e abraçou o legado de humanidade do santo. Primeiro, o alerta de que o paradigma fundado no consumo excessivo e restritivo levará todos ao abismo.

Depois, a esperança: unidos por habitarmos uma morada comum, somos convocados a inventar outros modos de coletividade.

O documento opera uma crítica tão abrangente quanto inédita na própria igreja, aludindo mais ao terreno que ao divino. Nela, quase nada é dito sem que tenha conexão com o dia a dia das pessoas. Por exemplo: ao falar sobre a derrocada do sistema financeiro em 2008, o papa sugere um redesenho das prioridades globais, de modo a reduzir a velocidade de consumo e favorecer os mais pobres. A palavra-chave é equidade, mas também racionalidade.

É como se o pontífice aliasse a melhor ciência ao espírito transformador que está na base dos ensinamentos de Cristo. Ou como se se apropriasse da análise de Thomas Piketty, teórico para quem o crescimento da riqueza não tem resultado em menos desigualdade, e do voluntarismo de Barack Obama.

É mais que qualquer líder das nações poderosas já disse sobre a injustiça e a ganância neste início de século XXI.

Obama elogiou enfaticamente a escritura. “Admiro profundamente a decisão do papa para pedir ações contra a mudança climática de forma clara, forte e com toda a autoridade moral que sua posição lhe confere”, disse o presidente norte-americano.

Jornalista e escritor espanhol, Juan Arias explica o entusiasmo de Obama com a encíclica: “Em um mundo órfão de líderes mundiais capazes de imporem-se por sua força moral, a arriscada decisão do papa de dedicar sua primeira encíclica não ao céu, mas à Terra, condenando os responsáveis pelo holocausto ecológico, o consagra como uma grande líder mundial não somente espiritual, mas também social e até mesmo político”.

Aos poucos, é o que Francisco tem se tornado: uma voz de alcance global que extrapola o mundo cristão. É impossível não se deixar afetar por sua mensagem.
O Povo

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