Passado o Carnaval, o presidente Jair Bolsonaro se volta para a
batalha da busca de apoio político no Congresso Nacional para aprovar
sua proposta de reforma da Previdência, carro-chefe de sua gestão, mas
terá também de contornar dois focos de desgaste: a repercussão negativa
causada pela postagem de um vídeo obsceno em sua conta no Twitter e as
críticas de autoridades católicas durante o lançamento da Campanha da
Fraternidade.
Ontem, o presidente publicou um vídeo no qual dois homens aparecem em
atos obscenos diante de uma multidão, gravado durante o Carnaval, que
gerou críticas na imprensa internacional.
Um texto do jornal americano "The New York Times" começou com um
alerta: "O artigo que você está prestes a ler é sobre um vídeo com
conteúdo sexual, o presidente da quarta maior democracia do mundo e as
guerras culturais que agitam o Brasil".
O vídeo polêmico foi gravado no desfile do Blocu, em São Paulo, na
última segunda. Nesta quarta-feira à noite, Bolsonaro disse, por meio
de nota, que não pretendia criticar o Carnaval de forma genérica.
"Não houve intenção de criticar o Carnaval de forma genérica, mas sim
caracterizar uma distorção clara do espírito momesco, que simboliza a
descontração, a ironia, a crítica saudável e a criatividade da nossa
maior e mais democrática festa popular", citou o texto do Palácio do
Planalto.
Especialistas
Segundo a avaliação dos pesquisadores, o presidente pode ter
pretendido fazer um aceno aos setores conservadores que ajudam a
sustentar seu governo após críticas sofridas na última semana.
Wagner Pinheiro Pereira, historiador da Universidade Federal do Rio
de Janeiro (UFRJ) e especialista em análise de impactos da imagem na
política, destaca que o uso das redes sociais é uma das principais e
mais recorrentes estratégias de Bolsonaro.
"O presidente deseja atribuir características imorais, criminosas,
antipatrióticas aos seus críticos, apresentando-os como corruptores,
depravados, desviados socialmente", afirmou Pereira.
Alberto Pfeifer, coordenador do Grupo de Análise de Conjuntura
Internacional da Universidade de São Paulo (USP), concorda que a
intenção do presidente era a de se comunicar com o seu eleitorado. A
estratégia, disse, é similar à que o presidente já adotava antes da
eleição.
Para Pfeifer, contudo, assessores do presidente deveriam aconselhá-lo
a desistir dessa estratégia controversa, já que, a partir de agora,
posicionamentos como esse, mesmo direcionados a um público interno,
assumem novo relevo com ele tendo sido eleito.
A discussão sobre o vídeo obsceno ocorreu no dia do lançamento da
Campanha da Fraternidade de 2019. Membros da Conferência Nacional dos
Bispos do Brasil (CNBB) criticaram publicamente as políticas de governo
anunciadas por Bolsonaro, como a liberação da posse de armas de fogo.
Para o secretário-geral da CNBB, Dom Leonardo Ulrich Steiner, o Governo
Bolsonaro precisar rever algumas de suas decisões. "Nós temos
preocupação, por exemplo, com a questão de armar a população".
Diário doo Nordeste



