Galpões abandonados, maquinário sucateado e o fim de um ciclo de intensa
atividade agropecuária nas décadas de 1970 a 1990 marcam a história do
cooperativismo no Sertão do Centro-Sul do Ceará. As razões estão ligadas
à crise da produção do algodão e de arroz irrigado, desorganização
administrativa e falta de conscientização dos sócios sobre a importância
do modelo de negócio.
Quem visita o Perímetro Irrigado Icó-Lima Campos, no Centro-Sul do
Ceará, observa imensos galpões fechados, abandonados e alguns poucos
alugados. Unidades de beneficiamento de algodão e arroz estão
paralisadas e o maquinário já foi vendido há décadas. Implementos
agrícolas estão sucateados.
O técnico do Departamento Nacional de Obras contra a Seca (Dnocs), em
Icó, Erivan Anastácio de Souza, lamenta o quadro atual. "As cooperativas
estão todas fechadas. A produção no perímetro está quase acabando por
causa da crise hídrica", observou.
Para Anastácio, faltou organização dos sócios. Todas as cooperativas
ficavam dentro da área do Perímetro Icó-Lima Campos, que deveria ser
irrigado, no entanto, quando havia reserva de água não tinha
infraestrutura de canal para transferência do recurso hídrico por
gravidade.
Alexsandro Fabrício, gerente da Associação do Distrito de Irrigação
Icó-Lima Campos (Adicol), disse que a situação é muito crítica. "Nas
quatro cooperativas havia grande produção, máquinas colheitadeiras,
unidades de beneficiamento que geram milhares de emprego e renda, mas
tudo isso acabou", lamenta. "Houve problemas de dívidas, desorganização
social e queda na produção que contribuíram para o quadro atual".
Toda a produção de arroz no perímetro era beneficiada nas cooperativas.
Nas cidades de Cedro, Jucás e Iguatu havia ampla movimentação nas
cooperativas de algodão. "O dinheiro corria solto, havia produção,
geração de centenas de empregos, mas tudo isso parou", queixou-se o
agricultor Francisco Marques, ex-sócio da Cooperativa Agrícola de Cedro
(Cocedro).
Resistindo
De todas as unidades da região, a única que funciona parcialmente é a
Cooperativa Agrícola de Iguatu (Coiguatu), fundada há 42 anos. A
resistência, no entanto, só é viabilizada por meio de prestação de
serviço de aluguel de máquinas para preparo de terra.
A Coiguatu negociou dívida no valor de R$ 15 milhões e, para pagá-la,
vendeu a usina de beneficiamento de arroz. O quadro de sócio que chegou a
ser de três mil, hoje é apenas de 200. "Estamos escapando com aluguel
de máquinas para a produção agrícola, mas infelizmente a crise nos
impede de novas atividades no momento", disse o diretor financeiro
Renato José de Lucena.
Dependência
As cooperativas são apontadas como modelo de negócio para o futuro, mas
por que no sertão cearense não deram certo nas unidades voltadas para a
produção agropecuária?
O presidente do Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo no
Estado do Ceará, João Nicédio Nogueira, analisa que a monocultura - nos
ciclos do algodão e depois do arroz - criou uma dependência da
atividade. "Não houve diversificação e quando as crises vieram, os
negócios tornaram-se inviáveis", disse.
Nicédio Nogueira cita como exemplo a cooperativa de Senador Pompeu que
conseguiu buscar sobrevivência em outras atividades produtivas. "Sem
produção e sem participação consciente e efetiva dos sócios não há como
uma cooperativa sobreviver", observou Nogueira.
Uma das vantagens apontadas para o modelo do cooperativismo é a queda no
valor de compra de produtos. A venda da produção, em grande quantidade,
também beneficia os associados por conseguirem preços mais atrativos.
Desta forma, a cooperativa permite agregar valor ao produto e ter escala de venda para indústria e comércio.
Honório Barbosa/Diário do Nordeste



