No
Estado, 375 professores afirmaram terem sido vítimas de violência extrema que
colocou a integridade física em risco. Os dados são do Anuário de Brasileiro de
Segurança Pública
"Você
vai pagar pelo que fez. Eu te pego lá fora". Palavras carregadas de fúria
feriram o emocional de uma professora da rede municipal no Ceará. Após intervir
em um conflito na sala de aula, ela foi ameaçada por uma das alunas. Episódios
de intimidação por estudantes a docentes foram registrados por 1.501 diretores
de escolas de ensino fundamental, em 2017. No universo de 3.880 gestores, o
número representa 38,7%. Em casos extremos, quando os docentes se tornam
vítimas de atentados à vida, 375 educadores entraram nas estatísticas. O dado,
extraído do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, projeta o Estado como o 2º
do Nordeste em números de casos, atrás apenas da Bahia, com 504 ocorrências.
O estudo
obteve o resultado após a análise de questionários da Prova Brasil do
Ministério da Educação (MEC). Diretores e professores de escolas que ofertam do
5º ao 9º ano responderam a pesquisa, totalizando 47.606 profissionais da
educação. Entre gestores pedagógicos e educadores, 23.787 relataram não sofrer
tentativas de morte, e outros 23.444 ficaram sem resposta. Os 375 docentes
ameaçados equivalem a 0,8% do quantitativo integral de entrevistados. O
Anuário, porém, não descreve como os alunos praticaram os atos infracionais.
A
socióloga e coordenadora de Estudos e Políticas sobre a Juventude da Faculdade
Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), Miriam Abramovay, referência em
pesquisa sobre violência nas escolas, alerta que uma das mais relevantes
informações contidas no levantamento é justamente o quantitativo dessa
violência extrema: os casos de atentado à vida. De acordo com ela, embora os
números pareçam ínfimos diante de um efetivo tão grande de profissionais, a
gravidade dessas situações torna a quantidade bastante expressiva.
"É um
tipo de violência mais grave. Fica uma incógnita. É preciso aprofundar e fazer
estudos qualitativos desses professores e dessas situações. Embora sejam dados
que, muitas vezes, representam menos de 2%, é muita coisa. É preciso procurar
formas de aprofundar essa pesquisa e detectar o que aconteceu com essas
pessoas", ressalta.
Essa é a
segunda vez que o Anuário Brasileiro de Segurança Pública traz dados sobre
violência nas escolas. O levantamento agrega informações geradas na Prova
Brasil, realizada a cada 2 anos. Na edição do Anuário de 2017 com dados
referentes a 2016, 255 professores do Ceará afirmaram terem sofrido atentado à
vida.
Caso
Para a
professora ameaçada, lembrar do transtorno ocorrido em agosto de 2017 ainda
provoca sensações de angústia e nervosismo. Mais de dois anos depois, a cena
continua na memória. Tudo começou quando a aluna, que tinha comportamento
hostil e descumpria horários com frequência, desrespeitou um colega já na
primeira aula. Questionada sobre o motivo da agressão verbal, a menina retrucou
aborrecida. A educadora insistiu na resposta com o intuito de entender a
situação e solucionar o embate, mas a estudante voltou a se exaltar. Dessa vez,
com xingamentos. Como consequência da conduta, a estudante foi retirada da sala
e encaminhada à coordenação, que a obrigou a voltar à escola somente na
presença dos pais.
"Minutos
depois, uma funcionária chega na porta da sala com a mãe e a aluna. A mãe, que
estava muito nervosa, já chegou falando que se eu tivesse a conhecido em outros
tempos, ela ia quebrar a minha cara ali mesmo. Ela não queria saber o que a
filha tinha feito e dava razão a ela", descreve a professora, que não
conseguiu dar aula naquele dia.
Núcleo
gestor, professores, Secretaria da Educação e Conselho Tutelar resolveram
decidir, em reunião, o procedimento mais adequado para a aluna. O grupo optou
por transferir a garota para outra escola. O parecer, contudo, gerou ainda mais
indignação em mãe e filha, que voltaram a dizer que a educadora "iria ver
e pagar por tudo que estava fazendo". Após serem retiradas da unidade,
ambas ficaram no portão proferindo novas ameaças. "Me esperando, dizendo
que iam quebrar a minha cara, me bater".
Trauma
A
professora precisou ser escoltada pela Polícia Militar para conseguir sair do
colégio. Um Boletim de Ocorrência (B.O) foi registrado, mas a perseguição
continuou. "Eu fui buscar o meu marido no trabalho e ela saiu correndo
atrás de mim com pedras", revela. O estresse foi tanto que a educadora
adquiriu herpes labial e pressão alta. Para além dos sintomas físicos, a
sensação de impotência. "Você se ver novamente numa situação dessa, fica
tremendo, nervosa, com medo de acontecer de novo", lamenta.
O
psicólogo, doutor em Educação e professor da Universidade Federal do Ceará
(UFC), Pablo Pinheiro, destaca que, de modo geral, as pesquisas sobre violência
da escola não se concentram nos crimes e agressões contra professores.
Pesquisador da relação trabalho docente e saúde, ele enfatiza que o estudo
dessa condição deve considerar as características da violência, que são os
perpetuadores dessas ações, quais os fatores que de algum modo contribuem e
quais as consequências. Um dos efeitos é que "a repercussão da violência
tem uma incidência importante de quadro de depressão e transtornos relacionados
à ansiedade".
Além
disso, ele alerta que no campo do trabalho, as agressões e ameaças geram
"absenteísmo em relação ao professor e algumas vezes, inclusive, a
propensão de desistir da própria profissão".
O
pesquisador explica, ainda, que a violência nas escolas tem várias dimensões e
podem ser categorizadas em, pelo menos, três aspectos: assédio verbal; com
deboches em sala, situações de racismo e insultos de cunho sexual, atentados
contra a propriedade, quando estudantes atacam bens de professores como
veículos, bolsas; e agressões físicas. A mais recorrente delas, afirma ele, são
casos de assédio e ameaça.
Um dos
mecanismos que pode ajudar a modificar esse cenário de violência, avalia o
pesquisador, é o acolhimento e atuação da gestão escolar. "Quando o
professor encontra suporte institucional dentro da escola para enfrentar essa
situação de violência, com o diretor, com o coordenador, isso tende a moderar
os efeitos da violência sobre o professor".
Diário do Nordeste



