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O Vaticano reconheceu pela
primeira vez a existência de um protocolo para lidar com os padres que tiveram
filhos depois de terem jurado celibato. As autoridades da Igreja Católica
afirmaram que as regras continuarão secretas e que este é um problema interno
da instituição. Alessandro Gisotti, porta-voz do papado, disse ao jornal The
New York Times que o “princípio fundamental” do documento, criado em 2017, é
“proteger as crianças” que nasceram dessas relações.
Gisotti limitou-se a revelar que,
de acordo com as diretrizes, os padres que têm filhos são obrigados a deixar
suas funções religiosas para “assumir a responsabilidade como pais,
dedicando-se exclusivamente à criança”.
A polêmica em torno do voto de
castidade acontece na mesma semana em que o papa Francisco manterá uma reunião
inédita com 115 bispos e representantes da igreja Ortodoxa e de ordens
católicas femininas para tratar dos abusos sexuais cometidos por sacerdotes.
Organizações de defesa das vítimas estarão do lado de fora, em vigília.
O papa discutirá as inúmeras
acusações de estupro e assédio sexual que abalam a Igreja neste momento.
Algumas das denúncias envolvem autoridades de destaque. Do encontro de quatro
dias, que começa na quinta-feira, 20, o Vaticano espera também definir punições
alternativas aos padres que têm herdeiros.
Não existem dados oficiais do
número de filhos dos padres em exercício, mas um grupo de apoio a eles, o
Coping International, tem 50.000 inscritos de 175 países. Alguns foram fruto de
relações consensuais, mas outros vieram ao mundo por meio de abusos.
O fundador do site, Vincent
Doyle, também filho de um padre, aposta que a grande quantidade de descendentes
dos religiosos será “o próximo escândalo” a atingir a Igreja Católica. “Existem
crianças por toda parte”, garantiu ele em entrevista ao Times.
Críticos do celibato obrigatório
para os sacerdotes argumentam que essa regra contribui para os abusos sexuais e
afasta potenciais padres da função, quando o contingente de religiosos está em
declínio em alguns países. No catolicismo oriental as igrejas têm uma tradição
antiga de padres casados, e o Vaticano já abriu exceções ao celibato para
anglicanos casados que se converterem.
Mas não há indicações de que, no
encontro desta semana no Vaticano, a flexibilização ou mesmo o fim do celibato
esteja na pauta. No mês passado, o papa Francisco se opôs a qualquer mudança na
tradição centenária.
“Pessoalmente, acho que o
celibato é um presente para a igreja. Eu diria que não concordo com a permissão
dos votos serem opcionais”, afirmou o pontífice. Ele acrescentou que as
ressalvas se restringem aos “lugares muito distantes”, em que existe uma
“necessidade pastoral” pela falta de padres.
Revista Veja



