O ataque é silencioso, muitas vezes identificado quando as consequências
já afetam o corpo, seja pequeno ou grande. É a doença mais cruel do
século, dizem muitos. E esse adjetivo pesa ainda mais quando o câncer,
de diversos tipos, acomete as crianças e os adolescentes. A estimativa
do Instituto Nacional de Câncer (Inca) é que cerca de 360 novos casos
sejam diagnosticados em crianças e adolescentes no Ceará, em 2020, uma
média de 30 por mês. O número alerta para a importância do diagnóstico
precoce, ao qual se volta o Dia Internacional de Luta Contra o Câncer na
Infância, lembrado neste 15 de fevereiro.
O quantitativo anual estimado de novos casos projetados pelo Inca é o
mesmo para este ano e para os dois seguintes, de modo que ao fim do
triênio 2020-2022, pelo menos 1.080 cearenses de zero a 19 anos devem
ter a doença confirmada, sendo 50% deles de cada gênero. No Brasil, o
cenário muda: para cada ano do triênio, estima-se que serão
identificados 4.310 casos novos entre meninos e 4.150 entre meninas.
Em Maria Eduarda, hoje com 9 anos, a Leucemia Linfoide Aguda (LLA),
câncer considerado o mais comum entre crianças e adolescentes, teve como
primeiro sinal uma febre durante as férias na casa da avó, em 2016 -
ano em que obtiveram o diagnóstico no Hospital Infantil Albert Sabin
(HIAS), em Fortaleza, e a luta da criança junto à mãe, Karoline Alves,
36, se iniciou. "O tratamento durou até 2018, quando as quimioterapias
pararam de dar resultado, não serviam mais de nada. Foi quando entramos
na Justiça e conseguimos uma medicação nova liberada pela Anvisa. Ela
foi uma das primeiras do Ceará a tomar", relembra Karol.
A substância foi responsável por "limpar" a medula de Duda, requisito
para a pequena tentar a realização de um transplante em São Paulo, do
qual o pai dela foi o doador. "Foram três anos de luta, e ela foi
guerreira. Desenvolveu diabetes, teve trombose no braço, mas seguiu. A
chance de ela transplantar e a doença voltar existia, mas era um risco
que a gente tinha que correr. Em dezembro de 2019, fez um ano. E ela tá
bem, curada. Vai voltar a estudar, agora, porque, com 9 anos de idade,
ela ainda não teve essa oportunidade. A Duda nasceu de novo, é um
milagre que a gente tem", comemora a mãe.
Para Karol, a "doença agressiva e traiçoeira" perdeu forças graças à
rapidez do diagnóstico. "Quando é precoce, a criança pode ser salva.
Antes, eu não tinha essa consciência, mas é muito importante fazer um
check-up nos nossos filhos, um hemograma com frequência. Se a criança
tiver febre, ir ao médico, não se medicar em casa. É assim que a criança
ou o adolescente vai ter mais chances de ser curado, a gente precisa
dar isso a eles", aconselha Karol, que desabou com o diagnóstico de
Duda, mas se reergueu para ajudar a filha e outras famílias que
enfrentam batalhas contra a doença.
Cura
A dona de casa Jovelina Sousa, 28, aliás, já encara uma segunda guerra. O
filho Pablo, 11, foi diagnosticado com Linfoma de Hodgkin em fevereiro
de 2016, após o aparecimento de febre, manchas no corpo, falta de
apetite, forte dor de cabeça, fraqueza, apatia, desmaios e dores no
estômago - órgão que já "guardava" 29 nódulos, quando a doença foi
identificada. Depois de todo o tratamento, a cura veio em julho de 2019.
Mas, seis meses depois, o câncer retornou.
"Na primeira vez, tive um choque assustador, mas me contive, porque vi
mãezinhas no Lar (Amigos de Jesus, casa de apoio a pacientes e
familiares) que tinham o filho com câncer pior do que o do meu filho.
Foi quando me encontrei com forças pra prosseguir. Hoje, estou mais
fortalecida, porque sei onde tratar e como lidar. Mas não é fácil: a
cada dia que vamos ao hospital fazer um exame, tenho medo de uma notícia
ruim. Sempre vamos com nervosismo", conta Jovelina.
Além do temor pela saúde de Pablo, a mudança na rotina dos dois,
naturais do Município de Monsenhor Tabosa, também desequilibra a mente.
"Ele começou a estudar, mas parou quando teve a recaída. Ele é proibido
de ir à escola. Pelo tratamento ser longo e não ter ideia de quando
vamos voltar pra casa, a gente fica triste. Mas nossos planos não são os
mesmos de Deus", diz a mãe do pequeno, atracada na fé divina que, para
ela, se sobrepõe a todas as outras.
Segundo o Inca, a taxa de cura para o câncer em crianças chega a cerca
de 80%. Apesar disso, a Confederação Nacional das Instituições de
Assistência à Criança e ao Adolescente com Câncer (CONIACC) aponta que o
carcinoma infantojuvenil é a segunda maior causa de morte na faixa
etária entre um a 19 anos, perdendo apenas para fatores externos, como
acidentes.
Assistência
No Ceará, o Centro Pediátrico do Câncer (CPC), do Hospital Infantil
Albert Sabin (HIAS), é a unidade de referência para tratamento da
doença. Em média, cerca de 2.500 pacientes são atendidos. De acordo com
Nádia Trompieri, coordenadora do Ambulatório de Diagnóstico Precoce do
Câncer do HIAS - "criado para analisar casos suspeitos e chegar a um
diagnóstico final" -, o número de novos casos tem aumentado mês a mês.
As crianças, em geral, chegam enviadas por médicos da Atenção Primária
ou Equipes de Saúde da Família, com encaminhamento para confirmar ou não
as suspeitas.
"O LLA é o câncer mais comum de todos, corresponde a 40% de todos os
cânceres infantis. Têm ainda os tumores renais, ósseos, no Sistema
Nervoso Central. Os linfomas também são muito comuns, principalmente o
Não-Hodgkin. Mas o câncer infantil responde melhor ao tratamento, tem
chance de cura muito maior se for identificado no início: cerca de 70%
de todos os casos são curáveis", estima a médica oncologista.
Além do tratamento medicamentoso, da quimioterapia e de cirurgias,
métodos mais comuns para tratar a doença na faixa etária de zero a 19
anos, a complementação por meio de outras atividades é considerada
importante no processo de cura. "Precisamos de equipe multidisciplinar,
com assistente social, psicólogo, enfermagem especializada. Não funciona
só com médico. O voluntariado também dá uma enorme ajuda para as
crianças, que ficam mais felizes, aderem e aceitam melhor o tratamento.
Tem gente que acompanha em brincadeira, fica muito mais fácil",
reconhece Nádia.
Em Fortaleza, uma das instituições que ofertam abrigo, alimentação,
transporte, atividades de lazer e outros serviços é o Lar Amigos de
Jesus, no bairro São João do Tauape, que acolhe, hoje, cerca de 80
pessoas por dia, entre familiares e crianças. O local é presidido pela
Irmã Conceição Dias, que resume a importância de um "tratamento
humanizado" para o câncer, sobretudo quando acomete crianças.
"Temos projetos sociais com a parte recreativa, de artesanato,
palestras, acompanhamento psicológico. Vamos ter Carnaval. No caminho
pro hospital, brincamos e dançamos, pra eles não ficarem tristes pelo
tratamento. Além dos médicos, nós fazemos isso pra aumentar a autoestima
deles, a vontade de viver".
Diário do Nordeste



