Há vários anos Fortaleza não enfrentava, no aspecto habitacional,
grandes problemas decorrentes de alagamentos e inundações. Para famílias
em áreas de risco da cidade, como as que residem próximo a leitos de
rios, encarar as significativas precipitações da quadra chuvosa atual
vem sendo um desafio. O último mês de fevereiro, por exemplo, foi o mais
chuvoso dos últimos 10 anos na Capital, segundo dados da Fundação
Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme).
Enquanto a média histórica prevista para o período é de 163.2
milímetros de chuva, o observado pelo órgão foi de 362.4 milímetros,
mais que o dobro do esperado. A cidade não tinha um acumulado tão
significativo desde 2011, quando o registrado no mês foi de 338.7
milímetros.
Mas se a Capital em grande parte sofre com problemas de drenagem,
fato que potencializa enchentes em ruas e avenidas, é nas áreas de risco
onde as águas encontram refúgio, para desespero e prejuízo dos mais
vulneráveis.
Imagens muito comuns no Sudeste hoje se repetem no Conjunto
Palmeiras, no Jangurussu e até no Barroso, bairros da Regional VI de
Fortaleza: sofás, geladeiras, guarda-roupas e vários móveis suspensos
sobre tijolos, fugindo da água barrenta que invade as casas sem anúncio
prévio. Com ou sem chuva, a causa do cenário é conhecida: o sangramento
da barragem do Rio Cocó, construída em junho de 2017 para evitar
inundações em 14 bairros adjacentes.
O efeito, porém, tem sido frustrado. Na última semana de fevereiro, o
volume máximo da barragem foi alcançado e a água transbordou –
inundando residências tanto nas áreas ribeirinhas como em pontos mais
distantes. No último fim de semana, a barragem sangrou de novo: e, assim
como a fartura d’água, os transtornos se repetiram.
Prejuízos
“A água começou a subir pelos bueiros rápido, e as pessoas em pânico.
Moro no Barroso I há 30 anos, e isso nunca tinha acontecido. Foi só
depois dessa barragem. A gente não mora perto do rio, nossa rua é
asfaltada, tem saneamento, minha casa é mais alta que a rua, e ainda
alaga. Perdi todos os meus móveis, meu pai tá só com a televisão e uma
rede pra dormir”, diz o comerciante Cláudio Rubens, 33.
Segundo ele, o nível da água começou a se elevar por volta das 13h de
domingo (10), informação reforçada pela assistente administrativa
Amanda Cordeiro, 39. “O que nos preocupa é que, depois da construção da
barragem, chuva de apenas um dia de duração está alagando nosso bairro,
que é bem distante dela”, declara.
O Barroso é vizinho ao Jangurussu, onde se encontra a barragem, e ao
Conjunto Palmeiras, um dos mais prejudicados pelas inundações. No último
domingo, a reportagem presenciou casas, comércios e vias públicas
tomados pela água, após 30 milímetros de precipitações na Capital.
Moradora do Palmeiras há 23 dos 45 anos de idade, a dona de casa Neci
Pereira afirma que há 18 anos não aconteciam inundações na região. “O
rio não enchia como agora, com essa barragem, que qualquer chuvinha
enche. A gente é que sofre. A casa da minha filha ficou pelo meio de
água, ela perdeu um guarda-roupa novinho. Muita gente perdeu as coisas”,
lamenta
Segundo o diretor de operações da Companhia de Gestão dos Recursos
Hídricos (Cogerh), Bruno Rebouças, a barragem não é a causa dos
alagamentos, já que evitou o vazamento de 120 mil litros de água por
segundo em direção aos bairros, domingo, impedindo uma inundação ainda
maior. Ele negou a abertura das três comportas, “operadas só durante a
estiagem”, e atribuiu parte do problema às “ocupações irregulares” às
margens do Rio Cocó.
Por outro lado, Bruno explicou como causa das inundações em fevereiro
e, consequentemente, no último fim de semana, um conjunto de fatores:
“maré alta, impedindo a água do rio de ir para o mar; chuvas muito
expressivas em menos de 24h e uma cidade impermeabilizada”. Ainda
segundo o diretor de operações, “a Cogerh não teve como esvaziar a
barragem nesses 15 dias, porque vinha baixando lentamente em parceria
com a Defesa Civil”. Com as chuvas do fim de semana, o sangramento foi
inevitável.
O prefeito Roberto Cláudio, por sua vez, anunciou, ontem, manter o
monitoramento das comunidades mais afetadas numa força-tarefa entre
Defesa Civil, Corpo de Bombeiros, Guarda Municipal e equipes das
Regionais, em caso de atendimento a famílias desalojadas. Atualmente,
120 pessoas estão abrigadas no Cuca do Jangurussu, decorrente das chuvas
do último sábado.
Segundo o prefeito, das 2.257 famílias cadastradas após as chuvas dos
dias 21 e 22 de fevereiro, 1.083 já receberam visita da Defesa Civil, a
fim de se avaliar prejuízos e o risco estrutural das residências.
Destas, 400 já devem receber o auxílio financeiro anunciado pela Pasta a
partir da próxima sexta-feira (15).
Ainda conforme Roberto Cláudio, o cadastro visa identificar as atuais
áreas de risco da cidade para que, a médio e longo prazos, seus
moradores sejam beneficiados em futuras políticas habitacionais. “Ao
longo desses cinco anos, já conseguimos retirar 50 áreas de risco da
cidade. Só para famílias da área do Cocó, já foram entregues 1.684
apartamentos do programa Minha Casa Minha Vida, mas em virtude das secas
dos últimos anos, o leito do rio causou uma impressão equivocada de que
aquela era uma área seca, e as famílias voltaram a construir lá”, disse
o prefeito.
Durante coletiva de imprensa para apresentar ações destinadas à
prevenção e à minimização dos impactos negativos da quadra chuvosa,
ontem, o prefeito Roberto Claudio anunciou o processo de captação de
crédito no valor de R$ 550 milhões para obras de saneamento, drenagem e
pavimentação de áreas vulneráveis e com incidência de alagamentos na
cidade. Entre os bairros a serem beneficiados estão o Jangurussu,
Conjunto Palmeiras, Presidente Vargas, Barroso, Passaré, Bom Jardim,
Siqueira e outros. O valor será oriundo de recursos nacionais e
internacionais. Os trabalhos estão previstos para começar no segundo
semestre de 2019.
(Diário do Nordeste)



